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Honestino volta ao presente pelas mãos de Bruno Gagliasso

Em passagem pelo Bonito CineSur, ator e diretor Aurélio Michiles defenderam o cinema como instrumento de memória e resistência

Ana Claudia Paixão

01/08/2026 - 16h10

Há nomes que permanecem na História e, ainda assim, correm o risco de perder aquilo que um dia tiveram de mais concreto: um rosto, uma família, amigos, desejos, medos e uma vida interrompida.

Honestino Guimarães tornou-se símbolo da resistência à ditadura militar brasileira, mas foi também um jovem que escrevia poemas, estudava, amava e imaginava um futuro que lhe foi roubado.

Foi esse homem anterior ao símbolo que Bruno Gagliasso procurou encontrar em Honestino, filme dirigido por Aurélio Michiles e apresentado na noite de sábado, 25 de julho, durante o Bonito CineSur.

A produção mistura documentário e ficção para reconstruir a trajetória do líder estudantil, presidente da União Nacional dos Estudantes e um dos desaparecidos políticos do regime militar.

Honestino foi preso e perseguido por sua atuação política. Desapareceu em 1973, depois de ser capturado por agentes da repressão, e seu corpo jamais foi encontrado. Mais de cinco décadas depois, sua história continua marcada não apenas pelo que se sabe, mas também por tudo aquilo que o Estado brasileiro ainda não foi capaz de responder.

Aurélio Michiles parte dessa ausência para construir um filme que não pretende encerrar a história, mas devolvê-la ao presente. Para isso, utiliza cartas, poemas, documentos, imagens de arquivo e depoimentos de pessoas que conviveram com Honestino.

Nas sequências dramatizadas, Bruno Gagliasso assume o papel do líder estudantil, dando corpo e voz a um jovem cuja imagem ficou durante muito tempo limitada aos registros da militância e da repressão.

O homem antes do símbolo

Após a sessão, Bruno explicou que seu desafio não era interpretar apenas um personagem político conhecido, mas encontrar a pessoa que existia antes de Honestino se transformar em um nome da resistência brasileira.

Essa escolha muda a relação do público com a história. Em vez de apresentar Honestino somente como mártir, o filme procura recuperar sua juventude, sua sensibilidade e suas relações afetivas.

A violência da ditadura se torna ainda mais concreta quando percebemos que ela não eliminou somente um opositor político. Eliminou um filho, um irmão, um amigo e todas as possibilidades de uma vida que ainda estava começando.

Bruno também falou sobre a responsabilidade de participar de um projeto como esse. Ao comentar a violência sofrida por Honestino e por tantos outros perseguidos pelo regime, resumiu a urgência do filme em uma frase: “Não pode normalizar”.

A afirmação diz respeito ao passado, mas inevitavelmente alcança o presente. A memória não é apenas uma forma de homenagear aqueles que desapareceram. É também uma maneira de reconhecer os mecanismos que permitiram que prisões ilegais, torturas, assassinatos e desaparecimentos fossem cometidos em nome do Estado.

Honestino volta ao presente pelas mãos de Bruno Gagliasso - Divulgação

Um desaparecimento que permanece

A história de Honestino guarda uma das feridas mais dolorosas da ditadura brasileira: a ausência de um corpo e de uma resposta definitiva para sua família.

Não houve despedida, sepultamento ou conclusão. O desaparecimento se prolonga no tempo porque impede que o luto encontre um ponto final.

É nessa falta que o filme de Aurélio Michiles encontra sua força. Honestino não transforma documentos em uma enumeração fria de acontecimentos.

Ao aproximar os registros históricos das lembranças de familiares e amigos, mostra que a política atravessa vidas individuais e deixa consequências que permanecem muito depois do fim oficial de um regime.

O longa também ajuda a aproximar essa história de gerações que não viveram a ditadura e, muitas vezes, conhecem seus crimes apenas de maneira superficial.

A presença de Bruno Gagliasso certamente amplia o alcance do filme, mas o ator não tenta se sobrepor ao personagem. Seu trabalho está justamente em devolver humanidade a um nome que os documentos oficiais tentaram apagar.

O cinema como memória

A exibição no CineSur ganhou um significado particular por acontecer em um festival dedicado ao encontro entre diferentes cinematografias da América do Sul, continente marcado por ditaduras, perseguições políticas e disputas permanentes em torno da memória.

Ao trazer Honestino para Bonito, o festival reafirma que o cinema não serve apenas para representar o passado. Também pode questionar as versões oficiais, recuperar histórias interrompidas e devolver espaço àqueles que foram silenciados.

Aurélio Michiles e Bruno Gagliasso não apresentaram apenas um filme sobre um jovem desaparecido em 1973. Apresentaram uma obra sobre a dificuldade brasileira de encarar plenamente sua própria história.

Enquanto famílias ainda esperarem respostas e crimes de Estado forem tratados como detalhes distantes, personagens como Honestino continuarão pertencendo tanto ao passado quanto ao presente.

O cinema talvez não consiga preencher todas as ausências. Mas pode impedir que elas sejam esquecidas.

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