Mato Grosso do Sul contabilizou a abertura de 51.651 novos registros de microempreendedores individuais (MEIs) nos 12 meses do ano passado. Ao considerarmos que 2025 teve 253 dias úteis, é possível afirmar que, entre janeiro e dezembro, foram mais de 204 MEIs registrados por dia em todo o Estado ou 4.304 por mês.
Já o número de microempreendedores individuais ativos – considerando novos, antigos e fechamentos – cresceu 16% no intervalo de um ano. Conforme dados da Receita Federal, divulgados pelo Sebrae-MS, em 2024, o Estado tinha 147.706 registros ativos, enquanto, no ano passado, o número chegou a 171.478.
De acordo com o economista Renato Gomes, atualmente, o País tem quase 70% dos CNPJs representados por MEIs. Ele atribui o crescimento ao acompanhamento de uma tendência nacional.
“Podemos atrelar esse aumento elevado ao custo que a contratação pela modalidade de Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT, impõe ao orçamento das empresas. Por essa razão, o MEI se torna uma alternativa de contratação mais barata”, detalhou.
Segundo o economista Eduardo Matos, a contratação de pessoa física como prestadora de serviço é uma estratégia que resulta no aumento da abertura de registros de microempreendedores, mas existe um contexto por trás disso.
“Em primeiro lugar, nós devemos considerar os motivos dessa ‘pejotização’, que é como chamamos quando as empresas contratam o seu corpo de recursos humanos por contratos de MEI. Com isso, uma série de direitos trabalhistas não são pagos, como o recolhimento obrigatório do INSS, FGTS em caso de demissão não há multa rescisória ou qualquer outro tipo de benesses ao trabalhador. Então, isso deixa mais baratas a contratação e, principalmente, as demissões para as empresas”, explicou.

FRONTEIRA
Com uma população de mais de 98,5 mil habitantes, na fronteira com o Paraguai, Ponta Porã está liderando as estatísticas ligadas ao empreendedorismo em Mato Grosso do Sul.
Com base em dados disponíveis no sistema DataSebrae, integrais para o período de 2021 a 2025 e parciais para este ano, foi no município da região sul do Estado que o número de MEIs mais aumentou, na comparação com Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá. O aumento de formalizações no período alcançou 32,48%.
Entre as atividades que estão se destacando, com empreendedores mergulhando em potenciais oportunidades, a categoria cabeleireiros, manicures e pedicures teve um aumento de 266 negócios, em 2021, para 340, em 2025.
Porém, uma atividade se mostrou absoluta em termos de oportunidade de trabalho para os empreendedores de Ponta Porã.
Os serviços de malote não realizados pelos Correios, que envolvem entregadores de mercadorias compradas pela internet, teve um salto de 473% nos últimos 5 anos. Em 2021, apenas 15 pessoas trabalhavam nesse ramo, mas, em 2025, esse número subiu para 86.
Outro dado sobre a economia empreendedora em Ponta Porã mostrou que a atividade médica ambulatorial restrita a consultas, ligada a modalidades mais acessíveis que os planos de saúde particulares, cresce na cidade fronteiriça. O aumento foi de 109%, saindo de 73 negócios para 125 no ano passado.
A região tem uma tradição de faculdades particulares de Medicina, principalmente por conta das oportunidades de mensalidades mais baratas que são oferecidas em Pedro Juan Caballero. Para o profissional formado no país vizinho atuar no Brasil, contudo, ele precisa ser aprovado em exame específico.
Parte desse cenário já tinha sido analisado pela Junta Comercial de Mato Grosso do Sul (Jucems), com dados parciais que tinham sido divulgados no ano passado.
“Com o apoio da Semadesc [Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação] e do Sebrae, estamos oferecendo ferramentas digitais cada vez mais ágeis e transparentes, o que facilita a abertura de negócios e estimula o empreendedorismo em todo o Estado”, sugeriu o presidente da Jucems, Nivaldo Domingos da Rocha, em entrevista anterior.
No cenário econômico de Ponta Porã, há uma série de investimentos públicos e privados sendo injetados, especialmente desde 2025. Por meio do projeto Desenvolvimento na Faixa de Fronteira, do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), US$ 7 milhões foram direcionados para obras estruturantes que facilitem sistemas logísticos e controle fronteiriço.
Com aporte local do governo estadual de US$ 2.608.382,00, o total direcionado para a cidade é de US$ 9.608.382,00 (algo em torno de R$ 51,6 milhões). Há também um projeto em andamento na cidade chamado Avança Ponta Porã, com previsão de R$ 300 milhões de investimentos estatais.
Do lado paraguaio, em Pedro Juan Caballero também existem investimentos sendo feitos na região de US$ 220 milhões desde 2019, via Fonplata.
“Constata-se que a cooperação financeira, principalmente em municípios fronteiriços, permitiu resultados em termos de impacto positivo para o desenvolvimento econômico regional e, quanto ao impacto de integração regional, os resultados são aquém, podendo melhorar e aperfeiçoar os mecanismos para redução de assimetrias entre os países-membros”, analisaram os pesquisadores Alexandra Souza Ruiz, Ordália Alves de Almeida e Thiago Melim Braga, todos do Instituto Avançado de Ensino Superior e Desenvolvimento Humano (Insted).
OUTROS MUNICÍPIOS
Entre Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá, somente a Capital do Pantanal registrou uma queda no período de cinco anos de dados disponíveis. A redução ocorreu entre 2023 e 2024, porém, foi abaixo de 1%
Em termos de crescimento médio anual do empreendedorismo nesses quatro municípios, Corumbá também é o que registra o menor índice, de 2,90%. A cidade conseguiu o avanço com o engajamento de empreendedores no período de 2024 a 2025, quando ocorreu um crescimento de 8,92%, época em que houve eleição municipal.
Para Três Lagoas, que está localizada na região do boom da celulose, os micronegócios registraram um crescimento médio anual de 4,52% e, em uma comparação com as cinco principais economias de Mato Grosso do Sul, os empreendedores aparecem em terceiro lugar na faixa de crescimento (24,46% para o período), atrás de Ponta Porã (32,48%) e Dourados (29,9%).
Apesar de ser a capital do Estado, Campo Grande não teve destaque no empreendedorismo nos últimos cinco anos, mas manteve um crescimento de abertura de registros de MEIs consistente entre 2021 e 2025, com 22,7%.
(Colaborou Rodolfo César)

