Seja para enfrentar uma noite de estudos, aguentar o ritmo intenso do trabalho ou potencializar a diversão noturna, os energéticos conquistaram espaço cativo na rotina dos brasileiros.
Mas afinal, o que acontece dentro do nosso organismo quando consumimos essas bebidas? Os efeitos são apenas benéficos ou existem riscos escondidos atrás da promessa de disposição instantânea?
Para responder a essas e outras perguntas, o Correio B conversou com a nutricionista Camila Vargas, que detalhou os mecanismos de ação dos principais componentes dos energéticos e traçou um panorama completo sobre os impactos dessas substâncias na saúde.
COMPOSIÇÃO
A estrela principal dos energéticos é a cafeína, e seu mecanismo de ação é fascinante. “A cafeína atua como um estimulante do sistema nervoso central, bloqueando a ação da adenosina, uma substância que induz o relaxamento e o sono”, explica Camila.
Ao impedir que o cérebro receba o “sinal de cansaço”, a substância faz com que o organismo se mantenha mais desperto.
Além disso, a cafeína estimula a liberação de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, responsáveis pela sensação de prazer, aumento da disposição, foco e atenção. “Isso melhora a concentração, o tempo de reação e a sensação de energia”, completa a nutricionista.
A taurina por sua vez, diferentemente do que muitos pensam, não é uma substância estimulante. “É um aminoácido que exerce funções regulatórias e protetoras no organismo”, esclarece Camila. Seu papel principal envolve o equilíbrio das células, a função muscular e a saúde do sistema nervoso.
Quando combinada com a cafeína, a dupla atua de forma complementar: enquanto a cafeína estimula, a taurina ajuda a equilibrar essa estimulação, contribuindo para a estabilidade do sistema nervoso e da função muscular. “Na prática, a combinação pode gerar mais foco, atenção e disposição”, afirma a nutricionista.
FAZ MAL?
A resposta, como quase tudo na nutrição, depende do contexto. “Energético não é vilão, mas não deve ser usado em excesso nem diariamente”, pontua a nutricionista. “Ele funciona como um estímulo pontual, não como fonte real de energia ou substituto do sono e da alimentação”, completa.
Em pessoas saudáveis e sem excessos, o consumo moderado não costuma prejudicar. O problema surge quando o uso é desproporcional ou em grupos específicos: pessoas que sofrem de ansiedade, problemas de pressão arterial, insônia, gestantes e adolescentes.
Os efeitos agudos do consumo incluem aumento temporário da frequência cardíaca, elevação discreta da pressão arterial e, em pessoas mais sensíveis, sensação de palpitações. Já os efeitos crônicos – associados ao uso frequente ou excessivo – podem incluir manutenção da pressão mais elevada em pessoas predispostas, maior risco de ansiedade, insônia e sobrecarga cardiovascular.
“O energético pode agravar problemas cardíacos já existentes”, alerta Camila, destacando que mesmo pessoas saudáveis devem estar atentas à quantidade consumida.
A nutricionista também destaca o ciclo vicioso desencadeado pela bebida. “Pode ser útil pontualmente, mas o uso frequente cria um ciclo de estimulação excessiva, piora do sono e necessidade de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito”, afirma.
Grupos de risco para o consumo de energéticos incluem: crianças e adolescentes porque têm sistema nervoso ainda em desenvolvimento e maior risco de ansiedade, agitação, insônia e alterações cardíacas; gestantes, que devem evitar, porque a cafeína atravessa a placenta e o feto não metaboliza bem a substância; e idosos, porque metabolizam a cafeína mais lentamente, têm maior chance de palpitações, aumento da pressão, tremores e insônia, além de possíveis interações com medicamentos de uso contínuo.
COMBINAÇÕES
Um dos alertas mais importantes feitos por Camila Vargas diz respeito à mistura de energético com bebida alcoólica.
“O energético não anula os efeitos do álcool, apenas mascara os sinais de embriaguez”, afirma. Isso leva a comportamentos mais arriscados e maior impacto à saúde, com riscos elevados de arritmias, taquicardia, desidratação e sobrecarga do coração.
Enquanto o álcool é depressor do sistema nervoso, causando sonolência e diminuição dos reflexos, o energético estimula e reduz a sensação de cansaço e embriaguez. “A pessoa se sente mais desperta, mas continua alcoolizada”, resume.
Além do álcool, o energético não deve ser misturado com café, pré-treinos, termogênicos ou guaraná em cápsulas, pois aumentam muito a dose total de cafeína. “Para adultos saudáveis, a referência segura é de até 200 mg de cafeína por dose, considerando todas as fontes consumidas no dia”, detalha Camila.
Medicamentos estimulantes (usados para TDAH ou emagrecimento), descongestionantes nasais e antigripais, e drogas ilícitas estimulantes como cocaína e anfetaminas também representam risco elevado de arritmias e eventos cardíacos graves quando combinados com energéticos.
OUTROS ESTIMULANTES
Na comparação entre energético e café, a nutricionista explica que ambos estimulam, mas o energético tende a gerar efeito mais intenso e mais riscos, principalmente se consumido rápido ou em grandes quantidades. “O café, em geral, é mais previsível e seguro quando consumido com moderação”, compara Camila.
No contraste do energético com o pré-treino existe diferença prática ainda mais significativa. Enquanto o energético comum foca apenas em estimular e não é formulado especificamente para performance física, o suplemento pré-treino tem fórmula pensada para o exercício, podendo conter beta-alanina, citrulina, creatina e outros componentes que melhoram foco, resistência e desempenho. “Não recomendo substituir pré-treino por energético”, afirma a nutricionista.
DÁ ENERGIA?
Quem já experimentou energéticos provavelmente conhece a sensação de cansaço extremo que pode surgir após o efeito passar. Isso acontece porque a cafeína apenas “mascara” o cansaço ao bloquear os sinais de fadiga.
“Quando o efeito diminui, esses sinais voltam de uma vez, podendo causar sensação de exaustão”, explica Camila.
“Energia verdadeira vem de sono, alimentação equilibrada, hidratação e rotina organizada”, resume a nutricionista. “Estimulantes podem ajudar pontualmente, mas o corpo funciona melhor quando não precisa ser forçado a ‘ligar no modo emergência’ todos os dias”, esclarece.
Para quem busca combater o cansaço sem depender de estimulantes artificiais, Camila Vargas recomenda:
> Refeições regulares para evitar quedas bruscas de glicose;
> Combinação de carboidrato + proteína + gordura boa em cada refeição;
> Alimentos ricos em ferro, magnésio e vitaminas do complexo B (verduras verde-escuras, leguminosas, ovos, carnes, oleaginosas);
> Hidratação adequada.
Alimentos que oferecem energia mais estável incluem frutas com oleaginosas (como banana com castanhas), iogurte natural com frutas, aveia, ovos, arroz e feijão. Chás como chá-verde, chá-branco, de gengibre, hortelã ou alecrim podem estimular com mais suavidade.
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