Carpe diem

Fernando Pessoa deixou uma reflexão: "Colhe o dia, porque és ele"

Ele defendia fielmente o ideal do "carpe diem"

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, escreveu uma poesia que celebra o momento presente com serenidade e equilíbrio. Influenciado pelo epicurismo e pelo estoicismo greco-latinos, o heterônimo defendia o ideal do "carpe diem": aproveitar o dia porque você é ele, não suas lembranças ou esperanças.

Os versos questionam por que as pessoas fixam o olhar no passado ou no futuro quando a verdadeira segurança está no presente. Também reconhecem que o tempo flui inevitavelmente e que, no mesmo ato em que vivemos, morremos. Essa constatação não gera desespero, mas convida à aceitação tranquila da condição humana.

A visão de Ricardo Reis sobre o presente

Um dos poemas mais conhecidos de Ricardo Reis, publicado em suas "Odes", apresenta dois grupos de pessoas: uns observam o passado e veem o que não existe mais, enquanto outros fixam os olhos no futuro tentando prever o impossível.

O heterônimo questiona essa dispersão da atenção — por que buscar segurança tão longe quando ela está aqui, neste momento que é quem somos.

A mensagem central é clara: colher o dia não significa ignorar a morte ou o futuro, mas reconhecer que apenas o presente oferece realidade tangível e possibilidade de ação genuína. Ricardo Reis procurou atingir a paz sem sofrer desnecessariamente, considerando a vida como uma viagem cujo fluir e fim são inevitáveis.

A formação multifacetada de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888, filho de Joaquim de Seabra Pessoa e Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa. Aos 5 anos, ficou órfão de pai, vítima de tuberculose, e deixou a família em estado de pobreza.

A trajetória de Pessoa foi marcada por perdas significativas desde cedo. Em 1894, com apenas 6 anos, criou seu primeiro heterônimo denominado Chevalier de Pas — o primeiro sinal de sua natureza multifacetada. Em 1895, sua mãe casou-se novamente com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, e a família mudou-se para a África do Sul.

Novas tragédias familiares marcaram sua infância: sua irmã Madalena Henriqueta faleceu em 1901 com apenas 3 anos, e Maria Clara morreu em 1904 com 2 anos. A educação na África — primeiramente num colégio de freiras e depois na Durban High School — moldou sua formação intelectual sob forte influência inglesa.

 

Heteronímia e a renovação literária portuguesa

Pessoa não foi apenas poeta, e também atuou como crítico literário e político, editor, jornalista, publicitário, empresário e astrólogo. A criação de heterônimos — Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares — refletia essa natureza multifacetada: cada personalidade literária tinha estilo, filosofia e temática próprios.

Em 1902, aos 14 anos, a família retornou a Lisboa. Três anos depois, Pessoa matriculou-se no curso de Filosofia da Faculdade de Letras, mas não o concluiu. A partir de 1915, fundou a Revista Orfeu com modernistas portugueses e transformou a publicação em uma plataforma central da literatura modernista.

Sua obra consolidou Fernando Pessoa como um dos maiores poetas portugueses do modernismo e um dos maiores poetas de língua portuguesa.

Como o "carpe diem" de Ricardo Reis funciona na prática poética

A filosofia de Ricardo Reis não é um simples "aproveite tudo sem pensar". Ela se baseia na aceitação consciente de que o tempo flui inevitavelmente e de que vivemos e morremos no mesmo instante. Essa percepção não gera desespero, mas serenidade, e o poeta busca a paz sem sofrer desnecessariamente.

Não se trata de buscar prazer frenético, mas de compreender que a segurança real está apenas no presente, porque passado e futuro são inacessíveis.

Seus versos funcionam questionando por que desperdiçamos o momento atual buscando segurança em tempos que não controlamos. Ao reconhecer essa verdade, Ricardo Reis propõe que a ação genuína e o bem-estar surgem naturalmente de quem aceita estar aqui, agora, sem a ansiedade de tempos distantes.

Por que Ricardo Reis é discípulo de Alberto Caeiro

Ricardo Reis não criou sua filosofia isoladamente, e ele é discípulo de Alberto Caeiro, outro heterônimo de Pessoa considerado o mestre de todos os heterônimos. Caeiro valorizava a simplicidade e ensinava que sentir era mais importante do que pensar, atribuindo o conhecimento à experiência sensorial direta. Essa influência marca Ricardo Reis: enquanto Caeiro buscava conhecimento pelos sentidos.

Reis traduzia essa lição em uma filosofia de vida que valoriza a experiência presente em vez da reflexão abstrata sobre o passado e o futuro.

A relação entre mestre e discípulo explica também por que Ricardo Reis mantém uma linguagem clássica e erudita — sua formação em Medicina e sua educação em colégio de jesuítas contrastam com a simplicidade de Caeiro, mas ambos compartilham a rejeição ao sofrimento desnecessário e à dispersão mental causada por tempos inacessíveis.

Voltando à ativa

7.300 anos depois de uma grande erupção, supervulcão japonês volta a acumular magma

Magma novo continua chegando das profundezas da Terra

27/10/2026 10h39

Imagem: Yasuo Miyabuchi / Smithsonian Global Volcanism Program

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Pesquisadores encontraram uma extensa reserva de magma embaixo da Caldeira Kikai, supervulcão que fica submerso ao sul do Japão, reacendendo o interesse científico pela estrutura.

Os autores do estudo, divulgado na revista Communications Earth & Environment, localizaram esse material parcialmente derretido numa faixa de profundidade que vai de 2,5 a 6 quilômetros, bem mais perto da superfície do que se imaginava. Segundo a equipe, magma novo continua chegando das profundezas da Terra, décadas e milênios depois do evento que esvaziou boa parte do sistema.

O evento que deixou uma marca gigante no leito oceânico

A Caldeira Kikai está submersa nas águas próximas à ilha japonesa de Kyushu, e foi ali que aconteceu, há cerca de 7.300 anos, a erupção Kikai-Akahoya, um dos eventos vulcânicos mais intensos já registrados em tempos geológicos recentes.

Estima-se que entre 133 e 183 quilômetros cúbicos de rocha tenham sido expelidos, cobrindo o céu de cinzas e alterando o clima regional por um período extenso.

Uma explosão dessa escala costuma drenar boa parte do reservatório de magma que sustenta o vulcão por baixo. Quando isso ocorre, o solo acima tende a ceder, dando origem à depressão característica que batiza esse tipo de formação.

No caso de Kikai, porém, a história não parou ali: há aproximadamente 3.900 anos, uma cúpula de lava se formou perto do centro da caldeira. Sinal de que o sistema nunca ficou totalmente inerte.

 

Como o fundo do oceano revelou o magma

Enxergar o que existe sob quilômetros de água e rocha exigiu uma pesquisa sísmica de grande porte. Em uma parceria entre a Universidade de Kobe e a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre. Pesquisadores instalaram 39 sismômetros no leito oceânico para captar ondas geradas por canhões de ar comprimido.

Essas ondas atravessam camadas de rocha e retornam alteradas conforme o tipo de substância que encontram pelo caminho — e rocha parcialmente derretida costuma reduzir a velocidade do sinal de forma perceptível. Foi justamente essa desaceleração que apontou uma zona anômala logo abaixo da caldeira, compatível com um reservatório volumoso de magma entre 2,5 e 6 quilômetros de profundidade.

Nem tudo ali é lava líquida

Segundo as contas da equipe, apenas uma fração entre 3% e 6% dessa região seria formada por material realmente fundido — um teto de 10% é possível, dadas as limitações do modelo usado. Na prática, isso descarta a ideia de uma câmara inteiramente tomada por lava líquida.

Ele pode conter uma mistura de rocha sólida, cristais e material derretido.

Erupção iminente ou vulcão em recuperação?

Mesmo com esse achado, a equipe evita cravar que uma erupção de grande escala esteja prestes a acontecer. O foco da pesquisa está em compreender de que forma o magma se acumula novamente após uma explosão de grandes proporções e o que leva um sistema vulcânico a se recompor ao longo do tempo.

Como o magma novo chega até o reservatório vazio

Depois que uma erupção gigante drena o reservatório de magma, você pode pensar que aquele espaço fica vazio para sempre. Na verdade, as fontes de calor profundas da Terra continuam produzindo material fundido, que segue seu caminho ascendente.

Esse magma novo consegue encontrar o caminho de volta para o reservatório antigo — é o que os pesquisadores chamam de "reinjeção de material fundido".

Em Kikai, as análises químicas mostraram que a lava que se formou há 3.900 anos tem composição diferente da que foi expelida 7.300 anos atrás, provando que esse material novo realmente chegou lá vindo de camadas mais profundas.

Como os cientistas mapearam o magma sob quilômetros de água e rocha

  • Instalaram 39 sismômetros no fundo do oceano para registrar vibrações
  • Usaram canhões de ar comprimido para gerar ondas sonoras que penetram as camadas terrestres
  • Deixaram essas ondas atravessarem a rocha e retornarem alteradas
  • Mediram quanto as ondas desaceleraram no caminho — magma parcialmente derretido as deixa mais lentas
  • Comparararam dados de velocidade para identificar zonas anômalas onde há material fundido
  • Confirmaram a descoberta com análises químicas de estruturas vulcânicas já visíveis, como a cúpula de lava de 3.900 anos

Se há magma acumulando, quando será a próxima grande erupção?

Os pesquisadores não conseguem responder isso com as informações atuais. O processo de acúmulo de magma que eles observaram em Kikai ocorreu ao longo de milhares de anos e é lento. O estudo não estabelece em quanto tempo o sistema acumularia magma suficiente para uma nova erupção gigantesca, nem quando isso poderia ocorrer.

O objetivo dos cientistas agora é entender melhor como esse reabastecimento funciona, para melhorar no futuro a capacidade de reconhecer sinais de atividade vulcânica iminente.

Valorize a si próprio

Virginia Woolf: "Não há necessidade de correr, brilhar ou ser ninguém além de você mesmo"

Texto nasceu da preparação de duas conferências que Woolf proferiu

27/10/2026 10h03

Imagem: George Charles Beresford / Wikimedia Commons

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Virginia Woolf identificou há quase um século um paradoxo que marca a vida contemporânea: a obsessão por alcançar tudo, impressionar os outros e validar a própria importância pelo olhar alheio. Em seu ensaio clássico Uma Habitação Própria, publicado em 1929, a escritora britânica traçou um caminho que desafia a pressa e o teatro social.

O texto nasceu da preparação de duas conferências que Woolf proferiu em residências femininas da Universidade de Cambridge meses antes, em um contexto em que a emancipação acadêmica e profissional das mulheres ainda enfrentava obstáculos institucionais severos. As mulheres só conquistaram graus completos na universidade em 1948.

A pressão de uma época em transformação

Naquele período, não havia espaço para pausa: a Europa se recuperava das consequências da Primeira Guerra Mundial enquanto enfrentava tensões políticas e acompanhava avanços científicos vertiginosos. Woolf conhecia de perto a falta de liberdade e as restrições impostas às autoras de seu tempo, mulheres que precisavam lutar por autonomia econômica e um refúgio pessoal.

Para a autora, dispor de tempo, independência financeira e um espaço próprio não constituía luxo superficial, mas alicerce indispensável para pensar e criar. Manter uma voz autêntica sem se ver forçada a imitar normas ou padrões masculinos estabelecidos era condição para a genuína expressão.

 

A imagem que revela tudo sobre liberdade

Woolf observa que, em um almoço de college masculino, cercado de vinho e conversação, há a tranquilidade de quem não sente necessidade de comprovar nada. Essa observação leva a uma convicção profunda sobre a liberdade pessoal e o risco de transformar a aprovação externa em uma prisão.

A escritora já havia resumido essa preocupação ao afirmar que os olhos dos outros são nossas prisões. Com a mesma clareza, advertiu que a autenticidade exige abandonar a pressa e renunciar à urgência de se destacar.

Recusar a aprovação como ato de criatividade

A máxima de Woolf — "Não há necessidade de correr. Não há necessidade de brilhar. Não há necessidade de ser ninguém além de você mesmo" — resume sua defesa de uma identidade própria, sem submissão a expectativas externas. Suas palavras não pregam abandono das ambições pessoais nem negligência do talento individual.

O que Woolf propõe é não medir o próprio valor pela quantidade de reconhecimento recebido nem pela comparação constante com os outros. Em um período em que a criatividade e o trabalho corriam o risco de se conformar a moldes aceitos, a escritora britânica insistiu que o verdadeiro espaço para criar surge quando cessa a busca pela aprovação social.

Um território mental onde respirar sem máscaras

Essa perspectiva se relaciona diretamente com a necessidade de construir um espaço mental e físico em que seja possível trabalhar, expressar-se e respirar sem interrupções nem disfarces. A liberdade que Woolf defendia não era capricho individual, mas condição concreta para que a criação autêntica florescesse.

Suas reflexões continuam desafiando a cultura de performance, convidando cada leitor a pausar, esquecer critérios externos e reivindicar o direito de ser simplesmente a si mesmo. Quase um século depois, essa lição permanece tão urgente quanto na época em que foi escrita.

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