Em uma parceria inédita, o Grupo Correio do Estado e o Sistema Fiems iniciam, nesta quinta-feira, uma série de reportagens sobre a importância do conceito ESG (Environmental, Social and Governance), que envolve melhores práticas ambientais, sociais e de governança e como as empresas brasileiras estão inseridas nessa agenda.
Ao longo deste mês de maio, quando se comemora o Mês da Indústria, serão publicadas diversas matérias sobre o tema para demonstrar que, ainda que pouco conhecido fora dos círculos especializados, o conceito ESG será cada vez mais cobrado pelas empresas.
Para desmistificar o ESG, o Correio do Estado conversou com Marta Russo Blazek, que é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Gestão para Competitividade, com ênfase em Sustentabilidade pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP).
Durante 16 anos em empresas de diferentes setores, com foco em gestão ambiental e sustentabilidade, atualmente ela é gestora do programa Iniciativas Empresariais do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGVces) e abre esta série de reportagens tentando jogar um pouco de luz sobre o tema ESG.
Segundo a especialista, o ESG é um recorte de uma gama mais ampla de impactos e externalidades da qual se ocupa a sustentabilidade empresarial, ou seja, se as empresas olharem apenas para os aspectos que podem levar a um impacto financeiro no seu negócio, muita coisa importante estará sendo deixada de lado.
“Ao mesmo tempo, o que se tem observado é o uso da palavra ESG de forma menos rigorosa e conceitual, com empresas e sociedade utilizando o termo como substituto à palavra sustentabilidade”, disse.
Ela reforçou que se pode considerar o ESG como um dos meios utilizados pelo mercado financeiro e empresas para a implantação de uma estratégia maior, que é o desenvolvimento sustentável.
“Por sua vez, o desenvolvimento sustentável é uma estratégia que questiona, ou deveria questionar, crenças, modelos, formas como atuamos hoje e provoca mudanças tendo como norte o desenvolvimento das atividades empresariais a serviço de uma sociedade mais igual, justa e resiliente e que opere respeitando os limites da natureza”, argumentou.
PESQUISA
Levantamento realizado em dezembro de 2020 pela consultoria Grant Thornton, que incluiu 255 companhias brasileiras, mostra que 54% das entrevistadas brasileiras pretendiam investir, em 2021, em projetos relacionados a ESG já existentes nas suas empresas e que 39% estavam desenvolvendo um plano estratégico com abordagem ambiental, social e de governança.
A mesma pesquisa indica que a prioridade para os empresários brasileiros é o pilar ambiental (47%), seguido do social (29%) e o de governança (16%). No pilar ambiental, o tema que atualmente mais se destaca nas análises ESG é a agenda de mudanças climáticas, o que reforça a importância de as empresas manterem um olhar mais amplo sobre a sustentabilidade empresarial.
Como forma de exemplificar o crescimento da gestão empresarial na agenda de mudanças climáticas, em 2022, o Programa Brasileiro GHG Protocol apontou o aumento de 179,8% (de 109 empresas, em 2021, para 305 empresas, em 2022) na quantidade de empresas que passaram a reportar suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) no Relatório Público de Emissões.
“O que se nota é que os temas da sustentabilidade têm ganhado cada vez mais espaço nas discussões de conselhos, da alta administração das empresas e de áreas operacionais, tornando-se mais integrados aos negócios, mas a abrangência deles e o nível de maturidade e de qualidade de ações variam muito de acordo com o porte e o setor das organizações”, detalhou Marta Russo.
A especialista acrescentou que uma pesquisa realizada em 2021 pela consultoria Grant Thornton, em parceria com a XP Inc. e a Fundação Dom Cabral, sobre o desenvolvimento do ESG, aponta que, embora 75% das empresas de capital aberto entrevistadas consideram ESG como prioridade, apenas 14% levam esses aspectos em conta em suas tomadas de decisões.
TENDÊNCIAS
A mestre em Gestão para Competitividade revelou ainda que há dois grandes drives de mudança que podem nos impactar globalmente. Um já está no radar das empresas e se trata das mudanças climáticas, enquanto o outro grande driver de mudança é a perda de biodiversidade.
“Na gestão empresarial, são duas agendas tratadas como diferentes, com pesos e relevâncias distintos. Na prática, tudo está relacionado, e a deterioração de uma resulta na deterioração da outra, assim como a promoção de uma pode potencializar a outra, sem esquecer que ambas podem e devem incluir a dimensão social”, disse.
Conforme ela, uma tendência observada é que a biodiversidade ganha importância dentro da gestão empresarial, mesmo naqueles negócios que aparentemente estejam menos relacionados.
“As empresas serão, muito em breve, demandadas a identificar riscos e dependências em relação à natureza, monitorar e mitigar os impactos, atuar diante de um pensamento regenerativo e, por fim, estabelecer bons indicadores comparáveis e dar transparência a tudo isso”, ressaltou Marta Russo.
A especialista acrescentou que há desafios relacionados à sustentabilidade em vários níveis, desde o desafio de desenvolver cadeias de valor mais sustentáveis e resilientes e monitorar esta cadeia de valor até o desafio global de reduzir as emissões de GEE, de promover a adaptação de populações mais vulneráveis às mudanças climáticas e de reduzirmos as desigualdades sociais. “Mas o maior desafio é mudar padrões de consumo, modelos de negócio, modos de pensar e viver, pensar em soluções mais sistêmicas”, afirmou.
COMPETITIVIDADE
O relatório sobre riscos globais do World Economic Forum aponta que, nos últimos anos, as mudanças climáticas, o risco de inação diante destas mudanças, o desastre pela impossibilidade de adaptação e a perda de biodiversidade estão entre os 10 maiores riscos. Ou seja, os riscos relacionados à sustentabilidade ameaçam não só as empresas, mas toda a sociedade.
Uma pesquisa realizada no fim de 2022 pela PwC indica que 33% dos CEOs brasileiros não acreditam que seu negócio será economicamente viável em 10 anos, caso suas empresas continuem seguindo o padrão atual de atuação.
Esses números estão atrelados a cinco megatendências mundiais: mudança climática, tecnologias disruptivas, mudanças demográficas, um mundo fragmentado e instabilidade social – remodelando o ambiente de negócios.
“Ou seja, pelo menos dois temas diretamente relacionados à sustentabilidade ameaçam a viabilidade financeira das empresas. A ação empresarial nos temas ditos da sustentabilidade é uma necessidade, e não mais uma questão de competitividade”, relatou.
Para ela, grandes empresas dependem de uma cadeia de valor que abarca empresas dos mais variados portes, e a resiliência de um grande negócio depende da resiliência de suas partes.
As grandes empresas podem influenciar fortemente sua cadeia de valor, mas um grande desafio que permanece nas discussões empresariais é como engajar essa cadeia.
“Nos nossos trabalhos e pesquisas com empresas, diferentes formas de engajamento são relatadas: premiações, benchmark, disseminação de conhecimento, financiamento direto, estabelecimento de relações duradouras e contratos de longo prazo, uso de critérios de sustentabilidade para contratação e avaliação, criação de ambiente favorável para trocas entre fornecedores, entre outros. Assim, uma das formas de promover a sustentabilidade em pequenas e médias empresas é por meio da atuação e da influência de grandes empresas”, finalizou.
O que é ESG e por que ele é muito mais que uma sigla
Inicialmente, é uma sigla em inglês, que significa Environmental, Social and Governance e corresponde às práticas ambientais, sociais e de governança de uma organização.
O termo foi criado em 2004, em uma publicação do Pacto Global em parceria com o Banco Mundial, chamada Who Cares Wins. Os critérios ESG estão totalmente relacionados aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pelo Pacto Global, iniciativa mundial que envolve a ONU e várias entidades internacionais.
O ESG é uma jornada de transformação dos negócios e envolve a construção de um mundo inclusivo, ético e ambientalmente sustentável, que garanta qualidade de vida para todos.
A consultoria destaca que essa meta depende da habilidade das empresas em desenvolver e implementar práticas de negócios que alinhem lucro, propósito e transparência.

O ESG não é um conceito consolidado. O termo começou a ser utilizado pelo mercado financeiro em atenção aos aspectos ambientais [E do inglês ‘environmental’], sociais [S de ‘social’] e de governança [G de ‘governance’] de uma empresa, que poderiam gerar resultado financeiro negativo e, por consequência, representar um risco aos investidores. Assim, aspectos ambientais, sociais e de governança de uma empresa passam a ser analisados e considerados como critérios de decisão para investimentos”, destacou Marta Russo





