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TURISMO

Região leste de Campo Grande vai abrigar a primeira vinícola a ser implementada na Capital

Com a implementação da Rota Bioceânica, diversos empreendimentos voltados ao lazer rural têm sido instalados na BR-262, na região leste de Campo Grande; entre as novas investidas, se destaca a primeira vinícola a ser implementada na Capital

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A menos de 10 quilômetros da área urbana de Campo Grande, a paisagem muda aos poucos e as avenidas largas da capital dão lugar a estradas contornadas por eucaliptos e, entre os espaços de mata nativa e sítios familiares, começam a surgir condomínios residenciais, empreendimentos logísticos e projetos de turismo rural. 

A região leste, antes discreta na expansão da cidade, está em transformação, impulsionada pelo movimento trazido pela Rota Bioceânica, caminho rodoviário que ligará o Brasil ao Oceano Pacífico, passando pelo Paraguai, Argentina e Chile.

FRONTEIRA DE EXPANSÃO

Com a duplicação da BR-262, na saída para Três Lagoas – trecho que integra a rota e também compõe a chamada Rota da Celulose –, a região passou a atrair investidores interessados no potencial de valorização da área.

Vinícola foi iniciada há apenas 50 dias, com o plantio das parreirasVinícola foi iniciada há apenas 50 dias, com o plantio das parreiras - Foto: Mariana Piell

Francisco Maia, proprietário da vinícola Quinta de São Francisco, percebeu nesse contexto a oportunidade de criar um empreendimento que unisse agricultura, bem-estar e turismo.

“A cidade toda se desenvolveu para a saída de Cuiabá, saída de São Paulo, saída de Aquidauana e a saída de Três Lagoas ficou quieta. Então começou agora o momento dos empreendimentos de condomínio”, afirma Francisco.

Parte da Rota Bioceânica, a BR-262 tem se desenvolvido rapidamenteParte da Rota Bioceânica, a BR-262 tem se desenvolvido rapidamente - Foto: Gerson Oliveira / Arquivo Correio do Estado

“Com a Rota Bioceânica, a gente entende que vai ser uma grande oportunidade dos empreendimentos imobiliários acontecerem na região”, complementa.

Essa percepção não é isolada. A BR-262, que corta Mato Grosso do Sul de leste a oeste, tornou-se um dos principais vetores de desenvolvimento urbano e econômico de Campo Grande.

Além da ampliação de condomínios de alto padrão, a região tem recebido novas estruturas voltadas à logística, ao lazer e, mais recentemente, à produção de experiências ligadas ao campo, como a vinícola Quinta de São Francisco, primeiro empreendimento da capital voltado à produção de vinho.

PIONEIRA

Instalada em uma área de cerca de 40 hectares, a vinícola ainda está em fase inicial, com dois hectares já plantados das variedades Sirrah, Cabernet Franc e Sauvignon Blanc.

Foto: Mariana Piell

O projeto, coordenado pelo gerente Júlio de Sá Marques, nasce com o propósito de criar um espaço de contemplação e vivência rural, voltado à cultura do vinho e ao turismo de experiência.

“A ideia é que a pessoa possa sentar dentro do parreiral, fazer um piquenique, colher a uva, ver como é o cultivo. É um espaço para acalmar o coração, relaxar e aproveitar o paisagismo”, explica Júlio.

Além da área produtiva, o terreno abriga uma pequena floresta nativa, onde serão criadas trilhas para caminhada e ciclismo, voltadas ao bem-estar e ao contato com a natureza. O projeto prevê ainda a construção de um lago para pesque-pague e quiosques individuais, privilegiando o descanso e a convivência em meio ao verde.

O grande destaque, contudo, será o restaurante instalado em um casarão de três andares, que está sendo reformado. Segundo o colaborador, Guilherme Giglio, o objetivo é oferecer uma estrutura completa para que o visitante passe o dia no local.

“Pretendemos também fazer horta, criação de galinhas e outros animais, para que tudo possa ser usado no restaurante de forma orgânica e autossustentável”, detalha Guilherme.

“O casarão vai ter mesas com vista para a região, mesas cobertas com uva, tudo pensado para criar um ambiente gostoso, onde a pessoa venha almoçar e queira ficar, passar a tarde, comemorar um aniversário ou até realizar um casamento”, complementa.

Quando estiver em pleno funcionamento, a Vinícola Quinta de São Francisco poderá se tornar um dos principais destinos de enoturismo de Mato Grosso do Sul. O plano é abrir o restaurante e o receptivo ao público até o fim deste ano, com as primeiras colheitas de uvas acontecendo entre 2027 e 2028.

Os visitantes poderão acompanhar o ciclo das videiras, participar de degustações, piqueniques e eventos temáticos, experimentar produtos da horta local e, no futuro, levar para casa as primeiras garrafas do vinho produzido em Campo Grande.

VINHO DE MS

O cultivo de uvas para vinhos em Mato Grosso do Sul ainda é uma novidade. Por causa da umidade do verão e da amplitude térmica do inverno, o manejo segue o modelo conhecido como “colheita de inverno”, já adotado em outras regiões do Brasil Central, como no cerrado mineiro, no noroeste paulista, e até mesmo em Mato Grosso do Sul, na vinícola Terroir Pantanal, primeira do estado, instalada em Aquidauana.

A safra nesse modelo de colheita é invertida: poda-se no verão e colhe-se no inverno, quando há insolação e menos umidade.

Os rótulos da Quinta de São Francisco serão produzidos em pequena escala, voltado ao consumo local e à experiência do visitante. Mais do que competir no mercado de vinhos, o objetivo do empreendimento é criar uma marca de identidade regional, que una o sabor do produto à vivência do local.

“O parreiral e o vinho são um complemento da experiência. Queremos que as pessoas venham aqui para conhecer o processo, viver um momento de contato com a terra e aproveitem o espaço”, explica Júlio de Sá.

ROTA DE OPORTUNIDADES

A Rota Bioceânica, eixo logístico que deve ligar o território brasileiro ao Chile, passando por Campo Grande e chegando ao porto de Antofagasta, estende-se por mais de 2.000 quilômetros.

Quando concluída, permitirá o escoamento de produtos brasileiros pelo Pacífico, reduzindo custos de exportação para a Ásia. Mas, além do peso econômico, a rota também está transformando o mapa turístico e imobiliário do Estado.

Ao fundo do parreiral, há a reserva de vegetação nativa, onde futuramente serão feitas trilhasAo fundo do parreiral, há a reserva de vegetação nativa, onde futuramente serão feitas trilhas - Foto: Mariana Piell

A perspectiva de integração internacional tem estimulado um movimento de modernização das estradas, com duplicações, novos acessos e investimentos públicos e privados.

No entorno da BR-262, especialmente entre a saída para Três Lagoas e o distrito de Rochedinho, a paisagem evidencia esse novo ciclo com condomínios luxuosos, parques ecológicos, empreendimentos hípicos e vinhedos que coexistem.

REFÚGIO

O nascimento desses projetos vem ao encontro de uma demanda crescente por lazer próximo e acessível.

Conforme explica Francisco Maia, após a pandemia, o público de Campo Grande passou a buscar mais contato com a natureza, experiências gastronômicas ao ar livre e espaços de descanso sem grandes deslocamentos. É nesse contexto que a região leste desponta como novo polo de lazer rural.

O Ecopark, por exemplo, já atrai cerca de 2 mil pessoas aos fins de semana, enquanto projetos como o Portal das Águas e a Pousada Pontal oferecem passeios, restaurantes e pequenas hospedagens integradas à natureza.

Há ainda áreas destinadas a esportes equestres, como o Clube do Laço e o Terras de São Francisco, o primeiro condomínio rural de Campo Grande projetado para atividades com cavalos.

>> Serviço

A vinícola Quinta de São Francisco tem previsão para abrir as portas ao público ainda no fim de 2026. Até lá, os trabalhos desenvolvidos na propriedade poderão ser acompanhados pelo site: quintadesaofrancisco.com.br.

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Diálogo

Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul barrou o recurso de presidiário...Leia na coluna de hoje

Confira a coluna Diálogo desta terça-feira (13)

13/10/2026 00h01

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Silvana Duboc - escritora brasileira

"Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele
se afogue nelas”.

Felpuda

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul rejeitou o agravo e barrou o recurso de presidiário que queria porque queria ser indenizado pelo Estado por conta das “más condições” das instalações em Corumbá. Ele alegou superlotação e insalubridade do local, apresentando testemunho de pessoa que já tinha cumprido pena por lá. Entretanto, a Justiça não aceitou as alegações, rejeitando sua pretensão, pois não se comprovou nenhum dano causado ao indivíduo em consequência dos problemas. Se essa moda pega...

De 29 de outubro a 1º de novembro, a Feira Central de Campo Grande realizará o MS Moto Week – Rota Bioceânica, encontro que pretende reunir motociclistas de Mato Grosso do Sul e de países vizinhos, visando movimentar a cidade e deixar o evento como atração permanente ligada ao motociclismo e ao turismo de experiência. Ele conta com as parcerias do Sesc-MS e do Senac-MS. A proposta é de aproveitar a localização de Campo Grande no corredor internacional para estimular a permanência dos viajantes por aqui, movimentando hotéis, comércio, postos de combustíveis, gastronomia e artesanato. A programação prevê três palcos, com atrações de rock, sertanejo e diversidade, além da gastronomia característica da feira, com pratos como sobá e espetinhos. Também estão programadas atividades recreativas e infantis, oficinas, jogos e ações culturais e artísticas.

Bruna Vilela
Camila Yunes Guarita

Na cola

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul está fechando o cerco aos suspeitos de desviarem milhões de reais da Santa Casa. Os promotores pediram à Justiça quebra de sigilo fiscal e bancário de mais dois dirigentes do hospital. E sai de baixo!...

Pupila

Cassy Monteiro recebeu enxurrada de votos, quase 45 mil, para deputada federal, mas não levou e ficou na primeirasuplência. Entretanto, não está desamparada, pois vai ocupar, de forma definitiva, a vaga de André Salineiro na Câmara Municipal de Campo Grande. A futura vereadora fez campanha com forte engajamento nas redes sociais e teve a participação de Nikolas Ferreira, campeão de votos no Brasil. Nos vídeos, Nikolas pediu votos para sua pupila, que por pouco não foi eleita deputada federal. “Quem tem padrinho não morre pagão”, né?

Pode, sim

Os mais de 33,4 milhões de eleitores que faltaram ao primeiro turno, realizado no dia 4, poderão votar normalmente no segundo turno, marcado para o dia 25. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cada turno é uma eleição independente. Por isso, quem faltou na primeira etapa poderá participar da segunda, desde que o título não esteja cancelado nem suspenso. No primeiro turno, cerca de 125,2 milhões de brasileiros votaram. Isso equivale a quase 79% dos mais de 158,7 milhões de eleitores aptos.

Aniversariantes

  • Dra. Maria José Martins Maldonado,
  • Rubens Fernando de Camillo,
  • Naína Caroline Hernández Dibo Soares,
  • Jair de Jesus Fiorentino,
  • Leida Gualberto Ferreira,
  • Alfredo Aparecido da Silva,
  • Thiago Brites da Silva,
  • Delmir Antonio Comparin,
  • Lucas Rojas Franco de Souza,
  • Manoel Barbosa de Souza,
  • Leonina Arantes Bueno,
  • Wellyngton Dantas de Abreu,
  • Sérgio de Almeida Bomfim,
  • Leonis Rocha da Costa,
  • Dr. Hamilton Fagundes,
  • Marcelo de Moura Bluma,
  • Eduardo Lopes,
  • Paulo Roberto Gonçalves Ishikawa,
  • Luiz Alexandre Inacio do Amaral,
  • Jalmir Batista Modesto,
  • Silvio Roberto Carrato Júnior,
  • José Ferreira Durães,
  • Neide Regina do Carmo Raslan,
  • Marcos Fernando Rabello de Moura Brasil,
  • Luiz Paulo Duarte de Assis,
  • Dinair Rezende Marques,
  • Hiana Duarte Romeiro,
  • Jefferson Mazureck,
  • Jéssica Lapas,
  • Olegário Teodoro de Carvalho,
  • Elza Shimabukuro,
  • Célia Maria Rodrigues Ferreira,
  • Diego Tófoli,
  • Nídia Fátima Ferreira,
  • Plínio Ferreira Garcia,
  • Francisco Portela,
  • Maria Jorge Leite da Silva,
  • Antônio Eduardo Livramento,
  • José Tenório Gomes,
  • Maria Rosana de Almeida Teodoro,
  • Natalia Gama dos Santos Vieira da Cunha,
  • Sildo Francisco Frutuoso,
  • Manoel da Silveira Borges,
  • Maria de Fátima Oliveira Sales,
  • Rui Ballerine Fernandes.
  • Ana Márcia da Cunha,
  • Sérgio Ostetto Oliveira,
  • Darlan Soares Miranda,
  • Tatiana Lelis Lima,
  • Luiz Pereira Cavalcante,
  • Mateus Augusto Guerreiro,
  • Daniel Freire,
  • José Luiz Barbosa,
  • Sergue Faria Barros,
  • Cinthia Estela Mendonça Ximenes,
  • Arlindo Fernandes de Paiva Neto,
  • Noel Martins,
  • Claudinéia Gonçalves da Silva,
  • Hélio José Casamassa,
  • Américo Soares de Souza,
  • Clauber Elizio Ferreira,
  • Daniel Florenço de Santana Filho,
  • Willian Flores da Silva,
  • Valdemar José dos Santos,
  • Eduardo Gerson de Oliveira Gimenez,
  • Dra. Silvia Naomi de Oliveira Uehara,
  • Gleice Aparecida Oliveira Proença,
  • Ailton César Sanches Moreno,
  • Karina Aiko Miyashiro,
  • Jeanete Marilia Schiefelbein Kieling,
  • Rosana Siqueira Vertucci,
  • Maria Amélia Escame de Almeida Guimarães,
  • Mario Roberto Perussi,
  • Carla Aparecida de Campos Melo,
  • Eduardo Ramão Pereira Gimenez,
  • Neveton Isac dos Santos,
  • Fátima Maria de Oliveira,
  • José Cândido Alves,
  • Luciley Farias,
  • Eduardo Duarte Flores,
  • Ariene Rezende do Carmo,
  • Marcelo Roberval Dias,
  • Admir José Romualdo,
  • Creginaldo de Castro Câmara,
  • Joaquim Dias da Mota Longo,
  • Edgard Alberto Froes Senra,
  • Dr. Orivaldo Gazoto Júnior,
  • Virna de Oliveira Leite,
  • Emerson Vieira Cação,
  • Francisco das Chagas de Siqueira Júnior,
  • Karina Lopes Antunes Santos,
  • João Domingues Jeronymo Sobrinho,
  • Sueli Duarte da Costa,
  • Maria Aparecida Oliveira,
  • Kátia Aparecida Santana Gonçalves,
  • Sônia Regina Silveira Dupin Duarte,
  • Luiz Eduardo Silva Parreira,
  • Flávia Rejane de Rezende Oliveira,
  • Cleuza de Andrea,
  • Kelly Viega de Lima,
  • Miriam Cilene Reis Costa,
  • Esmeraldo Alves do Nascimento,
  • Paulo Shigueru Kisaki,
  • Luis Edmundo Malisek Rodrigues.


* Colaborou Tatyane Gameiro

SAÚDE

Congresso de Nutrologia revela: transtornos podem ter ligação com cultura alimentar

Especialistas defendem escuta ativa, acompanhamento multidisciplinar e estratégias individualizadas para pacientes com obesidade, pós-bariátricos e que têm alterações na relação com a comida

12/10/2026 10h00

Emagrecer costuma ser um processo que envolve não somente diversos hábitos como também as emoções; por isso, é necessário fazê-lo com acompanhamento multidisciplinar

Emagrecer costuma ser um processo que envolve não somente diversos hábitos como também as emoções; por isso, é necessário fazê-lo com acompanhamento multidisciplinar Reprodução/magnific

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Mudar a alimentação vai muito além de receber uma lista de alimentos permitidos e proibidos. Hábitos alimentares são construídos ao longo da vida e podem estar associados a emoções, experiências, crenças, relações sociais e até a diferentes formas de funcionamento do cérebro. Por isso, estratégias de aconselhamento e o reconhecimento de transtornos alimentares são cada vez mais importantes no acompanhamento de pacientes.

O tema esteve entre as discussões do 30° Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN), realizado de 24 a 26 de setembro, em São Paulo (SP). Promovido pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), o evento reuniu profissionais e pesquisadores para discutir avanços no diagnóstico e no tratamento da obesidade e de outras questões relacionadas à saúde e à alimentação. 

Durante as palestras, especialistas chamaram atenção para situações que podem ser confundidas com falta de disciplina, “frescura” ou simplesmente dificuldade para seguir uma dieta.

Mudança de hábito

Segundo os especialistas, uma das dificuldades no tratamento da obesidade é justamente compreender que o comportamento alimentar não é determinado apenas pelo conhecimento sobre nutrição.

Mesmo quando o paciente sabe o que deveria comer, isso não significa que conseguirá modificar seus hábitos imediatamente.

Nesse processo, estratégias utilizadas em intervenções motivacionais e na terapia cognitivo-comportamental podem ajudar o paciente a reconhecer a distância entre a maneira como se comporta e a forma como gostaria de agir.

A abordagem passa, por exemplo, pela empatia. Em vez de confrontar alguém que não conseguiu seguir determinada orientação, o profissional pode investigar o que aconteceu, quais sentimentos estavam envolvidos e quais obstáculos apareceram na rotina.

A chamada “resistência” também deve ser compreendida como parte do processo. Para quem está acostumado a determinados sabores, horários e formas de comer, uma mudança brusca pode parecer inviável. Por isso, metas menores e possíveis de serem cumpridas tendem a ser mais úteis do que uma série de restrições difíceis de manter.

Outra estratégia é identificar os estímulos associados ao comportamento alimentar. Um paciente pode, por exemplo, comer diante do estresse, do cansaço ou da ansiedade sem necessariamente reconhecer essas situações como gatilhos. Com o tempo, pode passar a confundir fome com vontade de comer.

Recaídas acontecem

A prevenção de recaídas também foi apontada como parte fundamental do tratamento. Um episódio fora do planejamento pode provocar a sensação de fracasso e desencadear um ciclo de compensação, culpa e abandono.

A proposta, nesse caso, é transformar o episódio em informação: entender o que aconteceu, quais fatores contribuíram e o que pode ser feito de maneira diferente na próxima situação.

O apoio social também tem papel importante. Família e amigos podem facilitar ou dificultar mudanças de comportamento, especialmente quando não compreendem o tratamento. Por isso, esclarecer as pessoas próximas sobre a condição e sobre as estratégias utilizadas pode melhorar a comunicação e a adesão.

Pós-bariátricos exigem atenção

A necessidade de olhar além do peso também foi destacada durante a discussão sobre pacientes submetidos à cirurgia bariátrica.

A médica Fernanda Miranda, pediatra e psicoterapeuta especializada em transtornos alimentares, chamou atenção para mudanças que podem aparecer principalmente após o primeiro ano da cirurgia. Segundo ela, o reganho de peso nem sempre representa uma falha do procedimento. Em muitos casos, pode estar relacionado a alterações no comportamento alimentar.

A especialista destacou que pacientes com obesidade grave apresentam elevada frequência de diagnósticos psiquiátricos ao longo da vida e que transtornos alimentares e sintomas relacionados à perda de controle sobre a alimentação precisam ser investigados antes e depois da cirurgia.

Entre os comportamentos que merecem atenção estão a compulsão com perda de controle, o grazing, caracterizado pelo chamado beliscar repetidamente ao longo do dia, além de padrões restritivos e relacionados ao medo de recuperar peso.

Um dos desafios é justamente identificar o grazing. O paciente pode não perceber ou não se lembrar da quantidade de pequenos episódios de alimentação que acontecem durante o dia. Por isso, a especialista recomenda ferramentas como diários alimentares e registros das refeições para ajudar a reconstruir o comportamento.

“Não é simplesmente uma questão de força de vontade”, é a lógica defendida durante a palestra: é necessário compreender qual comportamento está acontecendo para, então, definir a intervenção.

A avaliação deve ainda considerar possíveis alterações anatômicas relacionadas à cirurgia. Uma queixa do paciente não deve ser automaticamente atribuída a um transtorno alimentar. Caso exista dificuldade para comer, por exemplo, é necessário investigar também possíveis causas clínicas e encaminhar o paciente ao cirurgião responsável quando necessário.

Tratamento multidisciplinar

Outro ponto destacado no congresso foi a importância do acompanhamento multidisciplinar. Pacientes com alterações importantes do comportamento alimentar podem precisar de nutricionista, psicólogo, psiquiatra, nutrólogo e, dependendo do caso, outros profissionais.

A terapia cognitivo-comportamental aparece como uma das estratégias utilizadas no tratamento de diferentes transtornos alimentares. A ideia é trabalhar pensamentos, emoções e comportamentos que mantêm o problema.

Para os especialistas, o profissional que acompanha a obesidade não deve tentar conduzir sozinho um quadro de transtorno alimentar. O rastreamento deve ser contínuo, já que diferentes comportamentos podem aparecer ou se modificar ao longo do tratamento.

Medo de comer

Outro tema abordado foi o transtorno alimentar restritivo evitativo (Tare). Diferentemente de transtornos como anorexia nervosa, o problema não está necessariamente relacionado ao medo de engordar ou à insatisfação corporal.

O Tare pode se manifestar por diferentes motivos. Um deles é a sensibilidade a características dos alimentos, como textura, cheiro, sabor ou aparência. Outro é o medo de consequências relacionadas à alimentação, como engasgar ou vomitar. Também existe o perfil marcado pelo desinteresse pela comida ou pela dificuldade de perceber sinais internos de fome e saciedade.

A consequência pode ser uma redução importante da variedade alimentar, deficiência nutricional, dependência de suplementos ou prejuízos na vida social.

Um exemplo discutido durante a apresentação foi o de pessoas que, após um episódio de engasgo, passam a evitar determinado alimento ou até grupos inteiros. O medo pode se generalizar e fazer com que a pessoa restrinja progressivamente a alimentação.

Por isso, chamar alguém de “fresco” ou “enjoado” pode contribuir para o estigma e atrasar a procura por ajuda. A orientação apresentada no congresso é para investigar o motivo da restrição e encaminhar o paciente para uma terapia específica quando necessário.

A seletividade alimentar, por sua vez, não significa necessariamente que exista um transtorno. Uma pessoa pode ter preferência por um número menor de alimentos sem apresentar prejuízo nutricional, funcional ou social. O diagnóstico depende justamente da presença de consequências relevantes.

O saudável que prejudica

Outro comportamento discutido foi a ortorexia nervosa, caracterizada por uma preocupação excessiva e rígida com a qualidade e a “pureza” dos alimentos.

A busca por uma alimentação saudável, por si só, não representa um problema. A questão surge quando a preocupação se transforma em uma fixação que provoca sofrimento, ansiedade, isolamento social ou restrições cada vez maiores.

O paciente pode passar horas planejando, comprando e preparando alimentos, além de eliminar progressivamente grupos considerados “impuros”, como produtos com conservantes, corantes, açúcar, glúten ou outros ingredientes.

Com o tempo, a lista de alimentos proibidos pode se tornar maior do que a de alimentos permitidos, aumentando o risco de deficiências nutricionais.

As redes sociais podem contribuir para esse processo ao reforçar continuamente determinados discursos sobre alimentação “limpa” e estilos de vida considerados superiores. O problema não está em escolher alimentos naturais ou evitar determinados produtos, mas na rigidez e no impacto que essas escolhas passam a ter sobre a vida.

O isolamento também pode aparecer quando a pessoa deixa de frequentar restaurantes, encontros ou eventos porque não consegue controlar a origem e a composição da comida oferecida.

 

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