O gelo de água exposto no polo norte de Marte contém menos de 3% de poeira em massa, segundo um estudo publicado na npj Space Exploration. A descoberta inverte duas décadas de interpretações anteriores.
Em diversos pontos, o teor de poeira é inferior a meio por cento, o que transforma o que se acreditava ser uma superfície suja em uma reserva de gelo praticamente intacta. Em algumas comparações com estimativas anteriores, o novo cálculo indica que o gelo pode ser até 100 vezes mais limpo do que se pensava. A revelação muda nossa compreensão sobre o arquivo climático do planeta vermelho.
Durante o verão boreal marciano, uma espiral de gelo com cerca de um milhão de quilômetros quadrados fica exposta à luz solar. A área, comparável à do Egito, brilha com uma brancura que levou pesquisadores a conclusões equivocadas sobre sua composição durante duas décadas.
Por que o gelo polar importa para a história marciana
Como Marte não possui uma lua grande estabilizadora como a Terra, seu eixo de rotação sofre oscilações que variam de 15 graus a mais de 45 graus ao longo do tempo.
Cada mudança redistribui a energia solar entre o equador e os polos e força o gelo de água a migrar. Quando o eixo se inclina mais, as regiões polares absorvem mais energia, o gelo sublima e se desloca para latitudes intermediárias. Quando o eixo se endireita novamente, o fluxo se inverte.
Essa oscilação criou sucessivas eras glaciais em Marte, transformando os polos atuais nos maiores reservatórios de gelo do planeta. O polo norte abriga a North Polar Residual Cap (NPRC). Uma camada de gelo de água com aproximadamente um metro de espessura exposta durante o verão, que repousa sobre os North Polar Layered Deposits (NPLD), depósitos estratificados com quilômetros de profundidade.
Cada camada desses depósitos registra as condições de uma época distinta, funcionando como arquivo climático que remonta milhões de anos.
Descoberta através de novo modelo glaciológico
Pesquisadores da Universidade de Edimburgo e do Centro de Ciência Polar do Laboratório de Física Aplicada da Universidade de Washington desenvolveram um modelo baseado em métodos da glaciologia da Antártida para reanalisar dados espectrais coletados durante duas décadas por sondas em órbita. O trabalho refaz as interpretações anteriores e reduz drasticamente as estimativas de poeira incorporada ao gelo exposto.
A calota residual norte, cuja superfície foi datada em torno de 1.500 anos pela contagem de crateras de impacto de 2016, representa o registro mais recente de um arquivo geológico em formação.
Compreender a física desse gelo — o tamanho de seus grãos, o teor de poeira. E o modo como ele se organiza em camadas — abre caminho para decodificar milhões de anos de história climática marciana registrados nos depósitos mais profundos.
Implicações para futuras missões exploratórias
A pureza inesperada do gelo polar tem consequências práticas para o planejamento de futuras expedições humanas a Marte. Água mais limpa significa maior facilidade de extração e uso direto como recurso, sem necessidade de filtragem extensiva.
Além disso, medir a composição do gelo com mais precisão permite reconstruir de forma mais confiável os ciclos climáticos marcianos. E refinar modelos que explicam por que o planeta perdeu sua atmosfera densa e passou de um ambiente potencialmente habitável ao deserto árido de hoje.



