Exposto à concorrência internacional, o agro tem sua força medida pela concentração de mão de obra e constante avanço tecnologico, que combinados fazem com que a agropecuária seja o único setor - comparado à indústria e serviços -, que registra crescimento robusto na produtividade do trabalho, num período de 26 anos, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
"Praticamente não tem mensuração, o tamanho do avanço que vimos na produtividade", expõe o presidente do Sindicato Rural de Campo Grande (SRCG), Alessandro Coelho.
Ele expica que o saldo da pecuária foi gigantesco, mas o da agricultura foi ainda maior, avaçando sobretudo sobre o cerrado, predominante no Centro-Oeste, característico por solos fracos, com pouco nutriente, arenoso e de clima inconstante.
Alessandro cita os avanços do agro, numa terra que retém menos água e apresenta um dos menores índices de fertilidade, como por exemplo o capim braquiária marandu, lançado nas últimos três décadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
"Essa braquiária foi a transformação da pecuária no cerrado e apresentou aumento gigantesco de produtividade. Antes era preciso de cinco, sete, até 10 hectares para criar uma res, com essa implantação o crescimento foi absurdo, a ponto de chegarmos hoje com uma cabeça para cada hectare de pasto. Então quase que decuplicou a capacidade de produtiva", comenta ele.
Presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), André Dobashi, confirma o avanço tecnológico por parte do produtor sul-mato-grossense.
"Avançando de 7, 5% ao ano [em área], seria natural que a produtividade baixasse, mas não foi o que a gente observou. Pelo menos nos últimos 10 anos, o que se observa no Mato Grosso do Sul é um avanço em área e em produtividade", aponta Dobashi.
O dirigente credita à adoção de tecnologia precoce, ávidez que ele diz ser característica do produtor sul-mato-grossense, como um dos principais fatores para os bons números de produtividade.
Entretanto, não deixa de citar o trabalho das diversas fundações de pesquisa, como a Fundação Chapadão, que cuida do norte de Mato Grosso do Sul, e a Fundação MS, responsável pela região sul do Estado.
"Que desenvolvem pesquisas práticas, conseguem tirar o básico da linguagem acadêmica e colocar de uma forma que o produtor consegue simplesmente assimilar, colocar debaixo do braço aquela informação e implantar no campo o que há de melhor em tecnologia, levando assim a produtividade para os patamares que a gente alcança hoje em dia", pontua o presidente da Aprosoja.
retrospecto
Conforme o presidente do SRCG, nos últimos 15 anos as multinacionais começaram a entrar "mais forte", apresentando plantas mais resistentes, os cruzamentos e o salto da entrada que tivemos com a entrada das multinacionais.
"A agricultura tinha prejuízos gigantescos, eram perdas de 100% e frequentes. O Brasil trabalhava com uma safra só e passou a ter duas safras recentemente. O normal era produção de arroz 20 a 30 sacos, isso quando conseguia produzir. Poucos entravam na soja. Campo Grande tinha oito beneficiadores de máquina de arroz , hoje não tem nenhuma. A mais próxima é em Sidrolândia", revela Alessandro.
Ele reafirma que a agricultura "partiu do zero", e que ninguém assumia tanto esse risco, pela grande taxa de insucesso.
"Saímos do zero e hoje estamos falando de 60 sacos por hectare em uma safra normal", diz.
Secretário de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar (Semagro), Jaime Verruck sinaliza que a agropecuária brasileira sempre foi exposta à concorrência internacional, com o país sendo o maior exportador de alimentos.
Segundo ele, o nível de exposição reflete diretamente na produtividade, aliado ao desenvolvimento tecnológico.
"68% do crescimento da agricultura brasileira vem de tecnologia. Ela não é expansão de área, então o que significa isso, melhoria de sementes, de máquinas e equipamentos, e de condição de solo", diz ele.
Verruck lembra que o agro é sustentado por todo um sistema de produção, que envolve financiamentos e planos safras estruturados, uma política de crédito muito clara para absorção de tecnologia, além da exposição, que obriga o produtor a ser competitivo.
Ele lembra que outros setores, que apresentam estagnação, não possuem nem a política, nem o nível de exposição concorrencial com o mercado internacional.
"No Brasil se fala até em desindustrialização, mas se olhar no caminho que Mato Grosso do Sul optou é pela agroindustrialização. Nesse caminho temos um nível de competitividade elevado. Você pega uma indústria de celulose, da carne, nós temos as melhores do mundo. O Brasil, e esse estudo comprova, ele é agro e agroindustrial, aqui está a vertente das vantagens comparativas", argumenta.
trabalho
André Dobashi frisa que possíveis decréscimos na produtividade média, e consequentemente na produção de grãos do Estado, só são percebidos diante de intempérie climática severa.
"Porque nem a tecnologia nem ciência ainda consegue driblar os efeitos da natureza. Para isso também a gente procura soluções. Haja vista que a tecnologia está buscando cada vez mais superar as intempéries climáticas com técnicas de irrigação", comenta.
Ele cita que diversas tecnologias, como a irrigação, a biotecnologia, mecanização, entre outras, trazem essa pujança para Mato Grosso do Sul, que precisa ser refletida em mão de obra
"Eu acredito que com a dificuldade e os problemas que a agricultura impõem, precisamos cada vez mais de ideias novas e profissionais da área da biologia, de diversas formações diferentes, para fomentar pesquisas, aproximar das universidades e para atrairmos acadêmicos para que possam ser profissionais cada vez mais engajados no mercado", complementa Alessandro Coelho.
O presidente do Sindicato Rural aponta que busca em parceria com a Fiems cursos profissionalizantes e formas qualificar profissionais. "Que manejem de produtos biológicos, operadores de trator, temos maquinários que cada vez mais têm um integração tecnológica absurda, e não se pode colocar um profissional despreparado para operar essas máquinas", diz.
Verruck também pontua uma mudança do perfil do trabalhador no agronegócio.
"Hoje, quando se fala de uma máquina, colheitadeira, uma plantadeira sofisticada custa R$ 3 milhões, e lá tem toda a tecnologia embarcada: sistema de GPS, controle. Então esse operador que até então, há alguns anos atrás, era de salário mínimo, já não é mais. Só que isso exige dele um outro nível de qualificação", destaca.
Por fim, ele aponta a suinocultura e avicultura como setores que devem gerar cada vez mais empregos em Mato Grosso do Sul.
"São áreas novas em expansão que, por mais que sejam altamente tecnológicas, ela exige mão de obra. Mas tudo passa pela necessidade de requalificação dessas pessoas", finaliza.
** (colaborou Naiara Camargo)