Endividamento bilionário e crédito caro ampliam expectativa de nova rodada de renegociação e retomada do consumo
Mato Grosso do Sul chega à iminente retomada do programa federal de renegociação de dívidas com um cenário preocupante de quase 1,3 milhão de consumidores inadimplentes, o equivalente a mais da metade da população adulta do Estado.
O anúncio do Desenrola 2.0, previsto para segunda-feira, ocorre em um momento em que o endividamento avança e passa a afetar não apenas o consumo, mas também a dinâmica da economia local.
Os números mostram a dimensão do problema. Os sul-mato-grossenses acumulam 5,93 milhões de dívidas, que somam R$ 10,55 bilhões. Em média, cada inadimplente deve R$ 8.169,62, enquanto o valor médio por dívida é de R$ 1.779,36, indicando tanto a profundidade quanto a pulverização do endividamento.
Escreva a legenda aquiNa prática, o dado revela um grande contingente de pessoas negativadas e, ao mesmo tempo, um volume elevado de débitos por consumidor, cenário que dificulta a recuperação financeira das famílias e amplia a dependência de programas de renegociação.
“A inadimplência não é apenas um reflexo de atrasos pontuais, mas de um contexto econômico que pressiona o orçamento das famílias e dificulta o planejamento financeiro de longo prazo”, afirma a diretora da Serasa, Aline Maciel.
O mestre em Economia Eugênio Pavão aponta que, com a perda de poder de compra e o aumento do custo de vida, as famílias têm usado o crédito como extensão da renda. Esse comportamento, segundo ele, transforma o endividamento em condição de sobrevivência.
“Estamos diante de um endividamento estrutural, que não é mais apenas fruto de consumo, mas de sobrevivência”, avalia.
A inadimplência em MS não está concentrada em uma única região ou faixa de renda. O problema se espalha pelas principais cidades e atinge diferentes perfis de consumidores.
Em Campo Grande, maior centro econômico do Estado, são 498,8 mil inadimplentes, com dívidas que somam R$ 4,75 bilhões. Dourados aparece na sequência, com 107,7 mil pessoas negativadas e estoque de R$ 913,5 milhões em débitos. Três Lagoas e Corumbá também registram volumes relevantes, evidenciando que o endividamento é um fenômeno generalizado.
Outro fator que chama atenção é o perfil das dívidas. A maior fatia está concentrada em bancos e cartões de crédito (29,21%), modalidade que costuma ter juros mais elevados. Na sequência aparecem serviços financeiros (19,06%) e contas básicas, como energia, água e gás, que representam 15,09% dos débitos.
O aumento da inadimplência tem reflexos imediatos na economia de MS. Com o nome negativado, o consumidor perde acesso ao crédito formal, reduz compras e adia decisões de consumo. O efeito se espalha por toda a cadeia produtiva, atingindo principalmente o comércio e o setor de serviços, que dependem da renda das famílias.
APOSTA
É nesse contexto que o governo federal prepara o lançamento do Desenrola 2.0. A nova fase do programa deve ampliar o alcance da renegociação, incluindo novos perfis de devedores e permitindo descontos mais agressivos para liquidação de dívidas.
A expectativa é de maior adesão de empresas credoras e facilitação do acesso ao programa, inclusive por meios digitais. O objetivo é acelerar a regularização do CPF de milhões de brasileiros e, ao mesmo tempo, estimular a retomada do consumo.
A iniciativa deve ser anunciada nos próximos dias pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e busca ampliar o alcance da primeira edição.
De acordo com o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, o programa permitirá que trabalhadores utilizem até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas.
A estimativa é de que cerca de R$ 4,5 bilhões sejam mobilizados nessa etapa, com a transferência sendo feita diretamente da Caixa Econômica Federal ao credor. A regra em estudo prevê que o uso do FGTS ocorra apenas para quitação integral dos débitos, e não para abatimentos parciais.
O programa deve atingir inicialmente famílias com renda até cinco salários mínimos (cerca de R$ 8,1 mil), com possibilidade de ampliação posterior para microempreendedores individuais (MEIs) e pequenas empresas. O foco está em dívidas de maior custo, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais, especialmente aquelas com atraso entre 90 dias e 720 dias.
As condições de renegociação incluem descontos que podem variar de 40% a 90% sobre o valor total das dívidas, além de juros limitados a cerca de 1,99% ao mês. O modelo também prevê carência inicial e um período de pagamento facilitado, o que deve favorecer a adesão.
A estrutura contará com garantia do governo por meio do Fundo Garantidor de Operações (FGO), reduzindo o risco para os bancos e incentivando a oferta de condições mais vantajosas.
A expectativa é de que o programa alcance mais de R$ 100 bilhões em dívidas renegociadas, em resposta ao nível recorde de endividamento das famílias.
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