Política

ENTREVISTA

"A IA não deve ser vista só como problema, mas como ferramenta da Justiça Eleitoral"

O vice-presidente e corregedor regional eleitoral do TRE-MS defende o uso da tecnologia para identificar conteúdos manipulados e reforçar a segurança das eleições deste ano

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Um dos marcos da preparação da Justiça Eleitoral para as eleições deste ano foi a realização, em Campo Grande, do 59º Encontro do Colégio de Corregedoras e Corregedores Regionais Eleitorais do Brasil (Ccorelb), que reuniu representantes dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de todo o País para discutir a padronização de procedimentos, o combate à desinformação, o uso da inteligência artificial (IA), a fiscalização da propaganda eleitoral e o fortalecimento da segurança jurídica.

Nesta entrevista exclusiva ao Correio do Estado, o desembargador Sérgio Fernandes Martins, vice-presidente e corregedor regional eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS), faz um balanço das principais decisões do encontro, analisa os desafios que marcarão a disputa eleitoral deste ano e detalha como a Justiça Eleitoral está se preparando para enfrentar questões como deepfakes, irregularidades nas plataformas digitais e a necessidade de uniformizar a atuação das corregedorias em todo o Brasil. 

Quais foram as principais conclusões do 59º Ccorelb e que mudanças práticas devem ser implementadas já nas eleições?

O principal resultado do encontro foi a uniformização de procedimentos nas corregedorias eleitorais de todo o País. Alinhamentos que serão repassados para as zonas eleitorais e terão reflexos positivos para os eleitores.

A segurança do voto, o conforto dos eleitores e a segurança do sistema eleitoral são temas revisitados em todo o ano eleitoral, e é isso que foi feito em Campo Grande.

Quais são hoje as maiores preocupações da Justiça Eleitoral em relação ao processo eleitoral deste ano?

A preocupação de hoje e de sempre é de assegurar que o processo eleitoral transcorra com tranquilidade, transparência e igualdade de condições para todos os participantes, o que envolve desde a correta aplicação da legislação eleitoral até o enfrentamento de desafios contemporâneos, como a desinformação, o uso inadequado de novas tecnologias e a rápida disseminação de conteúdos nas plataformas digitais.

Assim, buscou-se fortalecer a atuação preventiva das corregedorias, orientando magistrados, partidos, candidatos e demais atores envolvidos, tudo para que as regras sejam observadas desde o início do processo eleitoral.

Como a Justiça Eleitoral pretende enfrentar o uso de conteúdos manipulados, como deepfakes, e garantir a lisura da campanha?

A inteligência artificial não deve ser vista só como problema, mas como ferramenta da Justiça Eleitoral. No Ccorelb, reforçou-se a necessidade de constante atualização da Justiça Eleitoral e da possibilidade de aplicação da inteligência artificial para enfrentar e localizar conteúdos manipulados.

Aliás, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral [TSE], ministro Kassio Nunes Marques, em recente declaração afirmou que é lítica a utilização da inteligência artificial em campanhas eleitorais, o problema é quando empregada para prejudicar candidatos.

A legislação e as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral são rígidas quanto ao combate à desinformação, e a verdade é algo que deve sempre ser buscado.

O presidente do TSE defende mais transparência nas pesquisas eleitorais. Esse tema foi debatido durante o encontro? Qual é a avaliação das corregedorias sobre essa proposta?

O foco do Ccorelb esteve voltado principalmente às atribuições das corregedorias regionais e ao planejamento das eleições 2026.

As discussões concentraram-se em temas relacionados à fiscalização, à gestão das zonas eleitorais, à propaganda eleitoral, à inteligência artificial e à uniformização de procedimentos.

As eventuais alterações relativas às pesquisas eleitorais são matérias que competem ao Tribunal Superior Eleitoral e serão conduzidas nas cortes, sempre observando a legislação vigente e os princípios da transparência e da segurança jurídica.

A Justiça Eleitoral está preparada para fiscalizar irregularidades nesse ambiente digital?

A Justiça Eleitoral vem se preparando continuamente para acompanhar a evolução do ambiente digital. Hoje, a propaganda eleitoral ocorre em múltiplas plataformas, o que exige atualização constante dos órgãos responsáveis pela fiscalização.

O trabalho envolve capacitação, aperfeiçoamento de procedimentos e atuação integrada entre os tribunais.

Naturalmente, trata-se de um ambiente dinâmico, mas a Justiça Eleitoral tem buscado desenvolver mecanismos cada vez mais eficientes para coibir irregularidades, sempre respeitando os limites legais e constitucionais.

Em quais áreas ainda existem diferenças de entendimento que precisam ser harmonizadas nos TREs?

Apesar das realidades e demandas específicas de cada região do Brasil, é necessário que em alguns pontos não haja diferença de atuação do Judiciário eleitoral. Exemplo é o local de votação.

Quantas pessoas podem estar no local de votação, o número de fiscais e a orientação ao eleitor no momento de votar são pontos que devem ser iguais em todo território nacional.

Lembremos, as discussões envolveram aspectos relacionados à gestão das zonas eleitorais, à atuação das corregedorias, à fiscalização da propaganda eleitoral e aos procedimentos administrativos.

As diferenças que existem dizem respeito mais à logística da eleição, transporte por barcos na região amazônica, por exemplo, do que à atuação preventiva e repressiva.

O objetivo não é eliminar as particularidades locais, mas assegurar que os princípios e as diretrizes nacionais sejam aplicados de maneira uniforme, proporcionando maior segurança jurídica.

O TRE-MS já trabalha com alguma estratégia específica para reforçar a fiscalização no Estado?

O TRE-MS já iniciou seu planejamento para as eleições gerais de 2026. Nosso foco é garantir uma estrutura preparada para atender às demandas do processo eleitoral, oferecendo suporte às zonas eleitorais e fortalecendo as ações de orientação e fiscalização.

Ter maior ou menor disputa política não é um problema para a Justiça Eleitoral, essa é uma questão social em que aos tribunais cabe somente garantir que os candidatos possam concorrer e difundir suas ideias e os cidadãos possam livremente escolher em quem votar.

Como esse intercâmbio de experiências entre os estados contribui para tornar as eleições mais seguras e eficientes?

O intercâmbio sobre as ações de investigação judicial eleitoral [Aijes] ocorreu de forma massiva e talvez tenha sido um dos maiores ganhos do encontro.

Estas demandas são de relatoria natural dos corregedores nas eleições estaduais e têm grande impacto no pleito, como o que ocorreu aqui, em Mato Grosso do Sul, há algumas semanas, em que se alterou o titular de uma das cadeiras da Assembleia Legislativa.

A mais, cada Corregedoria enfrenta desafios específicos e desenvolve soluções que podem ser compartilhadas com as demais.

Exemplificando: determinada comunidade no Pará teve dificuldades em levar as urnas até o eleitor, verifica-se como questão semelhante foi resolvida no Pantanal e aplica-se a solução na Região Norte do País.

Um partido político apresentou número maior de delegados partidários que o permitido, fato que foi constatado por um Tribunal Regional, sendo a solução repassada para as demais regionais.

Sistema de cadastro de eleitores identificou pessoas que tentaram fazer o registro como eleitor em mais de um município, como deverá o chefe do Cartório Eleitoral atuar quando estiver diante de tal situação.

Que orientação o senhor daria aos eleitores para identificar informações falsas na campanha?

A principal orientação é que o eleitor sempre verifique a origem da informação antes de compartilhá-la. É importante buscar fontes oficiais, conferir se a notícia está publicada em veículos confiáveis e desconfiar de conteúdos que despertem emoções muito intensas ou que não apresentem comprovação.

Cada cidadão exerce um papel importante na preservação da integridade do processo eleitoral. O compartilhamento responsável de informações contribui para um ambiente democrático mais saudável.

Qual mensagem o senhor deixa aos candidatos, partidos políticos e eleitores sobre o papel da Justiça Eleitoral na condução das eleições?

A Justiça Eleitoral é um exemplo de independência, imparcialidade e compromisso com a Constituição. Nosso objetivo é assegurar que todos os participantes tenham igualdade de condições e que a vontade do eleitor seja livremente manifestada nas urnas.

A candidatos e partidos, reforço a importância do cumprimento das regras que disciplinam o processo eleitoral. Aos eleitores, deixo a mensagem de que participem de forma consciente, busquem informações em fontes confiáveis e exerçam seu direito ao voto com responsabilidade.

O fortalecimento da democracia é uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade, e a Justiça Eleitoral permanecerá vigilante para garantir eleições seguras, transparentes e legítimas.

Por fim, gostaria de deixar um lembrete para os eleitores.

No dia da eleição não é possível levar o aparelho celular para a frente da urna, evitando que se tire foto, garantindo o direito à inviolabilidade do voto. Assim, como teremos seis cargos para preencher, levem suas “colinhas” de forma escrita em um papel, pois é muito difícil lembrar de cabeça o número de todos os candidatos.

{Perfil}

Sérgio Martins

Desembargador do TJMS, escritor e articulista, é formado em Direito pela UFRJ, mestre em Direito e Economia, doutorando em Filosofia do Direito e História da Cultura Jurídica pela Universidade de Gênova e também cursou Jornalismo.

Foi advogado por mais de duas décadas, professor universitário por 19 anos e vereador por Campo Grande. No Judiciário, foi corregedor do TJMS, presidente da Corte e atualmente é vice-presidente e corregedor regional eleitoral do TRE-MS.

Eleições 2026

Eleitor tem até 3 de outubro para ativar e-Título antes das eleições

Aplicativo permite consultar local de votação e pode ser usado para identificação, mas primeiro acesso

21/09/2026 17h00

Antônio Cruz/Agência Brasil

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Quem pretende utilizar o e-Título nas Eleições 2026 precisa concluir o primeiro acesso e a validação do aplicativo até sábado (3), véspera do primeiro turno, marcado para domingo (4). A orientação é especialmente importante para quem ainda não acessou o aplicativo, já que o download e o primeiro acesso ficam indisponíveis no dia da votação.

Segundo o advogado especialista em Direito Eleitoral Newton Lins, o eleitor deve verificar antecipadamente se o aplicativo está funcionando e se os dados estão atualizados para evitar problemas no dia da eleição.

“O eleitor precisa entender que baixar o e-Título não significa que ele já estará pronto para ser utilizado. É necessário fazer o primeiro acesso e concluir a validação das informações. Deixar esse procedimento para o dia da eleição pode gerar uma dificuldade desnecessária justamente no momento em que o eleitor precisa estar com sua documentação regularizada”, afirma.

O e-Título também permite consultar o local de votação, a zona e a seção eleitoral. O serviço pode ser acessado pelo aplicativo e pelo Portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A ferramenta pode ser utilizado como documento de identificação no momento da votação quando o aplicativo apresenta a fotografia do eleitor. Nesse caso, basta apresentar a tela do celular ou tablet com o documento digital.

Já quem possui e-Título sem fotografia precisa levar também um documento oficial de identificação com foto. Capturas de tela não substituem o aplicativo como documento de identificação.

Newton Lins orienta que essa conferência seja feita antes da eleição. “O uso do e-Título traz praticidade, mas também exige atenção às condições estabelecidas pela Justiça Eleitoral. O eleitor deve conferir previamente se a fotografia aparece no aplicativo e se os dados estão corretos. Caso não haja fotografia, é necessário levar um documento oficial com foto. O print também não substitui o aplicativo”, explica.

Além da identificação, o aplicativo reúne outros serviços eleitorais e permite consultar informações relacionadas à votação. A ferramenta utiliza mecanismos de segurança para validar a identidade do eleitor, incluindo recursos de validação facial.

Para o especialista, a conferência antecipada também deve incluir outras informações necessárias para o dia da votação. “A tecnologia facilita o acesso do cidadão aos serviços eleitorais, mas não elimina a necessidade de planejamento. Conferir o aplicativo, o local de votação e a documentação antes da eleição é uma forma de evitar imprevistos no dia do voto”, afirma.

O e-Título é gratuito e está disponível para celulares e tablets com sistemas Android e iOS. Para quem pretende utilizar a versão digital do título no primeiro turno, a recomendação é fazer o download, o primeiro acesso e a validação até 3 de outubro.

Manipulação de imagem

Justiça Eleitoral multa deputado por usar vídeo de 2018 com Bolsonaro como se fosse atual

Luiz Ovando (PP) distorceu gravação antiga para simular apoio recente do ex-presidente e foi condenado a pagar R$ 5 mil pelo TRE-MS

21/09/2026 14h58

Luiz Ovando (PP) foi multado pela Justiça Eleitoral

Luiz Ovando (PP) foi multado pela Justiça Eleitoral Reprodução

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O deputado federal Luiz Ovando (PP), candidato à reeleição, foi multado pela Justiça Eleitoral por tentar induzir o eleitor a erro, por meio de um vídeo de 2018, com o ex-presidente Jair Bolsonaro, veiculado como se fosse atual.

A condenação pela distorção foi proferida pelo relator do processo no Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS), desembargador Luiz Tadeu Barbosa Silva, ao julgar procedente a representação ajuizada pela Procuradoria Regional Eleitoral no estado. Com a decisão, o parlamentar foi condenado ao pagamento de multa no valor de R$ 5 mil.

Reedição e descontextualização temporal

A infração envolveu o impulsionamento pago de um vídeo gravado originalmente durante a campanha de 2018, no qual Jair Bolsonaro manifestava apoio político a Luiz Ovando. Para o pleito de 2026, a peça foi reeditada com a inserção do novo número de candidatura (1122), a sigla do seu atual partido (PP) e a legenda “ELEIÇÃO 2026”, sem apresentar nenhum aviso claro ou ostensivo sobre o ano original do registro.

De acordo com o TRE-MS, a alteração dos elementos visuais criou uma “grave descontextualização temporal”, levando o eleitor médio ao engano de supor que a declaração e o pedido de voto haviam sido renovados para a disputa eleitoral recente.

A decisão ressaltou ainda o descolamento da realidade provocado pela propaganda impulsionada. 
Jair Bolsonaro foi condenado em 2025 por tentativa de golpe de Estado e cumpre prisão domiciliar, estando sob proibição judicial expressa de utilizar redes sociais. 

Assim, a exibição do vídeo reformatado em 2026 gerava no eleitorado a falsa impressão de se tratar de uma manifestação recente e consentida, situação incompatível com as restrições impostas ao ex-presidente.

Argumentos da defesa e posicionamento do Tribunal

Em sua defesa, o deputado alegou que o registro continha uma declaração autêntica de apoio, sem alteração de áudio ou uso de “deepfake”. 

Luiz Ovando argumentou que as modificações nos elementos visuais serviram apenas para cumprir a obrigação legal de identificar o anunciante e a legenda atual, substituindo dados desatualizados do antigo partido (PSL).

O tribunal, contudo, rejeitou a tese defensiva. O relator fixou o entendimento de que o dever de identificar a candidatura responsável não autoriza a manipulação de mídia histórica sem esclarecer sua origem temporal ao público. 

A distorção configurou infração ao artigo 9º-C da Resolução TSE nº 23.610/2019, que proíbe o uso de conteúdos manipulados ou descontextualizados na propaganda eleitoral.

Ao aplicar a sanção prevista na Lei das Eleições, o relator ponderou que o investimento financeiro para impulsionar e distribuir conteúdo descontextualizado agrava o potencial lesivo ao pleito.

Contudo, considerando que o deputado não possuía reincidência e demonstrou postura colaborativa ao cumprir a ordem judicial de remoção do vídeo em menos de 24 horas, a multa foi estabelecida no patamar mínimo legal de R$ 5 mil.

Outro lado

O deputado federal, por sua vez, reclamou da decisão, por meio de sua assessoria de imprensa. Ele desprezou a justificativa da Justiça Eleitoral classificou como “censura” a decisão de desembargador. 

“História não se apaga. Eu apoio Jair Bolsonaro desde 2018. Esse apoio não foi inventado agora e não nasceu por causa de uma eleição. O vídeo é verdadeiro, o apoio existiu e faz parte da minha história. Mandar retirar essa imagem não muda os fatos. Na minha avaliação, isso é censura”, afirmou Dr. Luiz Ovando.

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