Economia

mudanças

Reforma tributária impõe custos maiores e necessidade de reestruturação de empresas

Empresas começam a emitir notas com CBS e IBS, mas sem recolhimento obrigatório neste ano, que será um período de testes

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Com a reforma tributária em vigor desde o início deste ano, especialistas apontam um período de necessidade de reestruturação das empresas e impactos diferentes entre os setores. A maior mudança no sistema de impostos das últimas décadas começa silenciosa, mas deve alterar desde planilhas empresariais até o preço final pago pelo consumidor.

As mudanças prometem simplificar o futuro, mas começam, paradoxalmente, tornando o presente mais complexo para empresas e consumidores. “Este período de transição é crucial para o empresariado se adequar e não se complicar com a ‘tributação híbrida’”, expressa o advogado tributarista Daniel Pasqualotto. 
As mudanças, anunciadas há três anos, começam agora no início do ano e seguem em forma de teste até 2032. 

“As principais mudanças dizem respeito à lógica do sistema tributário das relações de consumo, ou seja, prestação de serviços e comércio de mercadorias, sobretudo na substituição de múltiplos tributos por dois novos tributos, o IBS [Imposto sobre Bens e Serviços] e a CBS [Contribuição sobre Bens e Serviços], com uma estrutura nacional, não cumulativa, baseada no destino da prestação/mercadoria, e não mais na origem”, contextualiza. 

“Outro ponto relevante deve se concentrar na mudança do centro de atenção do planejamento tributário: sai o foco exclusivo na carga nominal dos tributos e entra o foco na cadeia operacional, nos contratos e na formação de preço, especialmente no que tange os créditos”, acrescenta. 

Os impactos devem ser sentidos, de uma forma ou de outra, por todos os setores da economia, alcançando tanto empresários quanto consumidores. O aumento da complexidade no curto e no médio prazo é um dos principais desafios para o empresariado. Conforme cita Pasqualotto, esse momento exige necessidade de controles paralelos, revisão de contratos e ajustes sistêmicos.

“Ainda outros impactos são mudança na formação de preços, já que o imposto passa a ser mais transparente e destacado, afetando margens, negociações junto a fornecedores e estratégias comerciais. Há também um risco elevado para quem não se preparar: empresas que não revisarem sua cadeia, fornecedores e modelo operacional podem perder crédito, competitividade ou margem e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para quem se antecipa, organiza processos e toma decisões estratégicas antes do mercado”, elenca.

Já para o consumidor, o efeito é de uma transparência maior sobre o quanto se paga de imposto, pois o tributo aparecerá de forma clara no preço e no documento fiscal. “No longo prazo, a expectativa é de simplificação e racionalização, mas isso não significa, necessariamente, redução imediata de preços”, ressalta ainda Pasqualotto. 

Marcelo Vieira, advogado e presidente da Comissão de Assuntos Tributários (CATRI) da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso do Sul (OAB-MS), reforça que, com essa reforma, o Brasil começa a migrar para um modelo mais parecido com que vários outros países usam. “A ideia é tentar trazer regras mais padronizadas e mais previsibilidade”, destaca. “Para o empresário, o momento é de adaptação obrigatória”, afirma.

 “A reforma mexe na forma de calcular, no direito a créditos, na emissão de documentos fiscais e, principalmente, como o imposto se espalha ao longo da cadeia – da compra de insumos até a venda ao cliente final. Na prática, isso exige colocar a operação em ordem: atualizar sistemas, revisar cadastros, repensar formação de preço, ajustar contratos e, em alguns casos, redesenhar o próprio fluxo da operação”, detalha. 

AJUSTES

Na mesma linha do que explica Pasqualotto, Vieira também frisa que daqui para frente, quem não fizer os devidos ajustes, tende a sentir o impacto com mais força. “Às vezes não é porque ‘o imposto aumentou’, mas porque a empresa deixou de economizar por detalhes: crédito que deixa de ser aproveitado, produto classificado de forma incorreta, erro em documento fiscal, escolha inadequada de regime ou de estrutura comercial”, comenta.
 

“Em outras palavras, a carga não vai pesar igual para todos. Ela tende a ficar mais pesada justamente para quem estiver menos preparado para cumprir as novas rotinas”, enfatiza. 

Vieira ainda indica que os impactos também vão variar muito entre os diferentes setores. “Na indústria e em cadeias longas, o ponto principal será a gestão de créditos e a organização da cadeia de fornecedores. Em serviços, principalmente onde há poucos insumos que geram crédito, a sensibilidade pode ser maior e o reflexo pode aparecer mais rápido no preço. No varejo, o desafio será o controle do alto volume de operações onde o uso da tecnologia também fará diferença. Já no agro, existem regras e tratamentos específicos para produtos e insumos, mas isso exige mapeamento técnico para não errar o enquadramento e não perder créditos ao longo da cadeia”, explica. 

O advogado tributário Vladimir Rossi antecipa o que acontece no próximo ano. “Já em 2027 nós teremos a extinção do PIS e da Cofins com a plena incidência da CBS de competência da União”, comenta. 
Ele aponta que, até lá, o contribuinte sentirá as mudanças no bolso.

“O que se espera para os contribuintes sem sombra de dúvidas será primeiramente um custo maior, especialmente neste período de transição, por conta da manutenção dos dois sistemas. Não tenho dúvida que as empresas terão um custo maior para operacionalizar os dois sistemas e essa transição servirá para uma adaptação a tudo isso. Como não se sabe qual vai ser a alíquota do IBS e da CBS, o ano de 2026 , que é um ano teste, vai servir exatamente para calibrar o sistema, ao adotar a alíquota de de 0,1 para IBS e 0,9 para CBS, sem necessidade de recolhimento se houver o cumprimento das obrigações acessórias”, analisa.

SERVIÇOS

Em sua avaliação, Rossi adianta também que haverá um incremento da carga tributária para, especificamente, o setor de serviços.

“O que pode ser adiantado é que haverá um incremento da carga tributária para setor de serviços. Isso é inegável. Esse será o segmento mais afetado. Portanto, a expectativa não é boa para o setor de serviços. Para os demais segmentos ainda é muito cedo para qualquer conclusão. O importante nesse momento é que os contribuintes, as empresas se coloquem em posição de atender aos comandos legais, porque este ano é essencial ao aprendizado dos novos tributos”, expressa. 

A reforma tributária é uma das “mais profundas transformações institucionais da história econômica brasileira”, conforme a reportagem da Folha de São Paulo.

O objetivo principal das mudanças é tentar corrigir um sistema tributário disfuncional, que opera com uma carga tributária e complexidade altas, se comparada com o nível de desenvolvimento do País. Ainda de acordo com a reportagem, o Brasil ocupou a última posição no ranking global de complexidade tributária em 2024, resultado da coexistência de diversos tributos sobre consumo e milhares de legislações estaduais e municipais. 

Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a segunda lei de regulamentação da reforma tributária, que criou o Comitê Gestor do IBS, que ficará responsável pela gestão e coordenação operacional do imposto a ser partilhado entre estados e municípios. 

No mesmo evento, foi também lançada oficialmente a Plataforma Digital da reforma tributária, que vai centralizar as operações fiscais das empresas e será capaz de processar cerca de 200 milhões de operações por dia. 

RESUMO RÁPIDO

1 Mudanças entraram em vigor no início deste ano e valem em caráter de testes até 2032, mas esse é considerado o ano de teste
da reforma tributária;

2 Empresas começam a emitir notas com CBS e IBS, mas sem recolhimento obrigatório neste ano;

3A meta é ajustar sistemas, tecnologia e processos antes da cobrança real em 2027.

Agronegócio

MS tem cinco cidades entre as maiores produtoras de soja do Brasil

O Estado responde, hoje, por 7,2% de participação da produção do grão no cenário nacional

22/03/2026 11h00

Projeção para próxima safra é de crescimento de 14% em MS

Projeção para próxima safra é de crescimento de 14% em MS FOTO: Gerson Oliveira/Correio do Estado

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Mato Grosso do Sul tem cinco cidades entre as 50 maiores produtoras de soja do Brasil. Os dados são da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Segundo o levantamento, os municípios destaques do Estado na produção do grão são Ponta Porã, Maracaju, Sidrolândia, Dourados e São Gabriel do Oeste, colocando Mato Grosso do Sul entre os destaques no mapa da produção agrícola brasileira, especialmente no cultivo da soja, principal cultura do País. 

As cidades presentes no ranking estão localizadas em regiões estratégicas para o agronegócio sul-mato-grossense. Ponta Porã, que produziu 869 mil toneladas em 2024, e Maracaju, com 844 mil toneladas, se destacam historicamente como polos de produção. 

Já Sidrolândia (729 mil toneladas) e Dourados (621 mil toneladas) reforçam o papel da região centro-sul como motor agrícola. São Gabriel do Oeste (482 mil toneladas) consolida a expansão da soja em novas áreas produtivas. 

“Não é apenas a cidade que pavimenta ruas, mas a que abre caminhos para o futuro, atrai investimentos, qualifica pessoas e faz a economia girar. Ponta Porã já é um território de força econômica, referência no comércio e nos serviços, com uma base sólida no agronegócio, onde nossa liderança é absoluta”, afirmou o prefeito de Ponta Porã, Eduardo Campos. 

No entanto, a produção de Mato Grosso do Sul ainda pode ser maior que a contabilizada pelo IBGE. Dados do projeto SIGA-MS, executado pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS) contabilizaram uma produção de soja de 1,52 milhões de toneladas em Maracaju e de 1,03 milhão em Ponta Porã. 

Para o coordenador técnico da Aprosoja/MS, Gabriel Balta, o projeto utiliza imagens de satélite, sensoriamento remoto e validação em campo, garantindo maior acurácia na identificação das áreas cultivadas e na estimativa da produtividade. 

“O SIGA-MS é único no país. Ele combina monitoramento por satélite com a validação em campo, oferecendo dados que refletem de forma muito próxima a realidade da produção. Isso traz segurança tanto para produtores quanto para o mercado”, explicou. 

Carro-chefe

A soja segue como líder em produção do agro brasileiro e de Mato Grosso do Sul. Estimativas do IBGE apontam que a produção nacional da oleaginosa deve atingir 173,3 milhões de toneladas em 2025, um crescimento de 4,3% em relação ao ano anterior, consolidando um novo recorde histórico. 

Mato Grosso do Sul também avança. A estimativa é de cerca de 15 milhões de toneladas produzidas nesta safra, um crescimento de aproximadamente 14%, impulsionado tanto pelo aumento da área plantada quanto pela melhora da produtividade. 

Na distribuição da produção pelas unidades da Federação, Mato Grosso lidera como o maior produtor nacional de grãos, com participação de 30,2% na safra nacional. Em seguida, aparecem o Paraná, com 13,9%, Rio Grande do Sul, com 11,7%, Goiás, 10,7%, Mato Grosso do Sul, 7,6% e Minas Gerais, com 5,5% de participação. Juntos, estes estados  representaram 79,6% na estimativa da produção brasileira para 2026. 

Expansão

Essa expansão da soja impacta diretamente a economia sul-mato-grossense, principalmente nas regiões agrícolas do interior, onde a cultura domina grande parte das áreas de plantio. 

O aumento da produção também impulsiona outras cadeias do agronegócio como o transporte, armazenagem e exportação. 

Além disso, a soja costuma determinar o ritmo da segunda safra do milho, já que a colheita da soja libera as áreas agrícolas para o plantio do cereal. 

A colheita da safra 2025/2026 já está em andamento em Mato Grosso do Sul. Segundo levantamento da Aprosoja/MS, até fevereiro, cerca de 27,7% da área cultivada já havia sido colhida, o que corresponde a, aproximadamente, 1,3 milhão de hectares. 

A expectativa é que o avanço da colheita e as condições climáticas ao longo do ano confirmem as projeções de crescimento da produção. 


 

jornada de trabalho

Se aprovado, fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas

Os impactos seriam consequência do aumento dos custos das empresas à medida que as horas trabalhadas diminuíssem, sem alteração dos salários

22/03/2026 08h00

O fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas

O fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

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O fim da jornada de 6 dias de trabalho por 1 de folga, se aprovado, terá impacto nos preços relativos da economia, pelo menos em um primeiro momento, preveem especialistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

De imediato, os custos das empresas subirão na medida em que as horas trabalhadas diminuírem e considerando que os salários não poderão ser reduzidos.

No médio prazo, segundo os especialistas, o mercado se ajustará e as empresas se adequarão à nova realidade, como aconteceu em 1988, quando, na esteira da nova Constituição, a jornada de trabalho foi reduzida de 48 para 44 horas semanais.

A inflação, num primeiro momento, deve subir também porque, segundo o sociólogo, professor e coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz Lúcio, com um dia a mais de folga o trabalhador passará a consumir mais.

Na outra ponta, para atender ao aumento da demanda, o setor produtivo terá que produzir mais. Para isso terá que contratar mais funcionários, fazendo com que a roda da economia passe a girar mais rápido. "O resultado será de um saldo positivo para a economia", defende Ganz Lúcio.

Daniel Teles Barbosa, sócio da Valor Investimentos, também vê o fim da jornada 6x1 alterando os preços relativos da economia por meio de uma inevitável melhora na massa salarial. Setores que não podem interromper suas atividades aos fins de semana vão ter de buscar reposição nos seus dias de folga dos seus empregados ou pagar horas extras.

Para o executivo, num cenário de mercado de trabalho superaquecido, com escassez de mão de obra e plataformas e aplicativos levando vantagem na disputa de trabalhadores com rendas mais atrativas, o setor formal terá que melhorar salários e benefícios para conseguir atrair o trabalhador informal para um ambiente em que terá de cumprir horários, estar sujeito a regras e normas.

"Um motorista de aplicativo hoje consegue movimentar no mês de R$ 6 mil a R$ 9 mil", disse Teles.

De acordo com o coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Ganz Lúcio, num primeiro momento, será inevitável alguma pressão sobre custos das empresas, sobretudo nos das micro e pequenas, que são mais intensivas em mão de obra e carentes de condições para se automatizarem e inovarem.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) quantifica o impacto que o fim da jornada 6x1 exercerá sobre custos.

O efeito será diferente para cada setor e porte, indo de 0,5% a 6,5%, sendo que as empresas maiores e mais automatizadas sofrerão menos pressão que as micros e pequenas.

Tendência Mundial Inevitável

Para o presidente do Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias do Estado de São Paulo (Simpi), Joseph Couri, a redução da jornada trabalho é uma tendência mundial, inevitável e bem-vinda Defende a melhora da qualidade de vida do trabalhador, mas também algum incentivo para que as micro e pequenas empresas possam se automatizar.

Enquanto grandes associações entendem que o debate sobre o fim da jornada 6x1 não cabe em um país com baixo ganho de produtividade e escassez de mão de obra, Couri diz que é só pagar o que o trabalhador pede e merece que a mão de obra aparece.

Ainda, de acordo com ele, o impacto não será generalizado porque muitas empresas já cumprem uma jornada de 40 horas semanais.

"Quanto menos mecanizado for um segmento, maior será o impacto do fim da jornada 6x1 sobre seus custos. Quanto mais mecanizado, menos impacto terá", avalia o presidente do Simpi, para quem alguma contrapartida para os micros e pequenos deveria acompanhar a mudança.

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