Há semanas em que o Top 10 funciona quase como um raio-X do humor coletivo — e o de 17 de janeiro de 2026 é especialmente revelador. O que emerge não é um único fenômeno, mas um conjunto de movimentos simultâneos: nostalgia afetiva, desejo de conforto narrativo, curiosidade por bastidores e a consolidação definitiva das plataformas como ecossistemas com identidades próprias.
No Netflix, o domínio de People We Meet on Vacation no topo dos filmes não surpreende. A plataforma tem sido particularmente eficiente em transformar romances contemporâneos em eventos globais, e aqui há uma combinação poderosa: uma história de amor construída na chave da memória, do “e se?”, do tempo que escorre entre encontros.
É o tipo de título que funciona como refúgio emocional em janeiro — e os números confirmam isso com folga. Logo atrás, o segundo lugar ocupado por One Last Adventure: The Making of Stranger Things 5 diz muito sobre o momento da cultura pop: o público não quer apenas o fim de Stranger Things, quer entender como ele foi feito. Bastidores viraram narrativa, despedida virou conteúdo.
Essa lógica também ajuda a explicar a força contínua de Me Before You e até de animações já amplamente revisitadas como How to Train Your Dragon: The Hidden World e Madagascar. Janeiro não pede risco; pede reconhecimento. O catálogo vira colo.
Entre as séries da Netflix, a liderança de HIS & HERS aponta para outro vetor importante: thrillers adultos, de ritmo clássico, continuam sendo a espinha dorsal do consumo semanal. Mas o dado mais interessante está logo abaixo:
Agatha Christie’s Seven Dials se mantém firme no segundo lugar, confirmando que mistério de época — quando bem embalado — atravessa gerações. A presença constante de Stranger Things no Top 5, mesmo sem episódios inéditos, reforça a ideia de que a série já opera em outro patamar: não é mais apenas conteúdo, é hábito.
People We Meet on Vacation - Divulgação NetflixA Apple TV+, por sua vez, vive uma semana quase exemplar de posicionamento editorial. Hijack no topo, com folga, mostra como a plataforma conseguiu transformar um thriller de alta tensão em produto recorrente de audiência.
O segundo lugar de Tehran e a força contínua de Severance, Ted Lasso e Slow Horses desenham um retrato claro: a Apple aposta em séries que constroem lealdade, não picos passageiros. São títulos que o público acompanha, recomenda e revisita.
Nos filmes, o ranking da Apple TV é quase um manifesto. F1 lidera com números massivos, seguido por produções originais de grande orçamento como The Gorge e The Family Plan 2. É a confirmação de que a Apple já não testa terreno — ela compete diretamente no imaginário do blockbuster, mas com a vantagem de um ecossistema fechado, onde o filme não “some” após a estreia.
O HBO Max segue outra lógica, igualmente clara. The Pitt no topo das séries e One Battle After Another liderando os filmes indicam uma audiência disposta a narrativas mais densas, menos escapistas. A presença de Euphoria, Industry e Primal reforça a identidade da marca: histórias que pedem envolvimento, não consumo automático.
No Disney+, o movimento é quase didático. TRON: Ares lidera os filmes, enquanto Avatar: The Way of Water e o Special Look de Fire and Ash ocupam posições de destaque. É franquia alimentando franquia, curiosidade mantendo engajamento, e um público acostumado a consumir “universos” — não títulos isolados.
Nas séries, Percy Jackson and the Olympians mantém a dianteira, confirmando que a Disney encontrou ali uma ponte sólida entre gerações.
Já Prime Video e Paramount+ reforçam algo que vem se desenhando há meses: a força da familiaridade. Fallout e The Night Manager no Prime, Landman, Tulsa King e Yellowstone na Paramount+ mostram que personagens reconhecíveis e marcas já estabelecidas continuam sendo um ativo poderoso em um mercado saturado.
O retrato final desse Top 10 global não é de fragmentação, mas de coexistência. O público alterna entre conforto e curiosidade, entre revisitar


Salmoura Argentina - Divulgação

