Reflexão e superação

A reflexão de Jorge Luis Borges: "Quem se conhece melhor do que o cego?"

Escritor enfrentava a cegueira e trazia grandes reflexões

Jorge Luis Borges perguntou "Quem se conhece melhor do que o cego?" no Teatro Coliseo, em Buenos Aires, durante uma palestra realizada em 1977. O escritor argentino já enfrentava a cegueira havia décadas e refletia sobre as grandes obras da literatura universal.

A reflexão vinha de uma experiência vivida: Borges perdeu gradualmente a visão na infância por uma degeneração genética da retina transmitida pelo pai. Em 1950, já não conseguia enxergar, mas se recusou a deixar de escrever. Amigos e familiares passaram a registrar suas palavras conforme ele as ditava, e o obstáculo se tornou parte de seu método criativo.

A palestra que se transformou em testamento

Quando subiu ao palco do Teatro Coliseo em 1977, Borges enfrentava depressão e estava emocionalmente abalado. Mesmo assim, escolheu conectar sua trajetória à história da escrita humana. A apresentação foi registrada em áudio e depois transcrita, e o processo resultou em uma série de livros repletos de erros de transcrição.

Dois anos depois, em 1979, surgiu a oportunidade de reunir tudo em um único volume. Borges aceitou com uma condição inflexível: seria ele mesmo o revisor e corretor de cada página. Mesmo cego, ouvia cada trabalho ser lido em voz alta pelo menos três vezes para garantir a precisão.

O resultado foi "Siete Noches" — livro que o próprio autor reconheceu como seu legado final, seu testamento literário deixado para as gerações futuras.

 

O autoconhecimento na ausência de luz

A pergunta de Borges ultrapassa a experiência física da cegueira. Ao questionar quem melhor se compreende do que aquele privado da visão, ele sugere que a ausência de estímulo visual libera a memória. A imaginação e a introspecção — ferramentas que o escritor argentino dominou como poucos.

Sem a distração do mundo externo, restam apenas as camadas internas da consciência. Essa reflexão sobre o conhecimento que emerge da escuridão marca a obra de Borges, para quem a cegueira nunca significou isolamento intelectual.

Faleceu em 1986, mas a frase que pronunciou no Teatro Coliseo permanece como prova de que as limitações podem abrir portas para uma compreensão profunda — e de que a escuridão exterior nem sempre equivale à cegueira do espírito.

Se Borges não conseguia enxergar, como revisava seus textos?

Borges usava um método simples, mas que exigia disciplina: mandava alguém ler em voz alta cada página do trabalho que havia ditado. Ao escutar, verificava se as palavras correspondiam exatamente ao que havia imaginado e expressado. Não se tratava de corrigir a ortografia, mas de garantir a preservação do sentido, do ritmo e da precisão.

Por isso, insistiu em ouvir cada trabalho de "Siete Noches" no mínimo três vezes, para confirmar que nada havia se perdido na transcrição ou na interpretação de quem registrava suas palavras.

A formação que preparou Borges para reinventar sua criação

Antes de ficar cego, Borges já havia construído uma trajetória intelectual que o prepararia para essa reinvenção. Estudou em instituições educacionais na Suíça e na Inglaterra, passou por universidades e trabalhou como bibliotecário. A profissão o colocava em contato direto com textos, catálogos e sistemas de organização do conhecimento.

Como diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, cargo que assumiu em 1955, conhecia profundamente a forma como a informação era estruturada e recuperada.

Estudiosos reconhecem que a progressiva cegueira ajudou Borges a criar novos símbolos literários com a imaginação, porque "os poetas, como os cegos, podem ver no escuro". Sua formação ampla em literatura, filosofia e línguas múltiplas fornecia o material de que precisava para continuar atuando no mundo das ideias, mesmo sem acesso visual aos livros. Ele carregava sua biblioteca na memória.

O que a condição de Borges revelou sobre o processo criativo

A história de Borges desafia a ideia comum de que escrever exige ver. Seu trabalho mostrou que a criação literária vai além da percepção visual: está na memória, na linguagem falada e na capacidade de estruturar pensamentos sem depender de uma página à sua frente.

Ao ouvir suas obras depois que alguém as ditava, Borges demonstrava que a revisão também pode ser um ato de escuta e refinamento auditivo, não apenas visual.

Isso tem consequências práticas para qualquer pessoa que cria: sugere que o verdadeiro obstáculo não é a limitação física, mas a rigidez em adaptar o método de trabalho. Borges não tentou enxergar do jeito que enxergava antes — ele reinventou completamente como recebia informação, processava e corrigia seus textos.

Sua aceitação de um método radicalmente diferente, longe de diminuir a qualidade, resultou em "Siete Noches", que ele mesmo reconheceu como seu testamento literário.

Sabedoria

A reflexão de Francis Bacon: "O homem sábio cria mais oportunidades do que encontra"

Iniciativa e discernimento são fundamentais em momentos decisivos, segundo ele

29/10/2026 09h28

Imagem: autor desconhecido/Wikimedia Commons

Continue Lendo...

Esperar o cenário ideal para agir separa a intenção da ação concreta. Uma citação atribuída ao filósofo inglês Francis Bacon resume esse dilema: o homem sábio cria mais oportunidades do que encontra. A ideia convida a pensar sobre iniciativa e discernimento diante de decisões importantes.

Quando alguém adia um passo decisivo até ter garantias totais, corre o risco de nunca dar esse passo. Francis Bacon viveu entre 1561 e 1626 e defendia que a inteligência deveria guiar também as escolhas práticas do cotidiano.

Para ele, uma pessoa sábia não fica refém apenas das circunstâncias favoráveis, mas trabalha para reconhecer brechas e construir novas condições a partir delas.

A frase e seu contexto nos Ensaios

O trecho integra o ensaio Of Ceremonies and Respects, dentro da coletânea Ensaios de Francis Bacon, em que o autor questiona o excesso de formalidades nas relações humanas. Segundo essa reflexão, a preocupação exagerada com o momento perfeito pode travar quem precisa agir.

Na versão dos Ensaios disponível no Project Gutenberg, a frase surge logo depois de uma referência a alguém que fica observando o vento e as nuvens antes de plantar. Essa cena ilustra bem o risco de travar uma ação necessária só porque nenhuma condição parece perfeita o bastante.

Quem planta precisa, sim, avaliar o terreno e o clima, mas não pode adiar indefinidamente à espera da ausência total de obstáculos. Vale o mesmo raciocínio para qualquer decisão: ponderar riscos é saudável, transformar essa ponderação em paralisia não.

Preparação versus adiamento excessivo

Buscar segurança antes de uma escolha importante é um impulso natural e compreensível. O problema aparece quando alguém acumula tantas exigências para começar que o projeto nunca sai do papel: quer dominar todo o conhecimento. Ter todos os recursos à mão e a certeza plena de que nada vai dar errado.

Essa diferença separa preparação de adiamento: a primeira abre portas, o segundo trava o uso do que já foi aprendido.

Quem pensa em mudar de carreira, por exemplo, pode acreditar que precisa primeiro dominar por completo a nova área antes de sequer buscar uma oportunidade. Reconhecer quando as condições já são suficientes para um primeiro passo — ainda que imperfeito — é justamente o que a reflexão de Bacon valoriza.

 

Encontrar versus criar oportunidades

Encontrar uma oportunidade é reconhecer uma circunstância favorável que já está posta — uma vaga, um convite, uma chance inesperada de aprender algo novo. Já criar uma oportunidade exige construir as condições para que algo aconteça, mesmo sem nenhuma alternativa pronta à disposição.

Essa distinção separa quem depende do acaso de quem constrói o próprio caminho. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, para Bacon, o conhecimento só se justifica quando gera impacto prático e melhora a condição humana. Sua filosofia valorizava observação atenta, investigação constante e aplicação prática daquilo que se aprende.

Esse raciocínio explica por que a frase perdura séculos: distingue quem aguarda o cenário perfeito de quem age com o que tem.

Como o reconhecimento de possibilidades funciona na prática

Criar oportunidades não é um ato mágico, mas resultado de observação atenta. Segundo Bacon, uma pessoa sábia identifica brechas e recursos disponíveis no ambiente — conhecimentos e contatos que já possui, além de pequenas possibilidades que passam despercebidas.

Em vez de esperar que tudo se alinhe perfeitamente, ela percebe que muitos elementos já estão presentes e podem ser combinados de formas novas.

Essa observação constante funciona como o primeiro motor para a ação. Quando alguém começa a reconhecer o que já existe ao seu redor. Deixa de ser refém das circunstâncias e passa a ser protagonista: a partir do que vê, pode desenhar um primeiro passo concreto, mesmo que pequeno e imperfeito.

Mas não é irresponsável agir sem ter tudo planejado?

Não, e bacon distingue entre preparação saudável e adiamento excessivo. Avaliar riscos e reunir informações antes de começar é prudência e ajuda a criar oportunidades com discernimento. O problema é quando essa avaliação nunca termina, quando a pessoa exige certeza absoluta e conhecimento completo antes de dar qualquer passo.

A diferença está em reconhecer quando as condições já são suficientes para um início imperfeito, não em pular para a ação sem nenhuma reflexão.

Reflexão prussiana

Immanuel Kant: "O que está acima de todo preço tem dignidade"

Filósofo trouxe essa reflexão que segue atual

29/10/2026 09h00

: Imagem: Johann Gottlieb Becker/Wikimedia Commons

Continue Lendo...

Immanuel Kant examinou o que guia uma escolha quando ninguém assiste, nenhuma recompensa se oferece e nenhuma consequência ameaça. Para o filósofo prussiano, é nesse vazio que a razão autêntica de uma escolha emerge sem máscara.

Ao escrever a Fundamentação da Metafísica dos Costumes, publicada em 1785, Kant associou a liberdade de agir sem supervisão ao valor que transcende qualquer cifra monetária.

Para Kant, cada ser humano encerra em si algo que escapa a toda tabela de equivalências. Por isso, ninguém pode ser reduzido a mero instrumento dos desejos alheios. A pergunta central dessa reflexão permanece: o que guia nossas ações quando ninguém nos observa?

A separação entre preço e dignidade

Para Kant, a autonomia fundamenta a dignidade de toda natureza racional. Daí vem a divisão decisiva: o que tem preço pode ser trocado por um equivalente; o que transcende todo preço tem dignidade absoluta. Nas palavras do próprio filósofo, "no reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma dignidade."

Essa dignidade não nasce de títulos, heranças ou fortuna, mas da capacidade racional de o ser humano se autogovernar moralmente. Um bem negociável pode ser comparado; uma pessoa, no pensamento kantiano, não se submete à lógica do mercado.

 

Da Prússia Oriental ao impacto duradouro

Kant nasceu em 1724 em Königsberg, então a principal cidade da Prússia Oriental e hoje Kaliningrado, na Rússia. Criado numa família de artesãos pietistas, dedicou toda a carreira ao ensino na Universidade de Königsberg, onde residiu até 1804.

Em Königsberg, Kant formulou o que chamou de revolução copernicana: a mente não copia passivamente o mundo exterior, mas estrutura o pensamento que organiza a experiência do sujeito.

Essa mudança na concepção do conhecimento abriu caminho para a ética que ele construiria décadas depois, baseada na ideia de que a razão prática governa as escolhas morais de forma independente.

Como o imperativo categórico orienta a moralidade

Segundo Kant, uma ação só tem valor moral quando nasce exclusivamente do dever, e não do medo, da vantagem pessoal ou da compaixão. O que determina se um gesto é correto não é seu resultado, mas o princípio que o motiva desde o início, e três formulações complementares estruturam esse julgamento moral.

A primeira exige universalidade: agir segundo uma máxima que toda pessoa pudesse aceitar como lei válida para todos, sem ressalva. A segunda trata a humanidade como fim: jamais reduzir a si mesmo ou a outra pessoa a simples meio. A terceira aborda a autolegislação: comportar-se como membro de uma legislação universal, sendo ao mesmo tempo seu autor e seu destinatário.

Autonomia como raiz do valor humano

O elo entre o imperativo categórico e a dignidade está na autonomia da vontade: a capacidade de todo ser racional criar sua própria lei moral sem depender de força externa, religião ou pressão do grupo. Nesse poder de se autogovernar eticamente está o valor que nenhuma riqueza pode igualar.

Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, é nessa capacidade de autolegislação que está o valor absoluto e incomparável do ser humano para Immanuel Kant. Um bem com preço sempre encontra um substituto no mercado; aquilo que tem dignidade escapa a toda tabela comparativa.

Aplicações práticas da dignidade absoluta

A distinção entre preço e dignidade não ficou confinada aos textos filosóficos. Ela ainda sustenta restrições concretas ao que se pode fazer com um ser humano, independentemente do contexto ou da justificativa alegada. A proibição da escravidão e da servidão em todas as suas formas decorre diretamente dessa ideia.

O direito ao consentimento informado em pesquisas médicas e científicas também remonta a esse conceito kantiano. A proibição da comercialização de órgãos humanos segue a mesma lógica: alguns elementos da pessoa não podem entrar no mercado em nenhuma circunstância.

Kant transformou a noção de dignidade ao deslocá-la do campo teológico para o racional. O ser humano não precisa ser criado à imagem divina para merecer respeito absoluto: a razão pura justifica esse respeito sem necessidade de revelação religiosa. Desse deslocamento surge um argumento aplicável a toda pessoa, independentemente de sua crença ou fé.

A Constituição Federal Brasileira incorpora essa filosofia ao colocar a dignidade da pessoa humana como base do Estado Democrático de Direito em seu primeiro artigo. Adotada em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos também reflete essa herança kantiana ao afirmar que direitos fundamentais não podem ser comercializados nem renunciados pela própria pessoa.

Mais de dois séculos após sua formulação em Königsberg. A tese da dignidade absoluta continua a ser um argumento filosófico contra a tortura, a escravidão e qualquer forma de coisificação do ser humano. Ela permanece uma base teórica dos direitos humanos contemporâneos.

Como a razão pura prática distingue o dever moral da simples obediência

A razão pura prática permite ao ser humano decidir o que é moral sem depender de experiências externas, imposições religiosas ou leis impostas de fora. Diferentemente de um imperativo hipotético, que diz "se você quer X, faça Y", o imperativo categórico nasce dessa razão e funciona como uma lei que o próprio indivíduo reconhece e estabelece para si.

A distinção crucial é que ninguém impõe essa obediência: ela nasce do reconhecimento racional de que a ação é correta.

Esse mecanismo permite que uma pessoa aja moralmente mesmo quando ninguém a observa. A motivação não vem de vigilância externa ou recompensa, mas da capacidade de a razão julgar por si mesma o que é certo. A autonomia moral funciona como uma orientação interior que não depende de aval externo.

O que significa a dignidade universal para as relações cotidianas entre pessoas

Se a dignidade é um valor absoluto que transcende qualquer preço ou equivalência, nenhuma pessoa pode ser tratada como ferramenta descartável dos objetivos alheios nas relações de trabalho, familiares ou comerciais. Um chefe não pode explorar um funcionário como simples meio para obter lucro. Um vendedor não pode enganar um cliente e reduzi-lo a vítima manipulável.

Nenhum contrato pode violar a condição humana da outra parte, por mais vantajoso que seja financeiramente.

Essa implicação prática transforma a dignidade de uma ideia abstrata em critério concreto: uma relação viola esse princípio quando trata alguém como descartável, substituível ou inferior em valor. A universalidade significa que a regra vale para ricos e pobres, poderosos e vulneráveis, porque a capacidade de razão e autonomia existe igualmente em toda pessoa humana.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).