Reflexão e Filosofia

A reflexão de Carl Jung, psiquiatra: "O homem idoso deve restringir sua vida"

Para Jung, adaptar-se a cada período é essencial

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung explorou, em seu ensaio sobre as etapas da vida, como envelhecer transforma não apenas o corpo, mas também a forma como as pessoas pensam, se relacionam e definem suas prioridades. Para Jung, adaptar-se a cada período é essencial, e tentar viver indefinidamente segundo os parâmetros da juventude leva ao sofrimento.

Segundo Jung, chega um momento em que os objetivos dos primeiros anos da vida adulta — reconhecimento profissional, avanço na carreira, construção de posição social — perdem parte de seu significado. Nessa fase, a introspecção e o autoconhecimento ganham centralidade, abrindo espaço para uma reorganização fundamental das prioridades pessoais.

O desenvolvimento humano como uma jornada solar

Jung comparava o desenvolvimento humano ao percurso do Sol: o amanhecer e a manhã representam o crescimento e a expansão, enquanto o entardecer simboliza o descenso e a introspecção. Cada etapa da vida exige necessidades específicas e estratégias diferentes, não uma continuação dos mesmos padrões.

O processo de "contração" descrito por Jung vai além da redução de atividades ou capacidades físicas. Envolve uma transformação profunda na energia e na atenção que a pessoa dedica aos distintos aspectos de sua existência.

Com o passar dos anos, algumas metas perdem relevância, enquanto outras adquirem novo valor: o desejo de tranquilidade, o fortalecimento de vínculos significativos e a dedicação a interesses pessoais passam a ocupar o lugar antes reservado à necessidade de demonstrar capacidades aos outros.

A maturidade como fase distinta, não como extensão da juventude

Um ponto central no pensamento de Jung é que prolongar indefinidamente uma forma de vida que não mais responde às necessidades reais gera dificuldades. Durante a juventude, é natural focar em construir identidade, desenvolver carreira, formar família ou conquistar estabilidade econômica. Quando esses objetivos se transformam em obrigações permanentes, porém, podem perder sentido conforme as circunstâncias mudam.

A maturidade, na perspectiva jungiana, exige revisar expectativas e aceitar que os interesses se transformam. Não significa abrir mão de projetos nem parar de aprender, mas reconhecer que o sucesso adquire significado distinto. Uma pessoa pode deixar de priorizar o reconhecimento profissional para dedicar mais tempo aos afetos, retomar atividades adiadas ou construir uma vida menos condicionada por exigências externas.

Introspecção e sentido na segunda metade da vida

Jung considerava a segunda metade da vida uma oportunidade de maior introspecção. Em vez de concentrar todos os esforços em se adaptar ao mundo exterior, as pessoas podem voltar a atenção para suas emoções. Contradições e necessidades profundas, em um processo ligado ao conceito de individuação, pilar do pensamento jungiano.

A individuação é um caminho de desenvolvimento psicológico em que a pessoa busca integrar distintas facetas de sua personalidade e alcançar compreensão mais ampla de si mesma. Na prática, envolve fazer perguntas que talvez tenham ficado adiadas: quais atividades geram satisfação genuína, quais relacionamentos realmente importam, qual vida faz sentido quando a pressão externa diminui.

O que significa na prática deixar de viver segundo os padrões da juventude

Aceitar essa transformação muda decisões concretas do dia a dia. Uma pessoa que antes recusava férias para avançar na carreira pode começar a priorizar viagens com pessoas queridas. Alguém que adiava hobbies pode finalmente dedicar tempo real a eles.

Profissionalmente, pode significar recusar promoções que exigem mais horas, ou mudar de carreira para algo mais alinhado com valores pessoais — não por fracasso, mas por clareza renovada sobre o que importa.

Na prática, também afeta relacionamentos: podem surgir conversas honestas sobre necessidades que foram silenciadas, renegociações de compromissos, ou o reconhecimento de que certos vínculos precisam transformar-se. Menos performatividade social também libera energia mental que antes era gasta em manutenção de imagem, deixando espaço para autenticidade.

Ciência

Após décadas estudando a felicidade, especialistas contam o que mudaram em suas vidas

Juntos, trouxeram mais de 600 anos de pesquisa e trabalho profissional.

27/10/2026 12h27

Foto: Kampus Production/Pexels

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Pesquisadores que dedicaram décadas a investigar o que torna a vida feliz passaram a viver de forma diferente depois de chegar a essas conclusões. Eles dedicaram mais tempo à família, procuraram amigos com regularidade e passaram a valorizar pequenos prazeres que antes deixavam passar despercebidos.

Em janeiro de 2026, 13 estudiosos se reuniram em uma videochamada de três horas para debater essas transformações pessoais e o campo que ajudaram a construir. Juntos, trouxeram mais de 600 anos de pesquisa e trabalho profissional.

Como a felicidade ganhou legitimidade científica

Muitos pesquisadores descartavam a felicidade como algo vago demais para ser estudado com rigor. Um colega disse a Ed Diener que nenhum cientista investigaria o tema, levando-o a trabalhar em outras áreas antes de retomar o assunto.

Diener cunhou o termo "subjective well-being" (bem-estar subjetivo), que se tornou padrão no campo, para dar ao trabalho uma base mais rigorosa. Diener e Easterlin morreram desde então, e o filho de Diener, Robert Biswas-Diener, representou o pai na videochamada de 2026, enquanto a economista Kelsey O'Connor representou Easterlin, seu antigo professor.

Easterlin também havia enfrentado dificuldades para publicar pesquisas sobre a relação entre crescimento econômico e felicidade, porque a comunidade científica duvidava do valor dos dados sobre felicidade. As pesquisas desses pioneiros receberam mais de 1,6 milhão de citações, contra 4 mil de um professor típico ao longo de toda a carreira.

Relacionamentos emergiram como prioridade

O tema mais consistente entre os pesquisadores foi dedicar tempo a outras pessoas. Muitos disseram ter investido mais em casamentos, amizades, encontros cotidianos e convivência com filhos e netos. Alguns até reservavam dias específicos da semana exclusivamente para a família.

Lara Aknin, professora de psicologia social da Simon Fraser University, explica que relacionamentos duradouros geram bem-estar porque não são comparados nem provocam adaptação como os bens materiais. Contar com uma única pessoa já produz efeitos importantes, e quanto mais relacionamentos uma pessoa tem e mais comunidades integra, mais forte é seu senso de bem-estar.

Generosidade e mudanças de rotina

Vários pioneiros observaram que ajudar outras pessoas a serem mais felizes melhorou a própria felicidade. Eles relacionaram essa descoberta a pesquisas sobre generosidade e sobre como as emoções se propagam pelas redes sociais. As pessoas retribuem com frequência atos de bondade e os repassam adiante.

A generosidade não é um jogo de soma zero: quando uma pessoa doa ou ajuda, não esgota sua capacidade de ser generosa, e pelo contrário, a amplia.

Gênio da música

John Lennon: "Não sei o que vai acabar primeiro, o rock 'n' roll ou o cristianismo"

Comentário acabou se tornando um dos episódios mais conturbados da carreira dos Beatles

27/10/2026 11h54

Imagem: Joost Evers / Anefo / Nationaal Archief

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Um comentário feito meses antes por John Lennon em uma entrevista concedida na Inglaterra viria a se transformar, em julho de 1966, em um dos episódios mais turbulentos da carreira dos Beatles nos Estados Unidos. Lennon comparou a popularidade da banda à de Jesus Cristo, mas o comentário só ganhou dimensão quando a revista Datebook o republicou naquele mês.

A fala havia sido registrada em 4 de março de 1966 pela jornalista Maureen Cleave, que preparava para o London Evening Standard uma série de perfis sobre a rotina de cada integrante da banda, intitulada "Como vive um Beatle?". Na Inglaterra, o trecho passou despercebido, incorporado ao cotidiano da banda. A repercussão mudaria quando ele atravessasse o Atlântico e chegasse aos leitores americanos do Cinturão Bíblico.

A provocação que incendiou os Estados Unidos

Na ocasião, Lennon previu o declínio do cristianismo, argumentando que a popularidade da banda já superava a de Jesus, e colocou em dúvida se seria o rock ou a fé cristã a desaparecer primeiro. Sem grande expressão até aquele momento, a publicação deu destaque à frase dentro de uma reportagem sobre as dez figuras adultas mais admiradas e mais odiadas pelos jovens leitores. As vendas chegaram a cerca de um milhão de exemplares.

A repercussão foi imediata nas regiões de maior conservadorismo religioso. Emissoras de rádio retiraram as músicas dos Beatles da programação, e igrejas organizaram protestos e atos públicos de repúdio à declaração de Lennon nos Estados Unidos.

Fãs atearam fogo em discos e lembranças da banda em praças públicas, o episódio mais lembrado desses atos aconteceu no Texas, onde a emissora KLUE organizou uma queima pública de discos da banda em sinal de protesto. Ameaças de morte circulavam contra os músicos e suas famílias, enquanto uma turnê americana já estava marcada para os meses seguintes.

A coletiva de imprensa em Chicago

Pressionado pela repercussão, Lennon compareceu a uma coletiva de imprensa em Chicago em 11 de agosto para esclarecer a declaração. Ele disse que mencionar a televisão em vez dos Beatles teria evitado a reação, pois usara a banda apenas como exemplo de como a juventude britânica via a religião naquele momento.

O Beatle negou qualquer intenção de desrespeitar Jesus Cristo ou colocá-lo no mesmo patamar de uma pessoa comum, atribuindo toda a controvérsia a uma interpretação equivocada de suas palavras. A resposta tentava reconectar com o público religioso americano, mas o estrago já estava feito — a turnê de 1966 se tornaria a última série de shows comerciais realizada pelo grupo.

 

Reconciliação institucional décadas depois

Com o tempo, a polêmica deixou de ser tratada como uma ruptura definitiva entre os Beatles e comunidades religiosas. Em 2010, quando o fim da banda completou 40 anos, o jornal oficial do Vaticano, L'Osservatore Romano, revisitou o episódio e tratou a fala de Lennon como um acontecimento do passado, já superado pela história.

O texto reconhecia os excessos vividos pelo grupo no auge da fama, mas defendia que a controvérsia pertencia ao passado. A publicação destacava como as composições de Lennon e McCartney permaneciam influentes décadas depois, sugerindo reconciliação simbólica entre a instituição e os músicos.

Ringo Starr reagiu à posição do Vaticano em entrevista à CNN. O baterista afirmou que o Vaticano não havia dito que eles eram satânicos e ainda assim os perdoava, questionando se a instituição não teria coisas mais importantes a dizer além dos Beatles.

O padrão que se repetiria no rock

O episódio de 1966 abriu precedente para confrontos semelhantes entre o rock e instituições religiosas. Décadas depois, bandas de heavy metal como Black Sabbath, Judas Priest, Iron Maiden e Ozzy Osbourne enfrentariam censura comparável à que atingiu os Beatles.

Um caso notório ocorreu em julho e agosto de 1990, quando Judas Priest foi levado a tribunal em Reno, Nevada, acusado de usar mensagens subliminares em "Better by You, Better Than Me", do álbum Stained Class, para induzir dois jovens a um pacto suicida em 1985 — o juiz inocentou a banda.

Mais recentemente, o Sepultura teve show cancelado no Líbano em abril de 2019 sob acusação de "adoração ao demônio", mas bandas de rock locais se reuniram no horário do evento para tocar as músicas do grupo brasileiro.

Décadas depois, costuma-se apontar aquela declaração de Lennon sobre Jesus, feita em julho de 1966, como a origem de um dos primeiros grandes casos de "cancelamento" vividos pelo rock.

Quando a Igreja muda de opinião e a polêmica não desaparece

Em 2010, o Vaticano publicou no L'Osservatore Romano um artigo que classificava a declaração de Lennon como "uma bravata de um jovem às voltas com sucesso inesperado" e elogiava as composições dos Beatles como fontes de inspiração para gerações de músicos. A posição representava um perdão oficial da maior instituição cristã do mundo, o tipo de gesto que poderia encerrar a controvérsia no plano institucional.

A reação de Ringo Starr, porém, mostrou que a reconciliação oficial não encerra a controvérsia. O baterista respondeu com ironia à posição do Vaticano e questionou por que a Igreja precisava dizer que os perdoava, insinuando que a instituição nunca tivera autoridade para condená-los. Para os sobreviventes, o "perdão" de uma instituição poderosa décadas depois soava mais como apropriação de uma narrativa do que como justiça.

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