Todo início de ano, a maioria das famílias se vê às voltas com a escolha da instituição educacional para os filhos. E eles sabem que para uma decisão desta importância é preciso levar em conta muitos fatores. Para colaborar na diminuição das dúvidas destes pais, entrevistamos a diretora pedagógica Silvia Tavares Farina, de Campo Grande, que fala sobre temas como idade escolar, métodos de ensino existentes, mudança de escola e adaptação, ensino em tempo integral e, claro, o uso da tecnologia diária como ferramenta pedagógica.
CORREIO PERGUNTA –Qual é a idade certa para matricular a criança na escola?
SILVIA TAVARES FARINA – Eu me arrisco a dizer que não existe uma idade certa e, sim, a família encontrar uma escola que transmita segurança, confiança, conforto e uma proposta pedagógica que vá ao encontro de suas necessidades e crenças. Está posto na sociedade o espaço da mulher no mercado de trabalho, uma luta que nos custou séculos, que ainda não está concluída e, com certeza, nunca estará, pois tudo muda o tempo todo. Portanto, cabe à família tomar a decisão da escola que mais próxima estiver daquilo que ela elenca como prioridade para os cuidados e a educação da criança/filho(a). Observando tudo isso, acrescido à questão financeira, o trajeto que terão de percorrer e tantas outras questões que se farão presentes na escolha. É valido lembrar que, a partir daí, a dica é: participar das reuniões propostas pela instituição, manter diálogo frequente com a escola, conhecer os combinados para o bom relacionamento família/escola e, acima de tudo, transmitir para a criança a segurança necessária em relação à escolha feita.
A partir da escolha, a criança criará vínculos e passará a gostar do espaço, sentindo-se bem ali, pois nos primeiros anos de vida o afeto e a atenção são imprescindíveis para o desenvolvimento da criança.
Quais são os principais métodos de ensino? Como escolher o melhor para a criança?
Para responder à primeira pergunta da entrevista, fiz questão de registrar a importância de a família procurar conhecer a proposta pedagógica da instituição, para, a partir daí, refletir, analisar e observar se a mesma vai ao encontro de suas necessidades e crenças. Os pais conhecem os seus filhos e, quando conhecem como a escola trabalha, já conseguem imaginar se eles ficarão ou não felizes na instituição. Digo isso, porque escolher uma metodologia de ensino não é uma tarefa simples, pois precisa haver sintonia entre os envolvidos no processo diário. Até a década de 80, muito pouco se falava em relação às escolhas de métodos (não que eu me lembre). A partir dessa época, novas perspectivas vão sendo descortinadas e surgem “novidades” para a escolha do método adotado pela escola.
Não tenho como dizer sobre os principais métodos, tendo em vista que a escolha do método pela escola é feita a partir da sua missão e da sua visão de mundo. Como sugestão, além de pesquisar o projeto pedagógico, devem observar se tais conceitos expostos na proposta estão explícitos nas atividades, nos eventos propostos. Procurando cruzar todas essas informações, a probabilidade de uma decisão de sucesso é praticamente certa.
Mas posso dizer que diversas escolas, hoje, baseiam-se na teoria interacionista, por ser, na opinião de muitos estudiosos, a que mais se ajusta à realidade/perfil da criança do século 21. A abordagem do ensino é pautada no desenvolvimento social, o aprendizado acontece pela compreensão do ser humano em contato com a sociedade. Os alunos são motivados a realizar trabalhos em grupo e o desenvolvimento é, acima de tudo, focado na linguagem, raciocíno-lógico, situações-problema, etc. A tendência é o aluno colocar a “mão na massa”. Não devemos nos esquecer das escolas conteudistas, que se preocupam com os conteúdos, sem às vezes dar a devida importância à individualidade do aluno ou ao desenvolvimento do raciocínio lógico. São aquelas instituições que preparam o aluno desde cedo para seguir regras rígidas e se preparar para o tão “sonhado” vestibular/ Enem.
Como preparar a criança ou o jovem (adolescente) para a mudança de escola?
É inegável que o desconhecido gera medo ou insegurança, mas a mudança pode ser um rico momento para novas oportunidades – sendo trabalhada por meio do diálogo, tudo vai se resolvendo. O que não auxilia é a família ficar demonstrando excesso de fragilidade e insegurança para a criança ou adolescente, em relação à mudança prevista. Na escola, são criados vínculos com a comunidade, o que de certa forma dificulta a mudança. Uma boa dose de otimismo por parte dos pais pode gerar o desejo de conhecer o “novo”.
Se o desejo é que a criança fale bem inglês, deve-se colocá-la em uma escola bilíngue?
O processo para a escolha da escola bilíngue deve ser o mesmo processo utilizado para a escola monolíngue: conhecer sua filosofia, seus valores e suas finalidades educativas, para ver se existe a compatibilidade de ideias e ações. Após esse momento, é ter a certeza da proficiência dos coordenadores e professores no idioma e número de horas em que a criança ficará em contato com o outro idioma.
Há pais que desejam optar pelo ensino em período integral, mas se culpam. O que fazer a respeito?
É incontestável a participação valorosa, hoje, da mulher, mãe, no mercado de trabalho. A necessidade de a criança frequentar a escola em tempo integral é real, e tudo vai depender da forma como serão conduzidas suas atividades diárias. Muitas são as escolas que oferecem o período integral, uma excelente opção para os pais, que conseguem por meio da escola dar o suporte que os filhos precisam para conseguirem se organizar nos estudos e serem cuidados por pessoas especializadas para isso.
Como deve ser o processo de adaptação de alunos novos em uma escola? E se a criança continuar chorando depois?
O papel da escola é estar sempre aberta para acolher o aluno independentemente da sua idade, principalmente em seus primeiros momentos na escola. Mesmo quando ele já estuda na instituição, mas está mudando de etapa (série/ano), precisamos fazer com que se sinta acolhido, cuidado e seguro. Cada instituição tem a sua maneira de planejar o período de adaptação, e esse planejamento vem permeado por ações que contemplam a sua proposta pedagógica, direcionando a sua prática. É importante que a família esteja consciente de que a realidade que a criança vai conhecer não é a mesma que tem em casa ou mesmo em outra escola. Surgirão novos espaços, novos amigos, novas rotinas, novos educadores e ela precisará de um tempo para processar todas essas mudanças. Nesse período, os laços entre escola e família devem se estreitar ainda mais. Confiança e vontade de acolher a criança devem ser o foco do momento. Reduzir o tempo de permanência na escola nos primeiros dias é uma alternativa que tende a contribuir. Se permanecer o choro, vejo como sendo importante a mudança de atitudes tanto por parte da escola como por parte da família, procurando saber o que está gerando tanto desconforto.
Qual o primeiro passo que pais de filhos com necessidades específicas devem tomar para iniciar os filhos na Educação Fundamental?
Conhecer a escola e como ela compreende a inclusão das crianças com necessidades específicas. Somente o espaço físico adequado não assegura uma boa permanência da criança na instituição e o seu desenvolvimento. É interessante que toda a comunidade escolar tenha disponibilidade para atender o aluno. Do porteiro ao diretor, todos fazem parte do processo. Outro fator importante é a abertura da instituição para atender os profissionais que trabalham com o aluno no contraturno: psicóloga, fisioterapeuta, fono, terapeuta ocupacional, psicopedagogo, etc.
Como chegar ao equilíbrio da boa convivência entre alunos e professores, para que episódios como os que são divulgados de violência não ocorram?
Por meio do diálogo, do ambiente acolhedor, do respeito, das reflexões e das regras (combinadas) que são construídos a partir da chegada do aluno na escola desde a creche. Içami Tiba (autor de livros sobre limites) diz que “não existe pecado onde não existe lei” e que a criança, o adolescente, o jovem e até mesmo o adulto precisa ter claro o que é permitido e o que não é permitido naquele ambiente. Essa parceria de confiança entre escola e família é uma ótima ponte para que essa prática se fortaleça durante o ano letivo.
A utilização da tecnologia nas escolas, hoje, é um fato. Como fazer para que esta relação pedagógica frutifique sem que haja exageros por parte dos alunos?
Vou exemplificar usando um ditado que sempre cito para meus alunos: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Simplificando, tudo que é em excesso faz mal, é preciso criar um ponto de equilíbrio entre o uso da mídia tecnológica e o conteúdo escolar, trabalhar com ela em nosso favor e não contra nós. A tecnologia está cada vez mais avançada, presente no dia a dia das pessoas e é útil para a sociedade. Quanta coisa nós, educadores, já fizemos com ela. Não podemos negar a mídia, é o conhecimento social da criança. Na minha época, o meu conhecimento social era brincar de boneca, mexer com fogãozinho e assistir à TV. A questão, hoje, é criar o equilíbrio e lidar com tudo isso como aliado e não como algo que venha a destruir a harmonia da escola, usar como ferramenta pedagógica. É possível baixar um documentário e discutir com os alunos; criar programas; montar um grupo no WhattsApp; basta criarmos regras. Penso que tudo passa pelos combinados, pelo uso correto, pelo bom senso, pelo discernimento. Desta forma, só temos a ganhar!