Se já não bastasse a dor de perder uma mãe aos 55 anos, o publicitário André Luiz Pereira, de 32, e toda a família vivem neste sábado (14) a revolta de um atendimento público mal prestado que, na visão de parentes, pode ter contribuído para a morte de Alda Pereira, na noite de ontem.
Alda tinha 55 anos e desde os 18 convivia com a esquizofrenia, doença que ela tratava regularmente e a possibilitava a ter uma vida normal. Ela trabalhou como auxiliar de serviços gerais e teve três filhos. Alda deixou mais dois além de André, um com 28 anos e outro adolescente, de 16 anos. Estes dois moravam com Alda.
André é o porta-voz da família neste momento de dor e foi quem encontrou a mãe praticamente morta em uma sala de observação do Centro Regional de Saúde (CRS) do bairro Guanandi, na tarde de sexta-feira.
Depois da reportagem publicada pelo Portal Correio do Estado na tarde deste sábado com base em dados do boletim de ocorrência, André ligou na redação para reforçar que a história contada na matéria tem traços ainda mais revoltantes.
Confira abaixo o relato feito por André, que enquanto contava cada detalhe das últimas horas por telefone, interrompia a ligação para agradecer aos amigos e parentes que foram se despedir de Alda. O relato abaixo foi feito de um velório, aquele que André jamais esperava ter de participar, o de sua própria mãe:
“Nas últimas três semanas ela estava com muita sonolência, levamos ela no posto do Guanandi e o médico falou para levar ela no psiquiatra porque poderia ser algum dos remédios que ela toma. Ela foi no especialista e o médico mandou tirar um dos remédios. Ela continuou com muita sonolência e de tanto passar por isso, começou a ter muito inchaço nas pernas e começou a apresentar mais crises da esquizofrenia. Ontem de manhã meu irmão resolveu levar ela no posto de novo, por volta das 9 horas. Ela foi internada e ele ficou com ela até às 10h30. Ele saiu e voltou ao meio-dia, quando deu almoço para ela e foi embora por volta das 14 horas. Eu cheguei lá por volta das 18 horas e encontrei minha mãe gelada, deitada em uma maca na sala de observação sem ninguém perto. Eu vi que ela mal respirava, mas achei que estivesse em um sono profundo. Resolvi chamar a enfermeira e ela riu de mim porque eu disse que minha mãe não estava respirando. Ela me respondeu que se ela não estivesse respirando, deveria estar morta. Ela acabou indo ver minha mãe e se desesperou quando viu que ela estava sem pulso. Toda a equipe médica foi chamada e levaram minha mãe para a emergência. Naquele momento eu já pressentia que minha mãe tinha morrido. Eu saí da sala e fui atrás da assistente social para denunciar o descaso com que trataram minha mãe, mas tinha outra pessoa na sala e a assistente pediu para eu esperar. Enquanto isso, um médico apareceu e eu perguntei para ele se sabia de uma paciente chamada Alda, ele perguntou se era aquela que o coração tinha parado. Eu assustei, e ele falou que minha mãe estava sendo reanimada, ali eu tive a certeza que ela não voltaria. Eu contei para o médico que a enfermeira tinha rido da minha cara e ele falou que isso acontece. Passou um pouco de tempo e a assistente social, acompanhada de outras pessoas, me chamou e disse que minha mãe tinha morrido. Nessa hora eu falei para todos que eles deveriam pensar duas vezes antes de entrar nessa área. Uma área em que a pessoa tem que ter um trabalho psicológico e gostar de cuidar de pessoas. Foi uma coisa de outro planeta, acho que nem um bicho deveria ser tratado assim”.