As buscas em torno do paredeiro da pequena Ayla Emanuelly Pereira de Souza, desparecida na última quinta-feira e encontrada na madrugada deste domingo (9) reacenderam um alerta sobre as forças de segurança do estado: a cada 10 desaparecidos, oito são encontrados em Mato Grosso do Sul.
Historicamente, o desfecho positivo expõe a rápida resolução de casos deste tipo em Mato Grosso do Sul. De acordo com dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS), nos últimos 10 anos, das 14.366 pessoas desaparecidas em território sul-mato-grossense, 11.084 foram encontradas (77,1%) enquanto 3.282 seguem desaparecidas.
Se o recorte da década é positivo, o índice de pessoas encontradas pelas forças estaduais de segurança em 2026 é o pior da série histórica.
Entre janeiro e agosto deste ano, das 713 desaparecidas, apenas 459 foram encontradas (64,30%). Ao longo de todo esse período, o índice sempre foi superior a 73% (2016).
Prestes a completar um mês de vida, a criança foi levada de Campo Grande no último dia 6 e encontrada com o casal Weliton Aparecido Lopes dos Santos e Suzilaine da Graça Costa na cidade de Pedro Juan Caballero, lado paraguaio da fronteira com Ponta Porã, região sul do Estado.
Ayla estava em uma residência localizada no cruzamento entre as ruas Alejo García e Coronel Martínez, no bairro Virgen de Caacupé.
De lá, foi levada diretamente a ala emergencial do Hospital Regional de PJC, passou por exames e permanece sob supervisão médica. As investigações foram conduzidas pela Delegacia de Proteção à Criança e o Adolescente (DPCA).
| Ano | Total | Encontrados | Desaparecidos | Percentual de encontrados |
| 2026 | 713 | 459 | 254 | 64,30% |
| 2025 | 1254 | 946 | 308 | 75,40% |
| 2024 | 1261 | 988 | 273 | 78,35% |
| 2023 | 1390 | 1092 | 298 | 78,56% |
| 2022 | 1380 | 1096 | 284 | 79,42% |
| 2021 | 1180 | 922 | 258 | 78,13% |
| 2020 | 1110 | 854 | 256 | 76,93% |
| 2019 | 1521 | 1239 | 282 | 81,45% |
| 2018 | 1487 | 1154 | 333 | 77,60% |
| 2017 | 1601 | 1256 | 345 | 78,45% |
| 2016 | 1469 | 1078 | 391 | 73,38% |
| Total | 14366 | 11084 | 3282 | 77,10% |
Fonte: Sejusp
Os números da Secretaria de Justiça e Segurança Pública divergem ligeiramente dos dados apresentados 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no último (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Conforme a pesquisa, Mato Grosso do Sul registrou, junto às polícias, 1.257 casos de pessoas desaparecidas no ano passado, o que representa, em média, 104 desaparecidos por mês, três por dia, ou uma pessoa desaparecida a cada oito horas no Estado.
A publicação reúne os principais dados sobre as ocorrências criminais registradas no país em 2025.
Em todo o Brasil, foram registrados 84.269 desaparecimentos, um aumento de 3,6% em relação aos 81.040 casos de 2024.
O Anuário destaca que entre 2019 e 2020 houve queda abrupta nos registros, possivelmente relacionada às restrições de circulação impostas pela Covid-19, mas a partir de então, observou-se uma tendência de crescimento contínuo, atingindo a taxa de 39,5 por 100 mil habitantes em 2025.
De acordo com a Lei nº 13.812/20192, que institui a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas e cria o Cadastro Nacional, é considerada pessoa desaparecida "todo ser humano cujo paradeiro é desconhecido, não importando a causa de seu desaparecimento, até que sua recuperação e identificação tenham sido confirmadas por vias físicas ou científicas".
A norma, no entanto, não diferencia a natureza do desaparecimento, coexistindo situações que
incluem desaparecimentos voluntários e forçados, indo desde casos envolvendo conflitos familiares, problemas de saúde mental, violência doméstica, uso abusivo de drogas, dívidas, acidentes, exploração sexual e tráfico de pessoas, até casos de pessoas que vieram a óbito e cujos corpos não foram encontrados.
O documento não traz dados regionalizados sobre o perfil das pessoas desaparecidas, mas destaca que, no geral, dados do Relatório Estatístico Anual de Pessoas Desaparecidas e Localizadas (2022-2023), publicado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), apontam que a maioria dos desaparecidos é do
sexo masculino, na faixa etária adulta, entre 18 e 59 anos.
Em relação ao recorte por raça/cor, a população negra (pretos e pardos) constitui 45,2% dos registros. O anuário, no entanto, alerta para uma limitação na qualidade da informação, visto que parte considerável das ocorrências carecem de dados de perfil racial. Em todo o país, 61.305 pessoas localizadas.
O Anuário ressalta que há subnotificação de casos solucionados e um fator que contribui para para isto refere-se à ausência de comunicação por parte de familiares quando a pessoa desaparecida é localizada por outros meios que não a polícia. Nesses casos, o registro inicial permanece ativo nas bases de dados.
Ademais, considerando a hipótese de que parte dos desaparecimentos pode tratar-se de mortes resultantes de múltiplos fatores, o Banco Nacional de Perfis Genéticos (BNPG) tinha, no ano-base, 13.424 perfis genéticos de Restos Mortais Não Identificados (RMNI) cadastrados.
Saiba*
O alerta em busca da pequena Ayla chegou a circular na plataforma "Amber Alert Brasil", programa estabelecido nos Estados Unidos e adotado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O recurso ativa um comunicado especial encaminhado para as plataformas da Meta, que passa a publicar o alerta em um raio de até 160 quilômetros do local de onde o fato foi registrado.
Até a publicação desta matéria, a destituição e custódia da pequena Ayla estava sob competência das autoridades do país vizinho e do Ministério da Defesa Pública do Paraguai.
Colaboraram Glaucea Vaccari e Leo Ribeiro

