Financiada em parte com dinheiro que sai dos cofres das prefeituras, a Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul (Assomasul) contabilizou R$ 596.612,77 em despesas com restaurantes, viagens e representações entre janeiro e junho de 2026.
Os gastos representam uma média de R$ 99,4 mil por mês e não incluem as passagens da Marcha a Brasília nem os custos com veículos, registrados separadamente.
Somente quatro restaurantes e churrascarias receberam R$ 159.082,24 no período, o equivalente a R$ 26,5 mil mensais. Outros R$ 437.530,53 foram lançados na rubrica de viagens e representações, dos quais R$ 424.537,77 correspondem a passagens aéreas.
No mesmo semestre, as prefeituras associadas repassaram R$ 3.623.696,60 à entidade. As contribuições municipais responderam por aproximadamente 32% da receita, que também é formada por convênios com instituições como Itaipu Binacional, governo estadual, Sanesul e Confederação Nacional de Municípios (CNM), além de patrocínios de eventos.
Os repasses das prefeituras vinculam o dinheiro do contribuinte ao financiamento da associação. Os balancetes, porém, não detalham quais reuniões e eventos justificaram cada despesa com restaurantes.
A conta aumenta quando são considerados os lançamentos separados. As passagens da Marcha a Brasília somaram R$ 174.201,41, enquanto locação, combustível, manutenção e garagem de veículos custaram R$ 125.812,66.
Juntas, essas despesas e os gastos com restaurantes, viagens e representações alcançam R$ 896.626,84 nos seis meses.
Entre os estabelecimentos de alimentação, o maior valor foi destinado à Irmãos Saad Ltda., responsável pela Manura Churrascaria Árabe: R$ 59.652,02. A Churrascaria e Pizzaria Bezerro de Ouro aparece com R$ 57.205,70.
A BSB Comércio de Carnes Nobres e Churrascaria faturou R$ 32.255,87, e a S R de Lima Churrascaria Eireli, identificada como Churrascaria Zitão, outros R$ 9.968,65.

Outro lado
Procurada pela reportagem, a Assomasul afirmou que recebe prefeitos, vice-prefeitos e secretários em Campo Grande para reuniões sobre saúde, educação, repasses e convênios.
A entidade sustenta que os encontros também aproximam os gestores de parlamentares e de representantes dos governos estadual e federal.
A associação informou que os gastos integram suas atividades institucionais e estão na prestação de contas aprovada pela Assembleia Geral.
Nas viagens, além dos bilhetes aéreos, foram registrados R$ 10.161,23 em hospedagem e viagens, R$ 2.019,60 em combustíveis e R$ 811,93 em refeições.
A agência Morentes Tur concentrou a maior parte do faturamento das passagens. Os registros em nome da empresa somaram R$ 554.286,18 no semestre, incluindo os R$ 174.201,41 da Marcha a Brasília, lançados entre abril e junho.
A Assomasul explicou ainda que uma resolução interna garante a cada município filiado uma cota anual de passagens para Brasília.
De acordo com a entidade, os bilhetes são utilizados exclusivamente em compromissos em ministérios, órgãos federais e com a bancada parlamentar.
O argumento da associação é que a medida facilita o acesso das cidades menores às fontes de recursos. A entidade, entretanto, não apresentou a lista de beneficiários, o extrato das viagens nem os valores obtidos pelos municípios a partir dessas agendas.
Na estrutura de transporte, a locação de veículos consumiu R$ 91.986,27, pagos à Jeed Locadora em parcelas mensais entre R$ 14,3 mil e R$ 18,5 mil. Combustíveis e lubrificantes custaram R$ 22.529,28; manutenção, R$ 9.278,25; e garagem, R$ 2.018,86.
A associação afirmou que mantém veículos em Campo Grande e Brasília para atender prefeitos e gestores em agendas institucionais, mediante agendamento. A justificativa é que o serviço evita que cada prefeitura arque individualmente com esses deslocamentos.
O maior fornecedor do semestre, considerando o conjunto das despesas da entidade, foi o Instituto de Ensino Polis Civitas, com R$ 6.055.076,86 vinculados aos programas de capacitação Itaipu 4.0 e GovMS 4.0.
Os programas aparecem na contabilidade com receitas de convênios de R$ 2,45 milhões e R$ 4 milhões, respectivamente, e despesas integrais nos mesmos valores. A Assomasul informou que as formações são gratuitas e oferecidas aos 79 municípios, em parceria com a Itaipu Binacional e o governo estadual.
Conforme a entidade, 7.194 servidores matriculados participaram das formações no primeiro ano, em cursos de pós-graduação e técnicos de Administração Pública Municipal. A manifestação não relacionou os municípios atendidos.
Ao todo, a associação teve receita de R$ 11.173.512,66 e despesa de R$ 10.670.506,64 no primeiro semestre, com superávit de R$ 503.006,02.
Os balancetes de julho, agosto e setembro não estavam disponíveis no momento do levantamento. A Assomasul informou que divulga os documentos trimestralmente, após o fechamento contábil, e que os dados daquele período estavam em fase final de consolidação.
O Correio do Estado também procurou nesta quarta-feira (4) o presidente da Assomasul, Thalles Tomazelli (PL), que é prefeito de Itaquiraí, para ouvi-lo sobre os gastos e apresentar sua versão, porém, ele preferiu não comentar até o fechamento desta reportagem, mantendo apenas a versão oficial divulgada pela entidade.


