O poeta é um fingidor da dor que deveras sente, como nos disse Fernando Pessoa, mas ele pode muito bem cumprir o papel de um potente escrutínio lírico sobre as próprias palavras, conforme o desejo e – quem sabe – a missão pessoal que toma para si. Sabe por quê?
Hoje, Henrique de Medeiros responde à pergunta com o seu mais novo lançamento. O atual presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL) convida os leitores, entre cativos e vindouros, para a noite de autógrafos de “Nadas em Busca dos Tudos – Poemas reunidos e revisitados”, livro que consiste em uma antologia de um revisitar do poeta sobre suas obras.
É esse o título que deu ao novo trabalho. Trata-se de um volume no qual a reunião de poemas dos seus livros anteriores “supera-se por recriações de Henrique Alberto de Medeiros Filho das suas obras, com intervenções em formatos, sequências e sentidos das palavras, reescrevendo versos e unificando estilos da sua literatura – no colher da poesia”.
A obra abrange quatro de seus livros lançados nos últimos 30 anos: “O Azul Invisível do Mês que Vem” (1993), “Pirâmide de Palavras” (1996), “Que as Dores se Transformem em Cores” (2006) e “Palavras Correndo Atrás de Textos” (2016).
O local escolhido pelo escritor, jornalista e publicitário foi a própria sede da ASL, localizada na Rua 14 de Julho, nº 4.653, nos Altos do São Francisco, com uma proposta de happening a ser realizado das 19h às 22h.
O livro, com 352 páginas e lançado pela Editora Letra Livre, traz ainda ensaios sobre sua obra pelas mãos de professores, doutores, ensaístas, pesquisadores e escritores como Ana Arguelho, Ana Maria Bernardelli, Dênis de Moraes, Rubenio Marcelo e Raquel Naveira.
Ainda, um texto escrito em 1996 por Manoel de Barros a Henrique de Medeiros serve, no prefácio, como uma sensível lembrança entre poetas.
A temática do autor em “Nadas em Busca dos Tudos” compõe uma antologia poética sobre o contexto moderno urbano, a dificuldade do encontro e a existência fragmentada.
Seus versos criam reflexões do cotidiano singular, que ganham ritmo e harmonia na investigação sobre grandezas e misérias que envolvem a condição humana.
Henrique de Medeiros atravessa as fragilidades das relações, das religiões, e percorre as confusões do ser, as ilusões da vida – entre sobrevivências, dúvidas e buscas pelo continuar.
Em uma linguagem que, em seu total, é basicamente voltada para a poesia concreta, em textos fortes que tratam os fragmentos da vida e do ser, o escritor afirma que a abordagem traz “anseios de respostas que não se disponibilizam no pensar do homem e seus fazeres”. Para ele, o “entendimento entre o viver e a palavra é um exercício de buscas e resgates”.
O AUTOR
Henrique Alberto de Medeiros Filho é poeta e escritor nascido em Corumbá. Após sua infância e adolescência, além de estudos universitários e atividades profissionais como jornalista e publicitário em São Paulo e no Rio de Janeiro, ele se tornou partícipe da cena artística e cultural principalmente do Brasil central.
Graduado em Comunicação Social pela antiga Universidade Gama Filho (RJ), exerce atividades criativas, multimídia, editoriais e empresariais. É autor de livros de poemas, contos, crônicas, outros escritos e biografia. Ainda, seus escritos fazem parte de diversas antologias e coletâneas. Imortal da ASL, é seu atual presidente e ocupa a cadeira de número 10.
PINGUE-PONGUE
Acompanhe, a seguir, um pouco do bate-papo entre o poeta e o repórter Marcos Pierry sobre “Nadas em Busca dos Tudos”.
O que mais te motiva à criação dos poemas?
Catarse. Sempre, sempre, foi um processo de explosão. Meu processo criativo se desenvolve exclusivamente pela combustão. Não há uma premeditação de sentar diante do papel, escrever diariamente, promover o exercício da escrita. É algo puramente que vem sei lá de onde, que vem dentro do olhar que se tem ao observar a vida.
E o que o levou a essa proposta de exercer um copidesque sobre o que já havia escrito, às vezes até há bastante tempo, como no caso dos poemas de “O Azul Invisível do Mês que Vem”, que saiu nos anos 1990, mas, me parece, com criações de décadas antes?
Com o tempo, vamos modificando nossa forma de escrever. Em muitos antigos poemas usei pontuações, caixa alta e baixa... Na minha sequência de textos, passei a suprimir totalmente pontuações, letras em maiúsculas, mantendo formatos muito livres.
Ainda, várias palavras utilizadas em poemas eu achei que já não cabiam mais em determinadas leituras. Enfim, os textos antigos, novos, de suas determinadas épocas, brigando entre si.
Alguns poemas que mereciam uma revisão, serem reescritos. Isso terminou me fazendo juntar todos os trabalhos, eliminar alguns poemas que nem revisitando me agradavam e reescrevê-los de um modo geral dando uma unidade.
Esse foi basicamente o motivo desse livro. E terminei buscando dividir tematicamente os textos, usando o poema “Nadas em Busca dos Tudos” para isso. Coisas de escritor insatisfeito.
Mesmo assim, o livro soa um tanto ousado e até arriscado, não?
Por incrível que pareça, comecei a compilar essa antologia por falta de tempo de terminar um novo livro que está meio que pela metade. Estava há muito tempo sem publicar e não conseguia parar para produzir nem mesmo trabalhar novos pedaços de ideias e poemas. Achei que seria prático e fácil. Doce ilusão.
Passei a mexer tanto nos textos antigos, a rever, a reescrever em função dessas “revisitações do antigo”, organizá-los dentro de uma sequência, enfim, que acho que teria sido mais fácil terminar o novo…
SERVIÇO
Noite de autógrafos com Henrique de Medeiros
- Evento: lançamento do livro “Nadas em Busca dos Tudos – Poemas reunidos e revisitados”;
- Data: hoje (20/5);
- Horário: das 19h às 22h;
- Local: Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL);
- Endereço: Rua 14 de Julho, nº 4.653, nos Altos do São Francisco;
- Traje: esporte.
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