O avanço das chamadas “canetas emagrecedoras”, a popularização das apostas on-line (bets) e a persistência de juros elevado vêm redesenhando o comportamento do consumidor brasileiro e acendendo um sinal de alerta no varejo de alimentos.
Em Mato Grosso do Sul, no entanto, especialistas avaliam que esses fatores tendem a produzir efeitos mais graduais, sem provocar uma queda abrupta no consumo básico, mas acendem um sinal de alerta para a mudança na estrutura de gastos das famílias no Estado.
Pesquisa da Worldpanel by Numerator publicada pelo jornal O Globo, aponta que além do crédito caro, o endividamento e a pressão da inflação sobre o orçamento familiar, os gastos com as bets e canetas emagrecedoras, tem pesado no bolso do consumidor.
“Em 2026, esperamos o consumidor com mais disponibilidade de renda. Mas se ele botar dinheiro de um lado, terá de tirar de outro. Mesmo sendo ano de Copa do Mundo e eleições, há mudanças de comportamento de consumo sendo construídas. Pode vir um crescimento, mas ainda não temos qualquer previsão”, alertou Daniela Jakobovski, diretora de contas da Worldpanel by Numerator em entrevista.
Ainda de acordo com a diretora, as mudanças na alimentação, por exemplo, devem começar a resultar em categorias mais estimuladas, como já ocorre com produtos proteicos.
“O avanço no acesso a conhecimento e uso de canetas emagrecedoras é um deles. O consumo de um lar, em comparação ao que registrava antes do início do uso de canetas, em alimentos e bebidas, tem uma redução de até 50%”, destaca Daniela.
Ao trazer a discussão para Mato Grosso do Sul, o mestre em Economia Eugênio Pavão avalia que a realidade local impõe limites a mudanças mais bruscas, mas que o segmento varejista precisa estar atento.
“A possibilidade de reduzir gastos em supermercados é um caso que ocorre em economias com renda alta. Para o Brasil e para MS, devido à baixa renda da população em geral, a queda no consumo de produtos alimentícios não deve sofrer grande impacto”, afirma.
Segundo ele, itens básicos seguem como prioridade no orçamento, ainda que o consumidor busque alternativas mais baratas, marcas próprias ou promoções.
No caso das canetas emagrecedoras, Pavão observa que o fenômeno pode abrir oportunidades para o setor de saúde, mas não necessariamente provocar um choque imediato no varejo alimentar sul-mato-grossense.
“Diante desse quadro, temos a possibilidade de ganhos para a área de saúde, como farmácias, indústria farmacêutica e serviços médicos. Os supermercados não devem ter impacto imediato, até porque têm condições de antecipar tendências de consumo e ajustar mix de produtos”, avalia.
Outro ponto de atenção destacado no estudo nacional é o crescimento acelerado das bets, que passaram a competir diretamente com outras despesas de lazer e até com gastos essenciais. Em Mato Grosso do Sul, onde o endividamento das famílias também é elevado, o economista alerta para riscos sociais e econômicos.
“A necessidade de obter ganhos financeiros estimula os consumidores a sonharem com jogos de azar, como loterias e aplicativos de apostas. Esse comportamento pode levar a condições de vida mais precárias, caso não haja parcimônia na jogatina”, diz Pavão.
Ele chama a atenção para o efeito demonstração criado pela publicidade agressiva, com ganhadores fictícios e estilos de vida idealizados, que acabam estimulando o vício, sobretudo entre pessoas já pressionadas por dívidas.

CONSUMO
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) reconhece que há uma reorganização dos gastos, mas pondera que o consumo de alimentos essenciais tende a ser mais resiliente, mesmo em cenários adversos. A CNC tem alertado para a concorrência desigual que as apostas on-line impõem ao comércio tradicional.
Para a entidade, parte da renda que antes circulava em bares, restaurantes e supermercados passou a ser direcionada às plataformas digitais de apostas, muitas vezes sem qualquer retorno para a economia local.
Em estados como Mato Grosso do Sul, onde o comércio é um dos principais motores do emprego urbano, essa migração de recursos pode ter efeitos indiretos sobre a atividade econômica.
“A inadimplência do brasileiro não é resultado unicamente de gastos com bets, e está no maior patamar desde 2012. Mas verificamos que cada ponto porcentual de aumento nas apostas equivale a 0,4 ponto porcentual de alta na inadimplência”, detalhou o economista da CNC, Fabio Bentes, à reportagem.
A análise também é reforçada pelo economista Eduardo Matos, que destaca que o consumo de alimentos tende a ser o último a sofrer cortes mais profundos, justamente por seu caráter essencial.
“Quando o orçamento aperta, a família não deixa de comer. O ajuste acontece na troca de marcas, na busca por promoções e na redução de desperdícios”, afirma.
Segundo ele, mesmo em um cenário de juros elevados, “o supermercado continua sendo um gasto prioritário, diferente de apostas ou consumo por impulso, que podem ser adiados ou cortados”.
Somente no primeiro ano de regulamentação, as empresas de apostas esportivas e as bets movimentaram R$ 37 bilhões em todo o Brasil, conforme o Ministério da Fazenda.
JUROS
O terceiro fator que pesa sobre o consumo é o patamar elevado dos juros, a taxa básica, a Selic, se mantém em 15% ao ano desde junho de 2025 o que faz com que todo o mercado de crédito também esteja pressionado. Pavão avalia que não há perspectiva de alívio rápido.
“Os juros não devem ceder rapidamente, ainda mais com a Copa do Mundo e as eleições. Esses dois fatores de estímulo ao consumo devem afetar as compras de alimentos, com aumento do consumo de bebidas e churrascos”, projeta.
Na avaliação dele, períodos eleitorais costumam vir acompanhados de maior injeção de recursos na economia, o que pode pressionar a inflação e alterar temporariamente o padrão de consumo.
Essa combinação de juros altos, endividamento e estímulos pontuais cria um ambiente contraditório para o varejo em MS. De um lado, datas específicas e eventos de grande apelo popular podem aquecer vendas de determinados produtos. De outro, a inadimplência funciona como um freio estrutural.
“A inadimplência deve segurar um pouco os gastos dos consumidores, enquanto a política econômica deve continuar a desacelerar a economia, provavelmente até a metade do ano”, afirma Pavão.
Conforme já publicado pelo Correio do Estado, a inadimplência segue em patamar recorde em MS, com o número de pessoas com o nome negativado passando de 1,2 milhão.
Mais da metade da população de MS está com o nome negativado - Foto: Gerson Oliveira / Correio do EstadoMatos também chama atenção para o efeito combinado das bets e do crédito caro sobre o dia a dia das famílias sul-mato-grossenses. “As apostas criam a ilusão de renda fácil e acabam competindo com despesas básicas. Em uma economia já bastante endividada, isso agrava o risco de inadimplência e compromete o consumo futuro”, avalia.
Para o economista, a publicidade intensa das plataformas digitais amplia esse problema. “Existe um estímulo constante ao gasto, com histórias de sucesso que não refletem a realidade da maioria dos apostadores”, completa.
Para o comércio sul-mato-grossense, o desafio passa a ser entender esse novo consumidor, mais pressionado por juros, exposto a novas formas de gasto, como as apostas, e atento a soluções rápidas, como medicamentos para emagrecimento.
Em todo o País, supermercados e atacarejos já vêm reagindo com estratégias de preços, ampliação de marcas próprias e reforço em categorias de maior giro. Ao mesmo tempo, farmácias e drogarias ganham protagonismo, impulsionadas pela maior demanda por medicamentos e serviços de saúde.
No curto prazo, a avaliação predominante entre economistas é de cautela. “A economia segue desacelerada, e o consumo só deve ganhar algum fôlego mais à frente, se houver melhora consistente da renda e do crédito”, pondera Matos.
O cenário descrito pelo estudo nacional se manifesta em Mato Grosso do Sul de forma menos intensa, mas não deixa de exigir atenção.
O Correio do Estado procurou a Associação Sul-Mato-Grossense de Supermercados (Amas) para comentar o estudo, mas não obteve um posicionamento até o fechamento da reportagem.

