Três explosões de classe M varreram a superfície do Sol nas últimas 24 horas, interrompendo um período de atividade moderada. Duas delas brotaram da região AR4549, um agrupamento de manchas solares que se expandiu rapidamente e desenvolveu a configuração magnética mais complexa conhecida entre as áreas ativas do astro-rei.
A maior dessas erupções. Com intensidade M1.8, atingiu seu pico nesta terça-feira (6), às 5h05 no horário de Brasília, e interrompeu comunicações por rádio sobre o Mar Arábico, na costa leste da Somália.
O escurecimento coronal observado logo após o evento sugere que material solar foi lançado ao espaço —. E a posição favorável da AR4549 significa que esse jato pode estar em rota para nosso planeta.
Ainda não há confirmação sobre a chegada ou a intensidade do impacto potencial, mas os próximos dias exigem vigilância. A região em foco tem capacidade de gerar erupções ainda mais poderosas, de classe X, as mais intensas da escala de medição dessas explosões solares.
O ciclo de atividade solar que explica tudo
O Sol passa por ciclos de 11 anos de atividade magnética intensa. Atualmente, o astro está no que os astrônomos chamam de Ciclo Solar 25 — o 25º ciclo documentado e acompanhado com rigor científico desde que começaram os registros modernos.
No auge desses ciclos, a superfície solar fica salpicada de manchas escuras que marcam concentrações enormes de energia. Quando as linhas do campo magnético se emaranham e se reorganizam nessas regiões, elas podem se romper. E lançar rajadas violentas de vento solar — o que os cientistas chamam de ejeção de massa coronal, ou CME na sigla em inglês.
Como as explosões liberam tanta energia
A física Adriana Valio, professora titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisadora do Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie (CRAAM), descreveu ao Olhar Digital o mecanismo que dispara essas liberações colossais.
A energia brota de um processo chamado reconexão magnética, no qual as linhas do campo magnético se reorganizam bruscamente. E convertem parte dessa energia magnética em radiação intensa, aquecimento do plasma e aceleração de partículas carregadas.
As explosões solares são classificadas numa escala alfabética — A, B, C, M e X — conforme a intensidade dos raios-X que emitem. Cada nível é 10 vezes mais potente que o anterior, tornando as explosões de classe X verdadeiras cataclismos cósmicos.
Nessa escala, as erupções de classe M são consideradas moderadas, porém capazes de interromper comunicações, como ocorreu nesta terça-feira.
Por que a região AR4549 é especial e perigosa
A configuração da mancha solar AR4549 a coloca num patamar especial de complexidade magnética. Cientistas a descrevem como beta-gama-delta, a categoria mais intrincada entre todas as que classificam áreas ativas no Sol. Estruturas com essa complexidade magnética abrigam e acumulam quantidades extraordinárias de energia.
Localizada a leste do centro visível do disco solar, a AR4549 cresceu em velocidade impressionante e transformou-se num vasto conjunto de manchas entrelaçadas. Essa posição — voltada diretamente para a Terra — torna cada explosão que emanar dela uma ameaça potencial de impacto direto, caso a ejeção de massa coronal se dirija até nós.
Apagão de rádio já foi registrado
A explosão M1.8 de nesta terça-feira provocou um apagão de rádio classificado como R1 — o nível menor numa escala que vai até R5. Embora considerado de menor impacto, o evento bloqueou comunicações de rádio sobre uma vasta região do oceano Índico quase que instantaneamente, demonstrando a velocidade com que a radiação solar viaja.
Esses apagões ocorrem porque a radiação intensa do Sol interfere nas ondas de rádio usadas em navegação aérea, comunicações marítimas e sistemas de satélite. A exposição a essa radiação também afeta satélites de órbita baixa, painéis solares e, potencialmente, redes elétricas terrestres quando o impacto é severo.
O que pode acontecer se atingir a Terra
Uma ejeção de massa coronal que atinja a magnetosfera terrestre desencadeia uma tempestade geomagnética. A intensidade dependerá da quantidade de plasma e da força do campo magnético embarcado pela nuvem solar — fatores que ainda não podem ser estimados com precisão a partir dos dados atuais.
Tempestades geomagnéticas fracas perturbam satélites de GPS e comunicações, e Tempestades moderadas expandem esses problemas para transformadores elétricos em latitudes altas. Tempestades severas podem danificar infraestrutura de energia elétrica em larga escala e afetar sistemas de navegação globais por horas ou dias.
Observações científicas alertam para risco crescente
Imagens coletadas imediatamente após a explosão de nesta terça-feira registraram um escurecimento amplo ao redor da zona de erupção — evidência de que material foi ejetado da atmosfera solar externa, chamada coroa. Esse padrão é o sinal visual que antecede uma ejeção de massa coronal potencial.
O físico espacial Vincent Ledvina, que fotografa auroras boreais do Alaska, alertou que as imagens disponíveis eram muito recentes para permitir estimativas confiáveis do volume de material em deslocamento. Mesmo assim, a probabilidade de impacto terrestre já justifica que agências espaciais monitorem a AR4549 continuamente nos próximos dias.
Por que os próximos dias são críticos
A AR4549 permanece em posição de risco — sua orientação atual a mantém apontada para a Terra. Nos próximos dias, enquanto a região ativa continuar visível e ativa, existe potencial para novas erupções de classe M e, crucialmente, para explosões de classe X, que liberariam energia vastamente superior.
Meteorologistas espaciais usam imagens contínuas de telescópios terrestres e sondas solares para identificar mudanças na estrutura magnética da região e prever o risco. Essas observações permitem calcular se novas explosões ocorrerão e, quando uma CME é confirmada, estimar o tempo de chegada à Terra — geralmente entre 24 e 72 horas após a erupção.
A vigilância dessa região torna-se imprescindível porque agora temos tecnologia capaz de antecipar impactos e proteger infraestruturas críticas, desde que o tempo seja suficiente para implementar as medidas. O trabalho contínuo de instituições como o CRAAM e o acompanhamento global mantêm a humanidade preparada para lidar com a próxima tempestade solar que se aproxime.


