A posse de Juliano Wertheimer na presidência da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso do Sul (Fecomércio-MS) marca não apenas o fim de um ciclo de quase três décadas de uma mesma liderança na entidade, mas também a administração de um orçamento que supera o de grande parte das prefeituras do Estado.
Conforme apurou o Correio do Estado, a Fecomércio-MS deverá administrar orçamento de R$ 400 milhões durante a nova gestão. Embora questionado sobre o montante, Wertheimer não confirmou o valor à reportagem.
Ainda assim, o número chama atenção quando comparado às finanças públicas municipais. Levantamento do Correio do Estado, com base nas Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) dos municípios, mostra que 68 das 79 cidades de Mato Grosso do Sul têm orçamento inferior a R$ 400 milhões neste ano.
Na prática, isso significa que a estrutura comandada pelo novo presidente da Fecomércio-MS terá mais recursos para administrar do que 86,1% dos municípios sul-mato-grossenses.
Entre as cidades que têm orçamento inferior ao da entidade estão municípios economicamente relevantes como Bonito (R$ 251 milhões), Coxim (R$ 285 milhões), Costa Rica (R$ 305,5 milhões), Ivinhema (R$ 312 milhões), Paranaíba (R$ 364 milhões), Ribas do Rio Pardo (R$ 374 milhões) e Rio Brilhante (R$ 348 milhões).
Os dados evidenciam a dimensão financeira do chamado Sistema Comércio, que engloba a Fecomércio-MS, o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac-MS) e o Serviço Social do Comércio (Sesc-MS), responsáveis por programas de qualificação profissional, educação, cultura, lazer e desenvolvimento empresarial em todo o Estado.
A comparação também revela a concentração de recursos em poucas cidades. Apenas 11 municípios sul-mato-grossenses têm orçamento superior a R$ 400 milhões, grupo formado pelos maiores centros urbanos e os polos econômicos do Estado.
A responsabilidade de gerir um orçamento desse porte recai sobre uma nova administração eleita após uma das disputas mais acirradas da história recente da entidade.

MUDANÇA
Após 16 anos sob a presidência de Edison Ferreira de Araújo e quase três décadas de influência direta na direção da federação, a Fecomércio-MS passa a ser comandada por Juliano Wertheimer no mandato de 2026 a 2030.
A eleição foi decidida por apenas um voto, com placar de 8 a 7 para a chapa Renovação. O resultado desencadeou uma série de disputas judiciais movidas por sindicatos ligados ao grupo derrotado, que tentaram suspender o pleito alegando irregularidades.
Na semana passada, porém, o Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região (TRT24) rejeitou mais uma tentativa de anular a eleição, consolidando a vitória do novo presidente.
Posse da diretoria da Fecomércio-MS, realizada ontem - Foto: Divulgação/Fecomércio-MSAo assumir a presidência, Wertheimer afirmou que uma das prioridades será ampliar o apoio aos pequenos empresários, especialmente diante de desafios como juros elevados, mudanças nos hábitos de consumo e avanço das tecnologias.
“Tem coisas que você mencionou que não são de Campo Grande nem de Mato Grosso do Sul, são nacionais. Se a gente falar de falta de mão de obra, é uma crise global. O primeiro [ano] vai ser muito focado em inovação. A gente tem que preparar os empresários para o novo momento que o setor enfrenta”, afirmou.
Segundo ele, a intenção é de aproximar micro e pequenas empresas de ferramentas tecnológicas e processos de qualificação profissional.
“Então, a nossa responsabilidade vai ser levar para os pequenos a formação, a integração e a inovação para dentro dos menores negócios”, disse.
Wertheimer também defendeu a busca por condições de crédito mais competitivas para empresários de menor porte.
“Quando você fala das taxas de juros, um dos nossos compromissos é trabalhar com taxas mais competitivas para os nossos empresários. Um pequeno estabelecimento paga, em média, 3,5% de juros numa maquininha de cartão de crédito, enquanto grandes empresas conseguem condições muito melhores”, ressaltou.
NOVO CICLO
Outro desafio apontado pelo novo presidente é fazer com que o comércio e o setor de serviços participem mais intensamente do ciclo de investimentos que transforma a economia sul-mato-grossense.
Nos últimos anos, Mato Grosso do Sul passou a receber bilhões de reais em investimentos privados, principalmente nas cadeias de celulose, bioenergia, logística e infraestrutura.
Para Wertheimer, entretanto, boa parte dessa riqueza ainda não chega aos pequenos negócios locais.
“A gente tem visto o agro voando, a indústria voando e o comércio ficando um pouco alheio a todo esse ciclo virtuoso”, afirmou.
Segundo ele, a federação pretende atuar como ponte entre empresários locais e grandes empreendimentos instalados no Estado.
“Vamos ter um papel estratégico na interlocução com esses grandes players, levando os empresários da nossa base para o ciclo de fornecimento dessas empresas. Quando identificarmos oportunidades, vamos buscar preparar esses empresários por meio do Sebrae e do Senac, para que possam atender a essas demandas”, explicou.
Ao tomar posse, Wertheimer também prometeu uma gestão mais próxima dos sindicatos e das regiões do interior.
“Agora a gente vai ter uma gestão com um olhar da porta para fora. O que vocês podem esperar é uma gestão compartilhada, ouvindo muito as pessoas, indo nas regiões, interiorizando as nossas ações e, principalmente, com foco no desenvolvimento econômico e nos empresários que alimentam o sistema”, declarou. (Colaborou Naiara Camargo)

