Ciência

Filhos de pais divorciados têm 41% mais chance de ter uma doença que afeta 11,7 milhões no Brasil

O divórcio em si pode não ser o principal culpado.

Crianças cujos pais se divorciaram apresentam maior risco de desenvolver depressão na vida adulta, mas o divórcio em si pode não ser o principal culpado dessa associação. Um estudo publicado na revista Psychiatry Research com mais de 128 mil adultos dos Estados Unidos mostrou que problemas de saúde mental.

E uso de substâncias no ambiente familiar explicam boa parte dessa relação.

Na análise inicial, adultos que passaram pelo divórcio dos pais antes dos 18 anos tiveram 41% mais chance de relatar depressão ao longo da vida do que aqueles que cresceram com pais casados. A taxa foi de 19,2% no primeiro grupo e de 14,1% no segundo, segundo o estudo.

O contexto familiar importa mais que a separação

A diferença entre os grupos diminuiu quando os pesquisadores levaram em conta outras condições do ambiente familiar. Mais de um em cada cinco filhos de pais divorciados relataram que um dos pais tinha transtorno mental, em comparação com um em cada dez filhos de casais que permaneceram juntos.

Problemas com substâncias também foram mais frequentes: 35% entre filhos de divorciados contra 15% no outro grupo.

Arthur Vaciloto, psicólogo do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, explica que a separação não é irrelevante para os filhos, mas que o ambiente em que ela ocorre faz toda a diferença. Segundo ele, fatores como instabilidade e insegurança afetam mais a saúde mental infantil do que o divórcio propriamente dito.

Como o divórcio é conduzido faz diferença

Em casais que vivem em constante conflito, a separação pode representar alívio para a criança, porque as brigas deixam de acontecer sob o mesmo teto. A separação formal raramente começa naquele momento: geralmente é a formalização de uma dinâmica que vinha piorando havia algum tempo.

Quando os pais mantêm discussões frequentes, permanecer juntos não protege necessariamente a criança. A exposição constante aos conflitos aumenta o estresse e ensina padrões inadequados de lidar com problemas. Vaciloto alerta que as crianças podem normalizar a violência verbal ou física ao observá-la repetidamente nas figuras de referência, reproduzindo depois esses comportamentos na escola e em outros contextos.

Impacto varia conforme a idade

O efeito da separação depende da fase do desenvolvimento da criança e de sua capacidade de compreender o que acontece. Crianças menores podem apresentar irritabilidade e regressão de comportamentos já superados. Em outras idades, são comuns ansiedade de separação e mudanças de conduta.

A depressão afeta aproximadamente 11,7 milhões de brasileiros, representando 5,8% da população. A forma como os responsáveis conduzem a separação e lidam com conflitos pode ajudar a proteger os filhos dos impactos emocionais mais severos durante essa transição.

Ciência

Trincheiras misteriosas na Austrália podem revelar onde estão escondidas as cavernas de Marte

Elas se formaram quando cavernas profundas colapsaram lentamente.

05/10/2026 17h28

Foto: WikiImages/Pixabay

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Sulcos rasos atravessando o árido planalto de Nullarbor, na Austrália, parecem ser antigos leitos de rios — mas revelam uma história muito diferente sob a superfície. Essas trincheiras se formaram quando cavernas profundas colapsaram lentamente, e o colapso progrediu até alcançar o solo acima, deixando marcas que ajudam geólogos a identificar cavernas enterradas mesmo em planetas distantes.

A descoberta oferece pistas para detectar cavernas escondidas a partir de depressões tão rasas que passam despercebidas, tanto na Terra quanto potencialmente em Marte.

Matej Lipar liderou o trabalho como pesquisador adjunto na Curtin University e agora trabalha no Instituto Geográfico Anton Melik, em Ljubljana, na Eslovênia.

Ele e a equipe mapearam cinco trincheiras ao longo da borda leste do Nullarbor e encontraram padrões que desafiam as explicações tradicionais e abrem novos caminhos para a exploração planetária.

Um planalto seco e suas depressões

O Nullarbor é uma placa de calcário que cobre mais de 200 mil quilômetros quadrados na costa sul australiana. Há mais de 14 milhões de anos permanece como terra seca, sem glaciares e quase sem cursos d'água permanentes.

As cinco trincheiras estudadas variam de alguns quilômetros até mais de 12 quilômetros de comprimento, com largura predominante entre 100 e 500 metros. A profundidade é modesta — em geral, menos de 9 metros, comparável à altura de um edifício de três andares —, embora algumas tenham quase cinco campos de futebol de largura.

A extensão do planalto, quase toda plana, torna essas depressões fáceis de ignorar, até que modelos digitais exagerados revelam sua presença.

Descartando explicações óbvias

Vales criados por rios apresentam afluentes laterais e carregam areia e lama encosta abaixo. As trincheiras do Nullarbor violam esse padrão: começam e terminam abruptamente, sem nenhum canal lateral alimentando-as, e não se conectam a nenhum sistema de drenagem interior.

Areia cobre o solo de seus fundos, enquanto silte e argila aumentam em profundidade, mas sem os depósitos de sedimento que um rio em movimento deixaria para trás.

Também não foram criadas por falhas geológicas: movimentos de falha deixam um lado do terreno mais elevado que o outro, o que não ocorre aqui. As trincheiras, porém, correm aproximadamente paralelas às falhas regionais. Lipar informou ao Earth que, da superfície, essas feições podem parecer vales rasos ou canais de drenagem, mas as evidências mostram uma origem muito diferente.

Modelos digitais exagerados do terreno tornaram as trincheiras muito mais fáceis de ver e identificar, e esse paralelismo reforça a conexão subterrânea.

Análises feitas com corrente elétrica enviada pelo solo confirmaram zonas de alta condutividade abaixo de cada trincheira, a profundidades de 30 a 70 metros. O resultado indica a presença de sedimento e rocha fraturada em contraste com o calcário sólido ao redor.

Cavernas colapsadas como prova

Registros da Federação Australiana de Espeleologia mostraram que várias trincheiras se alinham com cavernas conhecidas do Nullarbor. A trincheira de Abrakurrie, a oeste, é uma corrente quebrada de dolinas formadas onde tetos de cavernas desabaram. Koonalda Cave se estende por mais de um quilômetro subterrâneo ao norte da trincheira de Koonalda.

A evidência mais clara vem da Caverna Clay Dam: dentro da Trincheira de Koonalda, um colapso expõe camadas de rocha que descem em curvatura. E um preenchimento arenoso — a assinatura visual de uma caverna que cedeu lentamente aos efeitos do tempo. Esses achados mostram que as trincheiras rasas podem revelar estruturas ocultas na Terra e em outros planetas.

Filosofia

Schopenhauer: "A solidão mais dolorosa é ter alguém ao lado e ainda se sentir sozinho"

Há quem aproveite bem o tempo a sós.

05/10/2026 17h03

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Nem sempre ficar sem companhia e se sentir solitário caminham juntos: há quem aproveite bem o tempo a sós, enquanto outros convivem diariamente com um parceiro, dividindo casa, cama e rotina, e ainda assim carregam uma sensação intensa de isolamento.

Essa segunda forma de solidão pode ser especialmente dolorosa porque o que deveria oferecer acolhimento acaba reforçando a falta de conexão entre duas pessoas que compartilham o mesmo espaço físico.

A solidão invisível dentro do relacionamento

Um casal que divide o teto, a cama e aparece sorrindo em fotos costuma passar a impressão de proximidade, mas quem olha de fora dificilmente enxerga o afastamento afetivo que pode existir entre os dois. A proximidade geográfica não cria necessariamente intimidade afetiva.

Fazer as refeições juntos ou viajar com frequência não impede que essa distância emocional exista. Frequentar as mesmas festas também não garante que as duas pessoas continuem trocando o que de fato importa, e aos poucos pode surgir a sensação de contar uma preocupação sem encontrar escuta. Celebrar uma vitória pessoal e encontrar indiferença ou tentar explicar uma dor e receber silêncio em resposta.

Quando a presença física mascara a distância emocional

Essa forma de solidão dói de maneira particular porque envolve uma expectativa frustrada. Quando estamos fisicamente sós, reconhecemos que ninguém está ali para oferecer acolhimento. Mas, quando uma pessoa está presente e ainda assim nos sentimos desamparados, a presença física torna mais evidente aquilo que falta no plano emocional.

A experiência não significa, porém, que o relacionamento tenha chegado ao fim. Nenhuma pessoa consegue atender completamente todas as necessidades emocionais de outra, e casais naturalmente atravessam períodos de cansaço, dificuldades na comunicação e preocupações externas. Um momento isolado de solidão não define, por si só, a qualidade de uma relação.

O ponto de virada: quando a solidão vira rotina

O alerta aparece quando essa solidão deixa de ser um episódio ocasional e se transforma em padrão. Quando conversar parece inútil, a vulnerabilidade desaparece e os dois deixam de buscar um ao outro para dividir medos. Alegrias e incertezas, a presença física pode começar a esconder uma distância emocional cada vez maior.

Uma questão incômoda emerge dessa reflexão: o medo de ficar sozinho pode manter alguém preso justamente em uma relação na qual já se sente sozinho. Terminar assusta porque parece significar perder companhia, ainda que essa companhia tenha deixado de produzir pertencimento há muito tempo.

Solitude escolhida versus solidão imposta

Existe diferença significativa entre escolher momentos de solitude — tempo dedicado à própria companhia que traz autonomia e tranquilidade — e experimentar solidão emocional diante de alguém. Aprender a apreciar sua própria presença pode libertar; sentir-se invisível ao lado de um parceiro produz vazio de outra natureza.

A reflexão inspirada em Schopenhauer — embora seja frequentemente atribuída a ele de forma imprecisa — sugere que relacionamentos significativos exigem mais que proximidade física. Esse pode ser o motivo pelo qual, ao encerrar certos relacionamentos, algumas pessoas percebem algo que parece não fazer sentido à primeira vista: viver sem companhia passou a significar sentir menos solidão do que antes.

A solidão mais difícil de suportar nem sempre vem de uma casa sem ninguém dentro. Em muitos casos, ela aparece justamente quando há alguém por perto, mas a pessoa percebe, repetidas vezes, que segue em busca de alguém com quem de fato consiga se conectar.

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