Economia

João Carlos Parkinson de Castro

"A data para a inauguração da Rota Bioceânica está em aberto"

Diplomata afirmou ao Correio do Estado que inauguração da rota depende da conclusão de acessos, áreas de controle e novos aportes de recursos

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Com a ponte que liga Porto Murtinho a Carmelo Peralta já ultrapassando 80% de execução e a expectativa crescente em torno da Rota Bioceânica (ou Corredor Rodoviário Bioceânico), o diplomata do Ministério das Relações Exteriores João Carlos Parkinson de Castro avalia que o cronograma oficial permanece em aberto. 

Em entrevista ao Correio do Estado, ele detalha os entraves estruturais e diplomáticos que ainda precisam ser superados, explica o papel do Brasil na governança do corredor e projeta os impactos econômicos imediatos para Mato Grosso do Sul, que pode deixar de ser apenas produtor de commodities para se consolidar como hub logístico estratégico.

Ministro, com a ponte da Rota Bioceânica 84% pronta, qual a perspectiva realista de início da operação plena do corredor entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile?

A data para a inauguração da Rota Bioceânica está, no momento, em aberto. O Itamaraty considera que isso só deve ocorrer em 2026 quando a ponte Porto Murtinho-Carmelo Peralta estiver totalmente construída, bem como seus dois acessos e a Área de Controle Integrado [ACI]. No momento, estima-se que a ponte esteja terminada em agosto e o acesso paraguaio, em outubro.

Do lado brasileiro, afora a restrição imposta pela legislação eleitoral, estão atrasados os trabalhos de construção do acesso e da Área de Controle Integrado. Como resultado de fortes chuvas e do atraso do Paraguai em reagir ao projeto brasileiro de ACI, os trabalhos sofreram descontinuidade. Ademais, no momento, os recursos financeiros disponibilizados não seriam suficientes para atender a todas as necessidades. Faz-se necessário que aporte adicional de recursos venha a ser realizado no curso do primeiro semestre.

Qual é o papel diplomático desempenhado pelo Brasil na consolidação dos acordos políticos e regulatórios que sustentam a Rota Bioceânica?

O Ministério das Relações Exteriores centralizou todo o trabalho de construção da governança do Corredor Rodoviário Bioceânico. Foi responsável pela elaboração e a negociação dos projetos de declaração presidencial, da Carta de Campo Grande [responsável pela criação da Rede Universitária] e pela articulação institucional que culminou na realização de reuniões regulares dos entes subnacionais.

Foi, igualmente, o órgão que formulou a nova proposta de governança para o corredor, ainda sob análise das chancelarias nacionais. No momento, cabe ao Ministério das Relações Exteriores exercer a presidência rotativa do corredor e coordenar todas as atividades desenvolvidas ao longo do ano.

O senhor tem afirmado que Mato Grosso do Sul é o maior beneficiado no curto prazo. Qual é o impacto econômico imediato que o Estado deve sentir quando a rota começar a operar de fato?

Mato Grosso do Sul sofrerá profundas transformações com o advento de uma nova alternativa logística. Deixará de ser visto como o “cotovelo do Brasil” para ser reconhecido como um importante hub logístico nacional e regional. O Estado não será apenas um relevante produtor de commodities, mas também exportador, importador e distribuidor de carga diversa. 

Como resultado, o setor de serviços receberá forte impulso dinamizador. Isso implica elevar o nível de capacitação da mão de obra, melhorar os serviços de internet e telefonia celular, fortalecer a segurança pública, ampliar e adequar a rede bancária, expandir a oferta hoteleira, construir novos portos secos e armazéns e desenvolver o comércio varejista e atacadista. Como resultado, surgirão novas oportunidades comerciais e de investimento.

Em 2024, o Brasil exportou US$ 37 bilhões para os países sul-americanos. Desse total, 52% das exportações se realizaram por rodovia. No mesmo ano, o Brasil importou US$ 30,7 bilhões do continente sul-americano. Cerca de 38% das importações ingressaram no território nacional por uma fronteira terrestre. Para as exportações e importações regionais, os postos fronteiriços mais utilizados foram São Borja (29%), Uruguaiana (27%) e Foz do Iguaçu (19%). Todos distantes de Mato Grosso do Sul.

Ocorre que, em 2024, os estados do Nordeste, a despeito da distância dos postos de fronteira do Sul, exportaram e importaram, por rodovia, para os países do continente sul-americano: Sergipe (40%), Ceará (37%), Paraíba (30%) e Rio Grande do Norte (20%). Com a abertura do corredor, esse volume de carga do Nordeste será redirecionado do Sul do País para o Centro-Oeste. Menor distância, menos tempo, fretes mais baixos e maior competitividade para o produto nacional. Ganham o produtor e o consumidor. 

Estudos mostram reduções significativas no tempo e no custo de transporte de cargas até os portos chilenos. Que setores de MS devem sentir primeiro esse ganho logístico?

Os setores que devem se beneficiar com a abertura do corredor são os que conseguirem “conteinerizar” a carga, a exemplo dos exportadores e importadores de proteína animal, café, frutas e legumes, cítricos, produtos lácteos, vinho e produtos eletrônicos.

É importante ressaltar que o corredor oferece vantagens, em termos de redução de tempo e custo, tanto para as operações de exportação como de importação, e a importação de componentes eletrônicos representa forte indutor para a criação de futuros polos industriais. Espero que o corredor contribua para a diversificação da matriz produtiva do Estado. 

Nesse sentido, cabe realizar alguns alertas: MS não dispõe de contêineres em número suficiente, armazéns estrategicamente localizados, caminhões com controle de temperatura, portos secos e despachantes aduaneiros. Esses gargalos serão progressivamente eliminados.

A Rota Bioceânica também tem sido apontada como um vetor para industrialização local. O senhor enxerga condições para que MS se torne um polo de transformação de commodities, atraindo indústrias que buscam saída para o Pacífico?

Não há a menor dúvida de que o corredor facilitará o ingresso de produtos e insumos com conteúdo tecnológico. Por exemplo, uma pequena e média empresa poderá se especializar na montagem de partes e peças de um drone ou na comercialização de produtos eletrônicos importados de Iquique, no Chile. A China, incluindo Hong Kong, e Taiwan são os principais fornecedores/importadores de mercadorias para Zofri, respondendo por cerca de 60% das compras de produtos importados, em particular nos setores de eletrônicos, vestuário, peças e equipamentos. 

Para incentivar e acelerar a diversificação produtiva, seria oportuno explorar a possibilidade de se instituir no Estado uma zona franca industrial, à semelhança da Zofri [em Iquique]. As vendas realizadas a partir da Zofri destinam-se ao Paraguai, à Bolívia, à Argentina e ao Chile. É pequena a presença de empresas brasileiras e baixo o fluxo de mercadorias destinadas ao mercado brasileiro. 

Há uma percepção de que a Rota Bioceânica pode reposicionar o Estado como centro logístico do Cone Sul. Que mudanças estruturais o senhor imagina para Campo Grande e para as cidades do eixo Porto Murtinho-Ponta Porã?

Mato Grosso do Sul tende a transformar-se em grande centro distribuidor de carga com alcance nacional e regional. Com uma população que não chega a 3 milhões de habitantes, o Estado, ao passar a estar fisicamente integrado ao Paraguai, à Argentina e ao Chile e, pelo corredor, ao grande mercado asiático, deixa de ser apenas um espaço produtor e um pequeno mercado. O corredor possibilita escalar a produção local, ampliar o mercado de consumo e fomentar o serviço de distribuição nacional de carga. 

Surgirão portos secos e novos armazéns, a ferrovia retomará sua devida importância, se expandirá o comércio de atacado e varejista, a oferta hoteleira se ampliará e ganhará maior sofisticação, o sistema bancário se expandirá e melhorará o serviço de comunicações e telefonia celular.

Cidades como Jardim, Sidrolândia e Dourados se tornarão nós logísticos, pois a carga será armazenada em pontos estratégicos intermediários e posteriormente movimentada para seu destino final.

Campo Grande e Ponta Porã serão polos estratégicos de conexão com o Norte e o Nordeste, por um lado, e com São Paulo, de outro. A revitalização da Malha Oeste e a efetiva internacionalização dos aeroportos agregarão capacidade logística a esses centros urbanos.

Sob a ótica diplomática, quais foram os principais entraves que o Brasil precisou superar, especialmente em relação às legislações aduaneiras e ambientais dos países vizinhos?

O maior deles diz respeito ao centralismo da Argentina, do Chile e do Paraguai. Como o Brasil é um Estado federal, com os estados desfrutando de ampla liberdade, foi possível avançar com um projeto de infraestrutura descentralizador.

No entanto, na Argentina, o Corredor Rodoviário Bioceânico sempre foi visto pelas autoridades de Buenos Aires como um risco de desvio de carga do complexo portuário portenho e uma diluição do poder central. As províncias de Salta e Jujuy, por sua vez, já veem hoje o corredor como excelente oportunidade para atrair investimentos e gerar novos fluxos de comércio e mais emprego.

A 5° Região Norte do Chile, embora também enfrente o centralismo de Santiago, tem demonstrado condições de reagir com autonomia às resistências impostas por Santiago ao corredor. Pela primeira vez, uma unidade administrativa regional [Tarapacá] logrou autorização para abrir um escritório de promoção comercial no exterior [em Campo Grande], quando, normalmente, cabe ao ProChile essa função.

Os departamentos do Boquerón e Alto Paraguai, em menor grau, também enfrentam alguma resistência por parte de Assunção. Não obstante, conseguem articular ações com alguma liberdade, a ponto de organizarem reuniões dos entes subnacionais.

Não posso deixar de ressaltar que a atuação dos funcionários diplomáticos paraguaios, embora cientes da importância estratégica do corredor para o país, é, por vezes, também contaminada por fatores externos que dominam o campo dos interesses diplomáticos, a exemplo da negociação do Anexo C do Tratado de Itaipu e a localização das Áreas de Controle Integrado – Presidente Franco x Porto Murtinho.

Existe um temor, especialmente no setor produtivo, de que os benefícios da rota se concentrem em poucos segmentos. O que o governo federal deve fazer para garantir que pequenos e médios produtores de MS também se integrem à nova dinâmica exportadora?

Esse temor tem forte fundamento. São poucas as empresas de comércio exterior registradas no Estado e ainda insuficientes as transportadoras de carga habilitadas pela ANTT [Agência Nacional de Transportes Terrestres] para a Argentina e o Chile.

A grande maioria das empresas de transporte de carga do Estado autorizadas pela ANTT podem levar mercadoria apenas para o Paraguai e a Bolívia. Com o corredor, é fundamental que o Sistema S dê apoio à formação de novas empresas e que capacite os jovens para que possam enfrentar o desafio da internacionalização e da competição econômica. Faz-se necessário reverter o deficit de descapacitação. 

Com o avanço do corredor, as pequenas e médias empresas e os jovens identificarão nichos de mercado para explorar economicamente. Recordo que Zofri oferece várias possibilidades, desde a implantação de processos produtivos com maior conteúdo tecnológico até a simples comercialização de produtos acabados importados da Ásia.

O senhor mencionou recentemente que a Rota Bioceânica é “uma mudança de paradigma para o Mercosul”. Como isso se traduz, na prática, para empresas e governos?

O corredor, como foi idealizado e vem sendo desenvolvido, cria um novo paradigma para a integração regional. A governança do corredor, ao contrário do Mercosul, valoriza os entes subnacionais e potencializa os interesses locais, incorpora o conhecimento acumulado e explora a capacidade acadêmica das universidades. Ademais, logra abordar temas como segurança, saúde, logística, integração aduaneira e turismo com uma visão pragmática e interessada em resultados concretos. A burocracia instituída é mínima, não havendo cargos eletivos ou remunerados. 

A gestão do corredor é essencialmente técnica, rotativa e orientada pelo interesse comum de superar os desafios decorrentes da construção do corredor. É o único projeto de infraestrutura que conta com duas declarações presidenciais e há 10 anos vem se reunindo regularmente, a despeito da instabilidade e da fragmentação política.

O ministro acredita que a rota pode reduzir a dependência dos portos do Sudeste? Como isso altera a geografia econômica do transporte brasileiro?

O corredor abre a possibilidade de a carga ser deslocada para um porto localizado no norte do Chile, com todas as vantagens que isso representa. Custos menores de praticagem, tarifas portuárias mais vantajosas, elevada frequência marítima para a Ásia e países sul-americanos, bem como ausência de dragagem dos canais de acesso e, portanto, possibilidade de usar grandes embarcações marítimas a custos menores [ganhos de escala]. No entanto, também se está trabalhando para viabilizar rotas marítimas diretas para alguns mercados asiáticos. A embarcação não faria escala. Sairia carregada do Chile e iria direto para seu destino. Menos tempo, seguro mais barato e fretes mais competitivos.

Perfil - João Carlos Parkinson de Castro

Economista e diplomata de carreira, reúne ampla experiência internacional e recebeu diversas condecorações civis e militares, como a Medalha do Pacificador, o Mérito Naval, no grau de comendador, e a Ordem ao Mérito do Chile. Também é cidadão sul-mato-grossense e doutor honoris causa pela UCDB.

No Itamaraty, integrou a delegação do Brasil na OMC e chefiou setores políticos e econômicos em embaixadas como Moscou, Lima, Paris e Dublin, além de representar o País em organismos multilaterais. Atualmente, é coordenador nacional dos Corredores Bioceânicos e chefe da Divisão de Integração de Infraestrutura do Ministério das Relações Exteriores.

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Agronegócio

MS tem cinco cidades entre as maiores produtoras de soja do Brasil

O Estado responde, hoje, por 7,2% de participação da produção do grão no cenário nacional

22/03/2026 11h00

Projeção para próxima safra é de crescimento de 14% em MS

Projeção para próxima safra é de crescimento de 14% em MS FOTO: Gerson Oliveira/Correio do Estado

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Mato Grosso do Sul tem cinco cidades entre as 50 maiores produtoras de soja do Brasil. Os dados são da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Segundo o levantamento, os municípios destaques do Estado na produção do grão são Ponta Porã, Maracaju, Sidrolândia, Dourados e São Gabriel do Oeste, colocando Mato Grosso do Sul entre os destaques no mapa da produção agrícola brasileira, especialmente no cultivo da soja, principal cultura do País. 

As cidades presentes no ranking estão localizadas em regiões estratégicas para o agronegócio sul-mato-grossense. Ponta Porã, que produziu 869 mil toneladas em 2024, e Maracaju, com 844 mil toneladas, se destacam historicamente como polos de produção. 

Já Sidrolândia (729 mil toneladas) e Dourados (621 mil toneladas) reforçam o papel da região centro-sul como motor agrícola. São Gabriel do Oeste (482 mil toneladas) consolida a expansão da soja em novas áreas produtivas. 

“Não é apenas a cidade que pavimenta ruas, mas a que abre caminhos para o futuro, atrai investimentos, qualifica pessoas e faz a economia girar. Ponta Porã já é um território de força econômica, referência no comércio e nos serviços, com uma base sólida no agronegócio, onde nossa liderança é absoluta”, afirmou o prefeito de Ponta Porã, Eduardo Campos. 

No entanto, a produção de Mato Grosso do Sul ainda pode ser maior que a contabilizada pelo IBGE. Dados do projeto SIGA-MS, executado pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS) contabilizaram uma produção de soja de 1,52 milhões de toneladas em Maracaju e de 1,03 milhão em Ponta Porã. 

Para o coordenador técnico da Aprosoja/MS, Gabriel Balta, o projeto utiliza imagens de satélite, sensoriamento remoto e validação em campo, garantindo maior acurácia na identificação das áreas cultivadas e na estimativa da produtividade. 

“O SIGA-MS é único no país. Ele combina monitoramento por satélite com a validação em campo, oferecendo dados que refletem de forma muito próxima a realidade da produção. Isso traz segurança tanto para produtores quanto para o mercado”, explicou. 

Carro-chefe

A soja segue como líder em produção do agro brasileiro e de Mato Grosso do Sul. Estimativas do IBGE apontam que a produção nacional da oleaginosa deve atingir 173,3 milhões de toneladas em 2025, um crescimento de 4,3% em relação ao ano anterior, consolidando um novo recorde histórico. 

Mato Grosso do Sul também avança. A estimativa é de cerca de 15 milhões de toneladas produzidas nesta safra, um crescimento de aproximadamente 14%, impulsionado tanto pelo aumento da área plantada quanto pela melhora da produtividade. 

Na distribuição da produção pelas unidades da Federação, Mato Grosso lidera como o maior produtor nacional de grãos, com participação de 30,2% na safra nacional. Em seguida, aparecem o Paraná, com 13,9%, Rio Grande do Sul, com 11,7%, Goiás, 10,7%, Mato Grosso do Sul, 7,6% e Minas Gerais, com 5,5% de participação. Juntos, estes estados  representaram 79,6% na estimativa da produção brasileira para 2026. 

Expansão

Essa expansão da soja impacta diretamente a economia sul-mato-grossense, principalmente nas regiões agrícolas do interior, onde a cultura domina grande parte das áreas de plantio. 

O aumento da produção também impulsiona outras cadeias do agronegócio como o transporte, armazenagem e exportação. 

Além disso, a soja costuma determinar o ritmo da segunda safra do milho, já que a colheita da soja libera as áreas agrícolas para o plantio do cereal. 

A colheita da safra 2025/2026 já está em andamento em Mato Grosso do Sul. Segundo levantamento da Aprosoja/MS, até fevereiro, cerca de 27,7% da área cultivada já havia sido colhida, o que corresponde a, aproximadamente, 1,3 milhão de hectares. 

A expectativa é que o avanço da colheita e as condições climáticas ao longo do ano confirmem as projeções de crescimento da produção. 


 

jornada de trabalho

Se aprovado, fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas

Os impactos seriam consequência do aumento dos custos das empresas à medida que as horas trabalhadas diminuíssem, sem alteração dos salários

22/03/2026 08h00

O fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas

O fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

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O fim da jornada de 6 dias de trabalho por 1 de folga, se aprovado, terá impacto nos preços relativos da economia, pelo menos em um primeiro momento, preveem especialistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

De imediato, os custos das empresas subirão na medida em que as horas trabalhadas diminuírem e considerando que os salários não poderão ser reduzidos.

No médio prazo, segundo os especialistas, o mercado se ajustará e as empresas se adequarão à nova realidade, como aconteceu em 1988, quando, na esteira da nova Constituição, a jornada de trabalho foi reduzida de 48 para 44 horas semanais.

A inflação, num primeiro momento, deve subir também porque, segundo o sociólogo, professor e coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz Lúcio, com um dia a mais de folga o trabalhador passará a consumir mais.

Na outra ponta, para atender ao aumento da demanda, o setor produtivo terá que produzir mais. Para isso terá que contratar mais funcionários, fazendo com que a roda da economia passe a girar mais rápido. "O resultado será de um saldo positivo para a economia", defende Ganz Lúcio.

Daniel Teles Barbosa, sócio da Valor Investimentos, também vê o fim da jornada 6x1 alterando os preços relativos da economia por meio de uma inevitável melhora na massa salarial. Setores que não podem interromper suas atividades aos fins de semana vão ter de buscar reposição nos seus dias de folga dos seus empregados ou pagar horas extras.

Para o executivo, num cenário de mercado de trabalho superaquecido, com escassez de mão de obra e plataformas e aplicativos levando vantagem na disputa de trabalhadores com rendas mais atrativas, o setor formal terá que melhorar salários e benefícios para conseguir atrair o trabalhador informal para um ambiente em que terá de cumprir horários, estar sujeito a regras e normas.

"Um motorista de aplicativo hoje consegue movimentar no mês de R$ 6 mil a R$ 9 mil", disse Teles.

De acordo com o coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Ganz Lúcio, num primeiro momento, será inevitável alguma pressão sobre custos das empresas, sobretudo nos das micro e pequenas, que são mais intensivas em mão de obra e carentes de condições para se automatizarem e inovarem.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) quantifica o impacto que o fim da jornada 6x1 exercerá sobre custos.

O efeito será diferente para cada setor e porte, indo de 0,5% a 6,5%, sendo que as empresas maiores e mais automatizadas sofrerão menos pressão que as micros e pequenas.

Tendência Mundial Inevitável

Para o presidente do Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias do Estado de São Paulo (Simpi), Joseph Couri, a redução da jornada trabalho é uma tendência mundial, inevitável e bem-vinda Defende a melhora da qualidade de vida do trabalhador, mas também algum incentivo para que as micro e pequenas empresas possam se automatizar.

Enquanto grandes associações entendem que o debate sobre o fim da jornada 6x1 não cabe em um país com baixo ganho de produtividade e escassez de mão de obra, Couri diz que é só pagar o que o trabalhador pede e merece que a mão de obra aparece.

Ainda, de acordo com ele, o impacto não será generalizado porque muitas empresas já cumprem uma jornada de 40 horas semanais.

"Quanto menos mecanizado for um segmento, maior será o impacto do fim da jornada 6x1 sobre seus custos. Quanto mais mecanizado, menos impacto terá", avalia o presidente do Simpi, para quem alguma contrapartida para os micros e pequenos deveria acompanhar a mudança.

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