Entre opiniões nas redes sociais que defendem a retirada do leite da alimentação e recomendações que apontam seus benefícios nutricionais, o alimento continua no centro de discussões sobre saúde e alimentação.
Para a nutróloga Marcella Garcez Duarte, no entanto, a pergunta não deveria ser simplesmente se o leite “faz bem” ou “faz mal”, mas para quem, em qual quantidade, em que fase da vida e dentro de qual contexto clínico ele deve ser recomendado.
O tema foi discutido durante o Simpósio Satélite da Associação Brasileira da Indústria de Lácteos Longa Vida (ABLV) e da Tetra Pak, realizado durante a 30ª edição do Congresso Brasileiro de Nutrologia.
Com o título Ainda Faz Sentido Recomendar o Leite? O que Mudou nas Evidências e na Prática clínica, a palestra abordou o papel do leite e de seus derivados da infância ao envelhecimento.
Segundo Marcella, a retirada de um grupo alimentar sem diagnóstico ou evidência científica pode trazer prejuízos à alimentação.
Ela destaca que existem pessoas que não toleram ou não devem consumir leite, mas que essas situações precisam ser diferenciadas de escolhas baseadas apenas em informações disseminadas nas redes sociais.
“Não existe leite para todos. Existem situações em que você tem que fazer escolhas”, afirmou a especialista durante a palestra. Para ela, a indicação deve ser individualizada e considerar idade, estado nutricional, tolerância, necessidades de nutrientes, padrão alimentar e contexto clínico.
FONTE DE NUTRIENTES
O leite ocupa lugar de destaque na alimentação principalmente por sua composição nutricional. Um copo de aproximadamente 200 mililitros fornece cerca de 6 gramas a 7 gramas de proteína, além de cálcio, fósforo, potássio e vitaminas do complexo B, como B2, B6 e B12.
A nutróloga chamou atenção ainda para o conceito de “matriz alimentar”. Isso significa que os benefícios do alimento não devem ser analisados apenas pela soma isolada de seus nutrientes.
A interação entre proteínas, minerais, lipídios e outros componentes presentes no leite pode interferir na forma como esses nutrientes são utilizados pelo organismo.
Entre as proteínas, o leite possui principalmente caseína e proteínas do soro, utilizadas também na produção do whey protein.
Ambas são consideradas proteínas de alto valor biológico, com boa digestibilidade e presença de aminoácidos essenciais. A proteína do soro apresenta, ainda, quantidade relevante de leucina, aminoácido relacionado à síntese e à manutenção da massa muscular.
O cálcio também é um dos principais componentes associados ao consumo de leite e derivados. Marcella ressaltou que não basta considerar apenas a quantidade do mineral presente em determinado alimento, mas também sua biodisponibilidade, ou seja, quanto efetivamente pode ser absorvido e utilizado pelo organismo.
É IMPORTANTE NA INFÂNCIA
Nas primeiras fases da vida, a recomendação exige atenção especial. A especialista reforçou que, no Brasil, a orientação é para aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, seguido da introdução alimentar, enquanto o leite de vaca deve ser introduzido a partir dos 12 meses.
A restrição ao leite de vaca antes desse período está relacionada, entre outros fatores, à necessidade de garantir adequada oferta de ferro e de outros nutrientes durante o primeiro ano de vida.
Depois dos 12 meses, porém, o alimento pode contribuir para o crescimento e o desenvolvimento infantil. Proteínas, cálcio, fósforo, vitamina B12, vitamina B2 e potássio participam de processos importantes para a formação muscular, a mineralização óssea e o desenvolvimento da criança.
Na adolescência, a atenção se volta também para o chamado “banco” de massa óssea e muscular. É durante essa fase que ocorre parte importante da aquisição de estrutura que terá impacto sobre a saúde durante o envelhecimento.
Por isso, segundo Marcella, retirar leite e derivados da alimentação de crianças e adolescentes sem uma justificativa clínica pode exigir uma compensação nutricional adequada para evitar deficiências.
A escolha entre leite integral, semidesnatado ou desnatado também não deveria seguir uma regra única. A decisão precisa considerar idade, crescimento, ingestão energética, padrão alimentar, presença de sobrepeso ou obesidade e fatores de risco cardiometabólico.
TAMBÉM NA VIDA ADULTA
A necessidade de nutrientes não desaparece quando a fase de crescimento termina. Na vida adulta, o leite e os derivados continuam sendo fontes de proteínas e cálcio, além de fornecerem outros micronutrientes.
A especialista também abordou a relação entre leite e saúde cardiovascular. Segundo ela, o conjunto de evidências disponível não sustenta a ideia de que o consumo de leite ou de lácteos seja, por si só, prejudicial ao metabolismo cardiovascular.
Uma metanálise apresentada durante a palestra, publicada em 2023, foi citada para destacar que o consumo de lácteos não apresenta efeito adverso consistente sobre peso corporal ou perfil lipídico.
Isso não significa, entretanto, que exista uma recomendação universal de consumo ou que quanto maior a ingestão, melhor. O alimento deve estar inserido dentro do conjunto da alimentação e das necessidades energéticas e nutricionais de cada pessoa.
CONTROLE DE PESO
Outro ponto discutido foi o papel das proteínas no controle do apetite. Por fornecer proteína e apresentar volume significativo quando consumido como bebida, o leite pode contribuir para a saciedade.
A questão ganha importância diante do crescimento do uso de medicamentos análogos de GLP-1 e outras terapias incretínicas no tratamento da obesidade.
Como esses medicamentos podem reduzir o apetite e a quantidade total de alimentos ingeridos, a qualidade nutricional do que é consumido passa a ter ainda mais importância.
Para Marcella, pessoas em tratamento com esses medicamentos precisam receber atenção especial à ingestão proteica e à distribuição das proteínas ao longo do dia. Nesse contexto, o leite e seus derivados podem ser opções práticas para contribuir com o aporte proteico.
Ela ressalta, porém, que medicamentos para obesidade não substituem mudanças no estilo de vida. A alimentação continua fazendo parte do tratamento e deve ser individualizada.
“O consumo de alimentos proteicos de fontes de proteínas de alta biodisponibilidade tem que estar no contexto desta orientação alimentar”, afirmou.
O leite pode aparecer em diferentes refeições e preparações, como vitaminas, acompanhando refeições ou combinado a suplementos proteicos, quando estes forem necessários para atingir as necessidades individuais.
MAIS PROTEÍNA NA VELHICE
Na velhice, o leite ganha outro destaque. Com o avanço da idade, é comum ocorrer redução do apetite e da ingestão alimentar, além de alterações na absorção de nutrientes. Ao mesmo tempo, aumenta a preocupação com a perda de massa muscular e óssea.
A proteína passa a ter papel fundamental na manutenção da massa muscular, e sua distribuição ao longo do dia também é importante. Nesse cenário, leite, iogurtes, queijos e outros derivados podem ser alternativas para facilitar o consumo de proteínas.
Além da proteína, o leite fornece cálcio, fósforo e vitamina B12, nutrientes relacionados à manutenção óssea e a diferentes funções do organismo. A bebida também tem elevado teor de água e pode contribuir para a hidratação, uma questão relevante para pessoas idosas, que podem apresentar menor percepção de sede.
Para a especialista, portanto, o leite não deve ser analisado apenas como uma bebida, mas como uma opção alimentar capaz de reunir diferentes nutrientes em um único alimento.
E O LEITE UHT?
A palestra também abordou um dos tipos mais presentes na rotina dos brasileiros: o leite UHT, conhecido como leite longa vida.
Marcella explicou que a durabilidade do produto está relacionada principalmente ao tratamento térmico e ao sistema de envase asséptico.
O leite é submetido a temperaturas elevadas por um curto período, processo que reduz a presença de microrganismos patogênicos, e depois é acondicionado em embalagem que ajuda a impedir novas contaminações.
A especialista também contestou a ideia de que o leite UHT necessariamente contém conservantes para permanecer meses nas prateleiras.
Segundo ela, o processamento térmico e a embalagem são justamente os responsáveis pela segurança e pela maior vida de prateleira do produto. A afirmação de que o alimento seria nutricionalmente inferior apenas por passar por esse processo também não encontra respaldo, de acordo com a apresentação.
Embora o aquecimento possa provocar alterações em alguns compostos sensíveis ao calor, nutrientes importantes presentes no leite, como proteínas e cálcio, permanecem disponíveis.
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Fernanda Bertoni Strengari Passos, idade nova hoje - Foto: Arquivo pessoal
Taciana Veloso - Foto: Lu Prezia


