A redução do peso na balança não é suficiente para determinar se um tratamento contra a obesidade está sendo bem-sucedido.
Durante o processo de emagrecimento, especialmente com o uso de medicamentos incretínicos, como os análogos do GLP-1, também é necessário acompanhar o que está sendo perdido: gordura, músculo ou até mesmo massa óssea.
O alerta foi um dos principais pontos discutidos pelo nutrólogo Dr. Luiz Luna durante o Simpósio Satélite Momenta, que abordou o tema A Era do GLP-1: repensando o suporte ao músculo, osso e intestino na jornada de emagrecimento, realizado durante o Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN) deste ano, entre os dias 24 e 26 de setembro.
Segundo o especialista, os medicamentos de alta potência utilizados no tratamento da obesidade podem proporcionar perda significativa de peso, mas parte dessa redução pode ocorrer às custas de massa magra.
Por isso, a preocupação atual da medicina não está apenas em quanto o paciente emagrece, mas em como esse emagrecimento acontece.
“O problema não é só o paciente emagrecer, é como o nosso paciente vai emagrecer”, afirma Luna.
A preservação da massa muscular ganha importância porque o músculo está diretamente relacionado à funcionalidade, à força e à saúde metabólica.
A redução excessiva dessa estrutura pode trazer consequências para a autonomia do paciente e, de acordo com o nutrólogo, estar associada a desfechos desfavoráveis, inclusive cardiovasculares e cognitivos.
“Não tem muito sentido emagrecer sem checar a saúde óssea, a saúde muscular”, explica.
MASSA ÓSSEA
A relação entre músculo e osso foi outro ponto central da discussão. Durante o processo de emagrecimento, a redução de massa muscular pode ser acompanhada por alterações na saúde óssea. Luna resume essa relação de maneira direta: “Pouco músculo caminha de mãos dadas com pouco osso”.
O acompanhamento da massa óssea é especialmente importante porque, segundo o médico, marcadores de reabsorção óssea utilizados na avaliação desses pacientes podem indicar alterações durante o processo de perda de peso.
A preocupação aumenta quando há redução importante de massa muscular, já que a combinação pode elevar o risco de quedas e fraturas.
Em pacientes acima dos 60 anos, pode ocorrer a chamada obesidade sarcopênica, caracterizada pela presença simultânea de excesso de gordura e baixa quantidade de músculo. Nessa situação, a perda adicional de massa magra pode ter consequências ainda maiores.
Luna ressalta que a idade, por si só, não impede o uso de medicamentos incretínicos quando há indicação.
O tratamento, porém, precisa ser acompanhado de maneira cuidadosa. Para esses pacientes, o médico destaca a importância de avaliar regularmente a força muscular e composição corporal, inclusive por métodos como a bioimpedância.
“O idoso tem mais chance de perder massa magra”, afirma. Por isso, segundo ele, a utilização de medicamentos nessa população deve ser individualizada e acompanhada de perto.
TRATAMENTO
A possibilidade de perda muscular durante o emagrecimento não está restrita aos medicamentos. Luna explica que qualquer processo de restrição calórica pode provocar redução de massa magra, já que o organismo não consegue direcionar a perda exclusivamente para a gordura.
A utilização de medicamentos de alta potência pode potencializar essa perda, tornando ainda mais importante a adoção de estratégias para preservar o músculo.
Nesse contexto, dois elementos ganham destaque: exercício físico e alimentação adequada, especialmente a ingestão de proteínas.
Segundo o nutrólogo, pacientes que não estimulam a musculatura por meio de exercícios resistidos, como a musculação, e que não têm uma oferta proteica adequada tendem a apresentar maior perda de massa muscular.
O médico também cita a correção de deficiências nutricionais e, quando houver indicação profissional, o uso de suplementos com evidências científicas, como proteína e creatina, como parte do cuidado individualizado.
A avaliação da composição corporal deve acompanhar a evolução do tratamento. Para Luna, não basta observar o número apresentado pela balança. É necessário verificar periodicamente a quantidade de músculo e gordura e utilizar essas informações para orientar a progressão ou redução das doses dentro dos parâmetros estabelecidos para cada medicamento.
EFEITOS INTESTINAIS
Os medicamentos incretínicos podem reduzir a velocidade do trânsito gastrointestinal, o que faz com que sintomas como constipação sejam frequentes entre os pacientes.
O tratamento desse problema, entretanto, não deve ser igual para todos. Luna explica que existem diferentes tipos de constipação e que a estratégia precisa levar em consideração as características de cada paciente.
“Nem todo paciente constipado é tratado da mesma forma”, explica.
Uma das dificuldades está justamente no uso indiscriminado de fibras. Em determinados pacientes, a lentificação do trânsito intestinal pode fazer com que uma quantidade elevada de fibras provoque distensão abdominal e cólicas, em vez de simplesmente resolver o problema.
Além da constipação, o médico destaca a necessidade de acompanhar possíveis alterações na microbiota intestinal e outros sintomas gastrointestinais. Esses efeitos podem interferir na qualidade de vida e, em alguns casos, contribuir para que o paciente abandone o tratamento.
BONS HÁBITOS SÃO FUNDAMENTAIS
Apesar da expansão das terapias contra a obesidade, Luna explica que nenhum medicamento deve ser encarado como solução isolada. A base do tratamento continua sendo a mudança do estilo de vida, com alimentação adequada e aumento do gasto energético por meio da atividade física.
“O que a gente vê é o paciente nos procurando com esperança de que o remédio vai fazer milagre”, relata.
Para o nutrólogo, a abordagem da obesidade precisa ser multidisciplinar, já que a doença pode envolver diferentes fatores metabólicos, endocrinológicos, comportamentais e psicológicos.
Dependendo das características do paciente, podem participar do tratamento médico, nutricionista, educador físico e psicólogo.
Um exemplo é o chamado comer emocional, quando a alimentação aparece como resposta a sentimentos como tristeza ou ansiedade. Nesses casos, o acompanhamento psicológico pode ser fundamental para trabalhar o mecanismo que contribui para a manutenção da obesidade.
Luna compara o tratamento à construção de uma casa: antes do acabamento, é preciso construir a fundação. “A fundação é a mudança do estilo de vida”, resume.
DOENÇA CRÔNICA
Segundo o nutrólogo, um dos principais problemas do tratamento contra a obesidade ocorre quando o paciente encara o medicamento como uma intervenção temporária: emagrece, interrompe o uso e espera que o resultado permaneça automaticamente.
Para Luna, esse entendimento ignora a característica crônica da obesidade. Quando o tratamento é interrompido, o organismo pode voltar a favorecer o ganho de peso.
“Se o paciente para o tratamento, ele ganha peso”, afirma.
O médico defende que essa conversa aconteça desde a primeira consulta. O paciente precisa compreender a natureza crônica da doença e participar das decisões relacionadas ao tratamento.
Para ele, a chamada decisão compartilhada é um princípio fundamental: o profissional não deve simplesmente impor uma conduta, mas o paciente também não deve chegar ao consultório exigindo determinada medicação com base apenas em informações obtidas fora do acompanhamento médico.
A relação de confiança, segundo Luna, é particularmente importante porque muitas pessoas com obesidade chegam ao consultório depois de sucessivas tentativas frustradas de emagrecimento e carregam experiências de culpa e estigma.
“Esse paciente já vem sofrido”, diz. “A gente precisa acolher e conscientizar”.
NOVOS MEDICAMENTOS
O cenário da farmacoterapia da obesidade também está em transformação, com novas moléculas e combinações hormonais em desenvolvimento. Luna cita medicamentos que atuam em diferentes vias metabólicas e afirma que novas opções devem chegar ao tratamento da doença.
Ainda assim, ele ressalta que a chegada de novas terapias não muda o princípio básico do cuidado.
“Apesar de qualquer remédio que venha a aparecer, nada vai substituir o pilar básico, que é dieta e exercício”, afirma.
O ator Caio Mutai é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Fabio Audi - Diagramação: Denis Felipe
O ator Caio Mutai é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Fabio Audi - Diagramação: Denis Felipe


