A definição em torno do que é bioeconomia ainda envolve discussões e alinhamentos entre as mais diversas instituições. O conceito surgiu com o economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994), entre 1969 e 1971, a partir de uma série de estudos a que ele se dedicou sobre o processo produtivo.
Porém, o que pode ser cravado é que esse tema é algo consolidado para movimentar a economia de Mato Grosso do Sul, por conta da posição geográfica do Estado e da potencialidade de se utilizar as riquezas naturais que existem no Pantanal e no Cerrado.
Esse setor vai além do que a agropecuária atende, abarca sistemas produtivos no campo e na cidade e ainda pode servir para movimentar de pequenas empresas a grandes indústrias.
Nesse campo, que sinaliza ser fértil para geração de riqueza local, uma das entidades que desenvolve trabalho para fortalecer a cadeia produtiva da bioeconomia sul-mato-grossense é o Sebrae/MS.
A entidade, inclusive, tem um setor interno que atua para encontrar oportunidades, apoiar os pequenos negócios e promover formas de esses empreendedores ampliarem o mercado. Além disso, há um programa, chamado Pró-Pantanal, que também tem ações voltadas para auxiliar o setor a se estruturar, e foi criado um selo para destacar os produtos regionais, chamado Made in Pantanal.
Recentemente, oito empresas que já estão consolidadas no mercado local foram acompanhadas pelo Sebrae/MS para uma das principais vitrines de negócios da bioeconomia no País, que é a feira Green Rio, realizada entre os dias 1 e 3 de setembro.
Nesse espaço, os empresários puderam levar produtos para serem vendidos e participaram de rodada de negócios. A promessa é que novas oportunidades podem surgir a partir desses empresários e que haja reverberação para outras empresas.
Atuando diretamente no motor de toda essa estrutura para desenvolver a bioeconomia no Estado, o engenheiro e gestor de processo e projetos do Sebrae/MS Vitor Gonçalves Faria pontua que o campo para crescimento é grande, e o governo do Estado está com políticas que favorecem quem quiser produzir nesse ramo.
Em Mato Grosso do Sul, já existem 50 produtos que foram catalogados, mas outros ainda devem surgir em um levantamento que está sendo realizado.
Segundo Faria, a bioeconomia tem o potencial de trazer localmente tecnologia que pode auxiliar no processamento de matérias-primas existentes no Cerrado e no Pantanal. O que falta é atrair esse investimento, seja de interessados localmente ou de fora do Estado e mesmo do País.
Até o tradicional camalote, tão famoso no Rio Paraguai, pode ser produto que é gerador de energia e entra no escopo desse setor. As oportunidades parecem estar na mesa.
Vitor Gonçalves Faria
Engenheiro com formação nas áreas Ambiental, Civil e de Segurança do Trabalho. Trabalha como gestor de processo e projetos dentro do Sebrae/MS. Passou a ter dedicação específica para a bioeconomia em 2018, ao acompanhar ações para fortalecer a cadeia produtiva do setor no Estado.
Sua formação é na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e na Anhanguera Uniderp.
O termo bioeconomia existe há cerca de 50 anos, mas agora é que está ganhando espaço na nossa economia. Você pode contextualizar o que é esse termo?
A bioeconomia é um termo muito abrangente, ela pode envolver tudo que é fruto da biodiversidade do nosso país. Cada instituição leva a bioeconomia de um jeito.
O Mapa [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento], por exemplo, do governo federal, fala em sociobiodiversidade. Então, eles elencaram cinco critérios que representam a bioeconomia. No caso do Sebrae, a gente considera bioeconomia como produtos oriundos dos biomas locais.
Ou seja, todo produto que é característico de um bioma específico. Então, ele é natural daquele bioma, ele é fruto da bioeconomia.
Esse produto, quando é processado e utilizado, mesmo que a empresa esteja instalada fora do bioma, mas se utiliza matéria-prima desse bioma, a gente, do Sebrae, considera como um produto da bioeconomia, seja ele para fármacos, seja para nanotecnologias, seja para alimentos, seja para cosméticos e até para artesanato.
Vamos dar um exemplo: a bocaiuva, da qual se faz shampoo. Utiliza-se um processo produtivo sobre uma fruta que é típica do Cerrado. É uma produção de bioeconomia.
Com quais legislações o Sebrae atua em conjunto para trabalhar a questão da promoção da bioeconomia no Estado?
Quanto à legislação, não existe uma específica em que o Sebrae se apoia em relação à bioeconomia. E aí cada instituição tem visto a bioeconomia de uma forma diferente, onde ela vai ter um foco maior para atuar. No nosso caso, as micro e pequenas empresas e pequenas propriedades rurais, nesse contexto, são o que o Sebrae tem apoiado fortemente.
O projeto Prove Pantanal é o programa de verticalização da pequena produção agropecuária, no qual tem um monte de simplificações para a formalização e a concepção de pequenas agroindústrias dentro do Pantanal, bem como em execuções fiscais e outros benefícios para essas agroindústrias.
O Sebrae está atuando diretamente na reformulação do Prove Pantanal. No Estado, temos também o decreto nº 9.983, de 17/07/2000.
Como as empresas, principalmente as pequenas, podem ser beneficiadas ao entenderem melhor e se posicionarem dentro da bioeconomia? O que elas precisam fazer para se inserirem?
Elas podem ser beneficiadas de diversas formas. Aqui no Estado, Mato Grosso do Sul ainda é um mercado muito incipiente.
Na verdade, a gente tem muito poucas empresas vendo nos produtos da matéria-prima do Pantanal uma oportunidade de negócio. Tem um público muito interessado nesse tipo de produto, que gosta desses produtos exóticos, com diferencial.
Todas as propriedades de produtos que são daqui podem ser beneficiadas, não só em termos de conceito verde, mas também falando sobre o exótico.
Realmente apresentar as propriedades do produto e mostrar esse contexto local. Vou dar o exemplo da bocaiuva novamente. Ao extrair bocaiuva, ela tem vários produtos, como farinha, suco, e há o óleo, que tem propriedades muito melhores do que o óleo de coco, por exemplo.
É um mercado que precisa ser mais explorado pelas pequenas empresas e agroindústrias, aproveitando até essas oportunidades que têm de legislação, dos incentivos, como o próprio Pantanal.
As empresas devem focar em um nicho em que elas atuam e, aos poucos, adaptar-se e ir inserindo os produtos da economia local, principalmente o que é ligado ao Pantanal.
É preciso ir testando esses produtos com o público, abrindo novos mercados, entrando em empórios que trabalham com algo diferenciado.
Quais são os potenciais que existem aqui no Estado?
As empresas devem explorar o nosso estado e, principalmente, os produtos oriundos de matérias-primas do Pantanal e do Cerrado.
Um exemplo é o camalote, que virou uma eficiência que a Natura está utilizando em alguns produtos dela. Esse mesmo camalote que está por aqui.
Ele tem um poder calorífico, um poder energético muito superior até do que o biogás de granjas suínas, entre outras fontes para geração de energia.
Assim, o camalote, que é um produto do bioma, pode ser transformado em energia, fazendo parte de um outro contexto de bioeconomia. É uma gama de oportunidades.
Pode citar como o Sebrae está catalisando essas oportunidades? Existem outros parceiros que estão envolvidos nessas iniciativas?
Hoje, por meio de um projeto em parceria com o governo do Estado, o Sebrae está mapeando a cadeira de bioeconomia em todo o Estado.
Estamos procurando pequenas agroindústrias espalhadas por Mato Grosso do Sul que estejam atuando diretamente com produtos da bioeconomia ou com um produto com apelo cultural ou regional forte.
Às vezes, ele não vai ser oriundo da economia propriamente dita, em termos de Pantanal ou Cerrado, porém vai ter um apelo cultural forte, seja um shake, seja um chapéu ou um artesanato que tem a característica daquela região onde está inserido.
Além disso, que é muito importante para produtos do Pantanal, a gente tem uma ação dentro do programa Pró-Pantanal que chama Made in Pantanal.
Estamos lançando essas empresas que tem produtos oriundos do bioma Pantanal para mostrar para o mundo essa potencialidade que nosso estado tem, principalmente referente ao Pantanal. E, além disso, quando o produto é realmente do Pantanal, há uma qualidade para ele ir para o mercado.
A gente dá um selo que identifica como sendo produto do Pantanal, isso é o Made in Pantanal.
Além do governo do Estado, é bom citar também a Agraer, o Senai, as universidades, a Embrapa, que também estão apoiando o Sebrae nessa indicação de clientes para o mapeamento da cadeia produtiva da bioeconomia.
Quais empresas, hoje, aqui no Estado, estão recebendo suporte e atuando dentro desse conceito?
Com produtos da bioeconomia acredito que temos em torno de 50 que já estão mapeados. A gente sabe que o Estado tem um potencial muito grande, tem um mercado muito extenso, muita oportunidade para crescer. Esses 50 produtos são de empresas um pouco mais preparadas.
Entre esses exemplos, pode-se citar os chocolates Angí, que usam, dentro das suas matérias-primas, alguns produtos dos biomas Pantanal e Cerrado.
Temos também a PH Cosméticos, temos o Palmito do Cerrado, um que usa a guariroba, que é de uma empresa chamada Semente da Terra. E temos mel do Pantanal.