Cidades

ENTREVISTA

"A gente entrega, em média, uma escola reformada a cada 6 dias"

Secretário estadual de Educação, Hélio Daher conversou com o Correio do Estado sobre o 1º ano sem celulares, obras e futuro à frente da Pasta

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À frente da Secretaria de Estado de Educação (SED) durante todo o mandato do governador Eduardo Riedel (PP), o professor Hélio Daher fez um balanço do primeiro ano sem celulares nas salas de aula e comentou sobre o lançamento de novas escolas, expectativas para este ano e futuro na Pasta.

Hélio disse que várias metas já foram alcançadas no decorrer da gestão. Porém, destacou que ainda há objetivos a serem cumpridos, especialmente no índice de reprovação dos estudantes da Rede Estadual de Ensino (REE) e na entrega de novas obras.

Ademais, falou sobre sua vida profissional e que chegou a conversar com Riedel sobre seu futuro na Pasta, visto que seu nome foi ventilado como possível candidato para uma das cadeiras de deputado estadual.

O ano passado foi marcado como o primeiro da proibição do uso de aparelhos celulares nas salas de aula. Como avalia esse primeiro ano? Quais os principais resultados para a Rede Estadual de Ensino?

A gente analisou que foi muito benéfica a suspensão do uso das telas. Então, quais foram os pontos que mais saltaram aos olhos? A primeira questão foi a possibilidade de integração entre os estudantes, pois eles ficavam meio que nas bolhas deles.

Eu penso diferente de você, então, em vez de conversar com você, eu vou ficar no meu celular ali conversando com a minha galera, o que infelizmente foi criado com as mídias sociais. Quando você tira a tela, você obriga os meninos a conversarem de novo.

A riqueza da escola é justamente a heterogeneidade, eu penso diferente de você, mas a gente vai existir junto e eu tenho que respeitar o que você pensa. E esse foi talvez o maior ganho, voltar a ter atividades entre eles, a gente resgatou jogos que a gente não tinha mais, porque, na nossa época, tinha jogos na hora do intervalo e isso foi muito legal.

Além disso, a questão de diminuir a necessidade dos estudantes de olhar a tela e perder a atenção com o professor. Então, a gente teve um ganho de relação social e nós tivemos também um ganho de aprendizagem. São dois ganhos importantes, com a previsão de acelerar.

Para este ano, há algum ponto nessa medida que deve ser ajustado?

Uma coisa que a gente percebeu foi que alguns dos nossos estudantes precisam de um acompanhamento específico por conta do vício em tela. Infelizmente, para alguns dos estudantes, não era só costume, há muito vício mesmo.

É pública a informação de que o Brasil é um dos países em que a juventude mais fica na tela e a gente percebeu que parte desses estudantes tem um vício.

Então, para este ano, a gente vai aprofundar muito o estudo e o acompanhamento desses estudantes, para fazer com que de fato vão perdendo um pouco dessa relação de dependência das mídias e começar a viver o mundo real. Essa é uma ação vinculada a essa norma feita, por meio dos psicólogos da secretaria.

Também no primeiro ano dessa medida tivemos uma queda muito acentuada nas reprovações. O que espera para 2026?

A queda na reprovação não é uma ação recorrente da proibição do uso celular. Ele contribuiu, mas o grande fator que fez com que a gente pudesse melhorar os nossos índices de reprovação tem mais relação com tudo aquilo que a secretaria vem fazendo com as escolas, de acompanhamento pedagógico, aluno que começava a ter mau desempenho, a gente começou a avaliar mais, a fazer um acompanhamento.

Foi uma série de ações, tem uma parceria com o Ministério Público na busca ativa, que é aquele aluno que ia, sumia da escola, a gente trazia de volta.

Então, essa parceria com o Conselho Tutelar e com o Ministério Público deu muito resultado também. E, obviamente, a harmonia da escola por meio da integração social por conta da suspensão do celular também contribuiu.

Para 2026, a gente vai continuar indo mais longe nessa ação, porque a nossa meta é não deixar ninguém para trás. Por mais que eu fale ‘cara, baixamos para 5%’, mas 5% de 200 mil alunos ainda é muita gente reprovada. A gente está feliz de ter baixado de 20 mil alunos que reprovavam por ano para 10 mil alunos, mas 10 mil alunos ainda é muito reprovado.

É óbvio que você tem o aluno que abandona, deixa o estudo, mas a gente vai trabalhar forte. Por exemplo, no abandono, nós baixamos para 0,1%. Ou seja, é um resultado muito pequeno já, graças a Deus, então a gente não diminuiu só a reprovação, diminuiu também o abandono, que era outro problema, que tem aquele aluno que estuda e reprova, mas está com a gente.

A gente está muito contente, mas 2026 vai ser o ano em que a gente vai continuar trabalhando muito para isso.

Em 2025, o governo do Estado ampliou o atendimento ao Ensino Fundamental para que as prefeituras pudessem focar a Educação Infantil. Essa medida conseguiu surtir o efeito desejado? Houve ampliação das vagas nas creches?

A gente acompanha a dificuldade das prefeituras, em especial a Prefeitura de Campo Grande, que tem muita dificuldade de resolver esse problema. Há aí uma incapacidade técnica deles em resolver essa demanda da Educação Infantil. O que a gente vem fazendo é ajudar as prefeituras, em especial Campo Grande, oferecendo vagas.

Como é que funciona? A gente passa a pegar alunos do primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental que estavam na prefeitura e passaram para o Estado, para gerar um passivo de salas de aula, e para que eles possam trazer mais crianças para dentro da sala de aula.

A gente vem acompanhando a distância porque o Estado não tem um acompanhamento direto de quantas crianças foram atendidas pelo sistema de matrícula da prefeitura. A gente espera que a prefeitura faça um bom uso desse investimento, até porque, quando o Estado assume os alunos do município, a gente também assume a conta.

Cada ano custa em torno de R$ 10 mil a R$ 11 mil por ano, que o Estado está assumindo essa conta, então não é só a sala de aula, tem folha de pagamento, eu tenho que contratar professor, eu tenho que aumentar a merenda, eu tenho que aumentar o transporte, então tudo isso o Estado assume na expectativa de que a prefeitura faça a parte dela, que é, por meio do investimento do Estado, oportunizar a vaga para as crianças da Educação Infantil.

No ano passado, a Rede Estadual de Ensino chegou a mais de 61% de escolas de tempo integral. Como está o número para esse ano? Há previsão de chegar a 100%?

A gente já chegou a 100% dos municípios atendidos com escola de tempo integral. Nós temos 100% de atendimento, o que a gente chama de universalização. A quantidade de escolas de tempo integral nunca vai chegar a 100%, porque a gente tem que guardar um grupo de escolas para o aluno que trabalha em outro período.

Eu tenho alunos do Ensino Médio, principalmente alunos de 15 anos, 16 anos e 17 anos, que já estão trabalhando, compondo renda em casa. Então, para esse estudante a escola de tempo integral não é interessante.

O Estado vai crescendo. A gente atingiu mais de 60% de escola de tempo integral, chegamos a 62%, a gente está em um patamar que já era a nossa meta até 2027. Atingimos com dois anos de antecedência e agora a gente vem negociando aos poucos a ampliação do tempo integral, mas aí de acordo com a necessidade da comunidade.

A meta do Plano Nacional de Educação é de 50% das escolas, então, a gente passou em 10% a meta do Plano Nacional.

O objetivo agora é entender qual é a dinâmica do Ensino Médio para isso. E no Ensino Fundamental, aí sim, a gente está ampliando bastante o tempo integral, porque as famílias com os pequenininhos sempre querem no integral. Então nosso foco agora é ampliar o tempo integral no Ensino Fundamental.

Mato Grosso do Sul tem investido muito na reforma de escolas estaduais. Para esse ano, há um cronograma de entregas e novas obras para começar? Sabe dizer quanto já foi investido neste mandato?

A gente já passou de R$ 1,2 bilhão de investimento. A gente entrega, em média, uma escola reformada a cada seis dias. É hoje uma das redes públicas brasileiras que mais entrega escolas reformadas, um ritmo muito acelerado, já passamos de 220 escolas de 352 que passaram por intervenções, um número bem grande, mas nós temos ainda um número de escolas a serem construídas.

Novidade para 2026 é o lançamento da obra da Escola Hércules Maymone, em Campo Grande, que é uma escola historicamente importante, e terá a inauguração, se Deus quiser. A gente está com 72% da obra da Escola Joaquim Murtinho, que é a obra mais complexa da rede estadual.

Joaquim Murtinho é uma escola que todo mundo conhece, está na Afonso Pena, e a gente não consegue chegar com o caminhão lá dentro para reformar, porque ela é geograficamente instalada no centro do quarteirão, é a obra mais antiga nossa, ela já passou de dois anos por conta da complexidade.

É uma escola muito grande, mas a gente está muito feliz que passou dos 70%, porque, veja, é uma escola com 102 anos, a gente trocou encanamento, parte elétrica, é tudo muito antigo.

Encerrando essa, outra grande obra é justamente o lançamento da obra da Escola Hércules Maymone. Dela e mais 10 escolas que a gente lança a reforma.

Além disso, a gente tem a entrega de duas escolas novas, uma em Ribas do Rio Pardo e outra em Ponta Porã, uma escola nova que a gente entregou no fim do ano aqui no Noroeste, em Campo Grande, e uma escola nova em Dois Irmãos do Buriti, que é uma escola indígena, mas ela é uma escola nova porque o prédio é novo. A escola velha está do lado, a gente não vai usar mais o prédio.

E devemos lançar algumas escolas novas também no interior, principalmente em Inocência e Bataguaçu, por conta dos investimentos na região. A gente já começa com deficit de salas de aula, principalmente em Inocência, por conta de Aral Moreira.

Como você avalia esses quatro anos à frente da SED no primeiro mandato do governador Eduardo Riedel?

Eu estou muito feliz com o trabalho da nossa equipe, acho que a gente está entregando e a pasta da Educação é uma das mais bem avaliadas do governo. A gente atingiu os melhores números da história da educação sul-mato-grossense, a gente atingiu as melhores marcas de proficiência em língua portuguesa e matemática, com médias acima de sete.

Atingimos a melhor marca de reprovação da história, a gente atingiu a melhor marca de abandono.

Nós universalizamos a oferta da educação profissional, 100% dos municípios têm, pelo menos, uma escola oferecendo educação profissional, metade dos nossos 90 mil alunos do Ensino Médio fazem educação profissional, que era uma meta estabelecida, que o governador tinha colocado, de passar a média europeia da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico].

A gente já passou a média da Europa de alunos do Ensino Médio, isso é muito significativo, porque é um Estado que cresce muito.

Como o Estado cresce e tem muito investimento, a primeira coisa que o investidor quer é mão de obra qualificada. Então, a educação está fazendo a parte dela, qualificando a juventude para trabalhar justamente com esses investidores que estão vindo para cá.

Acho que a gente está cumprindo a missão da Secretaria de Educação, que é de entregar uma educação de qualidade.

Eu sempre reforço muito o quanto a gente acredita, eu acredito, sou professor da Rede Estadual há 30 anos já, meus filhos estudam em escolas estaduais, porque eu tenho orgulho de dizer que meus filhos estão em escola pública, porque eu acredito na escola pública.

E eu acho que é sempre uma incoerência quando o secretário de Educação não coloca seus filhos na escola pública.

Eu sempre desafio todo secretário de Educação a acreditar no que faz e colocar o seu filho na escola pública, em vez de colocar o seu filho na escola particular, porque eu acredito na escola pública, e sinto pena do secretário de educação que não tem seus filhos na escola pública, é porque a gente acredita.

A gente está entregando uma educação de muita qualidade, temos muitos desafios ainda, Mato Grosso do Sul é um estado rico em cultura, nós temos desafios, nós temos as comunidades indígenas, cada uma do seu jeitinho, a gente tem comunidade quilombola, a gente tem as divisas com o Paraguai e com a Bolívia, e cada região tem uma necessidade.

Acho que a gente entregou muito, mas a gente tem muita coisa para fazer ainda, mas eu acho que a população está bastante satisfeita com o trabalho da educação estadual.

Deve seguir na Pasta em caso de um segundo mandato de Riedel?

Olha, a decisão é do chefe. A gente trabalha, temos expectativa de manter o ritmo de trabalho. Eu já descartei participar da corrida eleitoral, em algum momento surgiu meu nome e conversei com o governador, e entendemos que é melhor que eu continue na Pasta, trabalhando.

A equipe de educação é muito boa, mas obviamente que a decisão da composição da equipe dele no segundo mandato é por conta dele. A gente vai continuar à disposição do governo do Estado.

*Perfil

Hélio Queiroz Daher

Professor efetivo da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande, graduado em Geografia pela Uniderp, especialista em Gestão Escolar pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), especialista em Gestão Sustentável do Turismo em Áreas Naturais pela Uniderp, pós-graduado e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).

Antes de assumir a Pasta, estava à frente da Superintendência de Políticas Educacionais (Suped), da Secretaria de Estado de Educação (SED).

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requerimento

CPI do Tapa-Buraco avança na Câmara de Campo Grande com sete assinaturas

Dentre os fatos determinados da investigação estão ausência de ações e respostas do Executivo diante das reclamações da população, prejuízos causados, redução dos investimentos, dentre outros

13/10/2026 18h14

Câmara quer CPI para investigar contratos do tapa-buraco

Câmara quer CPI para investigar contratos do tapa-buraco Foto: Marcelo Victor / Correio do Estado

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A articulação para abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) avançou na Câmara Municipal de Campo Grande, com sete vereadores assinando o requerimento. A proposta é investigar possíveis irregularidades nos contratos e na execução dos serviços de tapa-buracos na Capital.

O requerimento para a criação da CPI foi apresentado pela vereadora Luiza Ribeiro (PT), na sessão do dia 13 de agosto deste ano. 

Nesta terça-feira (13), dois meses depois, ela afirmou que o documento já reúne sete assinaturas, dos vereadores Jean Ferreira (PT), Landmark (PT),  Marquinhos Trad (PV), Maicon Nogueira (PP), André Salineiro (PL) e Vererinário Francisco (União Brasil), além dela.

O requerimento estabelece como fatos determinados da investigação a ausência de ações e respostas do Executivo diante das reclamações da população, os prejuízos causados pela falta de manutenção adequada, a redução dos investimentos, os casos de possíveis irregularidades e a ausência de resposta ao requerimento aprovado pelo Plenário.

Um dado apresentado no requerimento é que, das 24.673 indicações encaminhadas pela Câmara ao Executivo no primeiro semestre de 2026, quase 9 mil foram destinadas à realização de serviços de tapa-buraco em diferentes regiões do Município.

Outro ponto destacado no documento é a redução da dotação destinada ao projeto de Modernização e Requalificação das Vias Urbanas, cujos investimentos previstos passaram de mais de R$ 132 milhões em 2025 para pouco mais de R$ 40 milhões em 2026, uma redução de quase 70%.

O requerimento também aponta que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul investiga ações relacionadas ao serviço de tapa-buracos em Campo Grande e cita a Operação “Buraco Sem Fim”, que apurou suspeitas de fraudes em contratos, incluindo possíveis irregularidades em medições de serviços e pagamentos por obras parcialmente executadas ou não realizadas.

Por fim, é mencionado o acompanhamento do tema pelo Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS).

“Não estamos falando apenas de buracos nas ruas. Estamos falando de dinheiro público, de qualidade dos serviços prestados à população e da necessidade de saber por que Campo Grande chegou a essa situação. A Câmara precisa cumprir seu papel de fiscalização e investigar”, defende Luiza Ribeiro.

A proposta solicita a criação da CPI pelo prazo inicial de 120 dias, com a definição dos fatos a serem investigados, composição da comissão e prazo para conclusão dos trabalhos após a adoção das providências regimentais.

Para que a CPI seja aberta, é necessário o apoio de no mínimo um terço dos vereadores. Como a Câmara de Campo Grande tem um total de 29 vereadores, o cálculo resulta na necessidade de, no mínimo, 10 assinaturas.

Para Luiza Ribeiro, a questão central é garantir transparência. “A população de Campo Grande precisa saber quanto está sendo gasto, como os serviços são executados e por que os problemas persistem. Afinal, a manutenção das ruas é um serviço público essencial, e a população tem o direito de saber como seu dinheiro está sendo aplicado ", argumenta. 

O vereador André Salineiro, que assinou o requerimento, defendeu a abertura da CPI e cobrou cobrou transparência e fiscalização sobre os novos contratos anunciados pela Prefeitura, que somam R$ 46,3 milhões, e a promessa de ampliar os serviços para até 3 mil buracos tapados por dia, com várias frentes de trabalho, a partir desta terça-feira (13).

“Sou favorável à abertura de uma CPI do Tapa-Buraco. A população espera uma posição dos vereadores. Nós vamos investigar o que aconteceu ou deixar esse assunto passar sem que esta Casa cumpra o seu papel? Não estou aqui para condenar ninguém antes da conclusão das investigações. Investigar não é condenar”, afirmou Salineiro.

O vereador Veterinário Francisco cobrou, independentemente da abertura da CPI, providências do Executivo municipal para a realização da operação tapa-buracos no bairro  Coophasul e em outras regiões de Campo Grande, cujas solicitações já foram apresentadas várias vezes, mas sem solução do problema.

“Desde o início do meu mandato, tenho cobrado a operação tapa-buracos na nossa Capital.  Foram várias vezes o mesmo pedido para o Coophasul, mas até agora nada foi feito”, afirmou, acrescentando que  a operação tapa-buracos precisa chegar aos bairros que aguardam atendimento.

Ação Policial

Polícia barra festa infantil atribuída ao Comando Vermelho em MS

Duas mulheres foram presas em Pedro Gomes durante operação que impediu evento de Dia das Crianças supostamente financiado pela facção; investigação aponta ações semelhantes em outras cidades do Estado.

13/10/2026 18h01

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.

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Uma festa de Dia das Crianças que, segundo a Polícia Civil, seria utilizada pelo Comando Vermelho para conquistar a simpatia de moradores e ampliar sua influência em comunidades de Mato Grosso do Sul foi impedida pelas forças de segurança na segunda-feira (12), em Pedro Gomes, município da região norte do Estado.

A operação terminou com duas mulheres presas e revelou uma suposta estratégia da organização criminosa para utilizar a distribuição de alimentos, doces e brinquedos como forma de aproximação com a população.

As investigações apontam que a iniciativa não seria isolada. Informações obtidas pelos setores de inteligência das polícias Civil e Militar indicaram que a facção planejava promover eventos semelhantes em pelo menos três municípios sul-mato-grossenses: Pedro Gomes, Sonora e Coxim.

A suspeita é de que as comemorações, apresentadas como iniciativas comunitárias, fossem financiadas por integrantes do Comando Vermelho com o objetivo de fortalecer a presença do grupo nas localidades, estabelecer vínculos com moradores e construir uma imagem de proteção e assistência social, especialmente entre famílias em situação de vulnerabilidade.

Em Pedro Gomes, os policiais identificaram antecipadamente o local e o horário da festa, além de pessoas que estariam envolvidas na organização do evento. O encontro estava previsto para as 15h, no campo de futebol do Bairro São Luís.

Segundo o levantamento policial, também foi identificada uma pessoa apontada como liderança externa da organização criminosa, que mantinha contato direto com as responsáveis locais e com fornecedores contratados para a realização da festa.

Polícia identificou pagamentos e organização da festa

As investigações começaram dias antes da data prevista para as comemorações. A partir do compartilhamento de informações entre os setores de inteligência, as forças de segurança passaram a acompanhar os preparativos dos eventos e os possíveis vínculos dos organizadores com a facção criminosa.

Um dos elementos que chamaram a atenção dos investigadores foi a forma de pagamento dos serviços contratados.

Conforme as informações levantadas, os brinquedos infláveis que seriam disponibilizados às crianças deveriam ser pagos em dinheiro, diretamente no local da festa. Para a polícia, a utilização de valores em espécie poderia dificultar o rastreamento dos recursos empregados na organização do evento.

Além disso, foram identificadas pessoas responsáveis pelos preparativos e contatos que, segundo os investigadores, indicariam a participação de integrantes da organização criminosa no planejamento das atividades.

A partir desses indícios, as equipes intensificaram o acompanhamento da movimentação no Bairro São Luís, com o objetivo de impedir a realização do evento caso fosse confirmada a ligação com a facção.

Duas mulheres foram presas em Pedro Gomes

Durante a intervenção policial, duas mulheres foram encontradas no campo de futebol enquanto montavam uma estrutura destinada à distribuição de alimentos para as crianças da comunidade.

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.Policiais abordaram organizadoras de festa infantil que, segundo a investigação, seria financiada pelo Comando Vermelho em Pedro Gomes. Foto: Divulgação Policia Civil.

Ao serem questionadas pelos agentes, uma delas afirmou que estava organizando uma comemoração infantil, mas não apresentou autorização para a realização do evento.

Segundo a polícia, a jovem já era conhecida das forças de segurança e havia sido mencionada em um registro anterior por supostamente ameaçar moradores da vizinhança em nome de uma organização criminosa.

A investigação apontou ainda que a estrutura preparada para a festa estaria sendo financiada por integrantes do Comando Vermelho, com movimentações financeiras realizadas principalmente por meio de contas bancárias de uma das investigadas.

As duas mulheres foram presas em flagrante, sob suspeita de envolvimento com a organização criminosa e de participação em atividades destinadas a favorecer sua atuação na comunidade.

A polícia também apreendeu aparelhos eletrônicos que, conforme o relatório investigativo, continham informações consideradas relevantes para a identificação dos responsáveis pelo planejamento e financiamento da festa.

Mensagens e transferências via Pix são investigadas

A análise preliminar dos aparelhos apreendidos revelou, segundo a Polícia Civil, conversas que mencionavam diretamente o Comando Vermelho e indicavam a existência de grupos de mensagens utilizados para organizar as atividades.

Entre os registros identificados estaria um grupo destinado especificamente às finanças do chamado "projeto Dia das Crianças", expressão utilizada nas comunicações analisadas pelos investigadores.

Também foram encontradas referências a transferências bancárias realizadas por meio do Pix entre as mulheres investigadas, o que reforçou as suspeitas sobre a existência de uma estrutura financeira por trás da organização dos eventos.

Para os policiais, os elementos reunidos indicam que a comemoração não seria apenas uma iniciativa espontânea das organizadoras, mas parte de uma atividade articulada e financiada por pessoas ligadas à facção.

A investigação busca identificar a origem dos valores movimentados, a participação de outros envolvidos e a extensão da estrutura responsável pelas comemorações planejadas no norte do Estado.

Operação semelhante ocorreu em Sonora

A atuação em Pedro Gomes aconteceu após uma intervenção policial realizada em Sonora, onde as forças de segurança já haviam interrompido um evento semelhante, também relacionado às comemorações do Dia das Crianças.

Na ocasião, duas mulheres foram presas e aproximadamente 200 brinquedos, além de doces, foram apreendidos.

Segundo os investigadores, as características do evento em Sonora apresentavam semelhanças com a iniciativa planejada em Pedro Gomes, o que fortaleceu a suspeita de uma atuação coordenada entre pessoas vinculadas ao Comando Vermelho.

A identificação desse padrão levou os policiais a concentrar esforços na segunda cidade, onde já haviam sido identificados o horário, o local e parte dos responsáveis pelos preparativos.

Coxim também apareceu nas informações de inteligência como um dos municípios onde a facção pretendia promover atividades voltadas ao público infantil. Entretanto, o material divulgado não detalha se houve intervenção policial ou realização de evento semelhante na cidade.

Alimentos foram descartados por falta de garantia sanitária

Além das suspeitas relacionadas ao financiamento da comemoração, a operação levantou questionamentos sobre as condições de preparo e armazenamento dos alimentos que seriam distribuídos às crianças.

A pedido da autoridade policial, a Vigilância Sanitária municipal foi acionada para avaliar os produtos encontrados no local.

Segundo as informações repassadas pelo órgão, não foi possível atestar a segurança dos alimentos, uma vez que as condições de higiene empregadas durante o preparo eram desconhecidas.

Diante da impossibilidade de garantir que os produtos estavam próprios para consumo, o material foi considerado inadequado para distribuição e acabou descartado.

A medida também impediu o reaproveitamento dos alimentos apreendidos, já que não havia garantias suficientes sobre a procedência e as condições sanitárias.

O episódio acrescentou uma preocupação à ocorrência: além da suspeita de utilização da festa para favorecer uma organização criminosa, os produtos seriam destinados a crianças sem que sua segurança sanitária pudesse ser comprovada.

Facção tentaria conquistar apoio da população

Para a Polícia Civil, o caso revela uma estratégia que ultrapassa a atuação tradicional das organizações criminosas no tráfico de drogas e em outros delitos.

Segundo a investigação, as chamadas "ações sociais" funcionariam como instrumentos de aproximação entre integrantes das facções e moradores de comunidades onde esses grupos pretendem ampliar sua influência.

A distribuição de alimentos, brinquedos e outros benefícios permitiria que a organização se apresentasse como uma espécie de protetora da população, criando vínculos e buscando reconhecimento social.

Essa atuação, conforme a avaliação policial, pode contribuir para estabelecer relações de dependência e gratidão, especialmente em localidades marcadas por dificuldades econômicas e acesso limitado a determinados serviços.

Ao mesmo tempo, os investigadores apontam que a estratégia pode prejudicar a relação entre moradores e autoridades, uma vez que a presença das forças de segurança passa a ser apresentada pela organização criminosa como um obstáculo à realização de atividades comunitárias.

De acordo com a Polícia Civil, esse comportamento está associado à chamada narcocultura, fenômeno caracterizado pela normalização e valorização de símbolos, práticas e lideranças de organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas.

Nesse contexto, eventos aparentemente beneficentes poderiam funcionar como ferramentas para fortalecer a imagem das facções, ampliar sua influência territorial e reduzir a disposição de moradores para colaborar com investigações policiais.

Para as autoridades, a utilização de comemorações destinadas a crianças é particularmente preocupante, porque pode aproximar o público infantil de ambientes influenciados por organizações criminosas e contribuir para a naturalização de sua presença na comunidade.

Nova legislação prevê até 20 anos de prisão

As prisões realizadas em Pedro Gomes também estão relacionadas à aplicação da Lei Federal nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil.

A legislação passou a tipificar, entre outras condutas, o crime de favorecimento ao domínio social estruturado, que abrange determinadas formas de apoio e colaboração com organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares e milícias privadas.

A pena prevista para esse crime varia de 12 a 20 anos de reclusão, além de multa.

Segundo a Polícia Civil, os elementos identificados durante a investigação fundamentaram a prisão em flagrante das suspeitas e o enquadramento das condutas na nova legislação.

As investigadas também são apontadas como suspeitas de envolvimento com organização criminosa. A responsabilização penal dependerá da análise das provas reunidas e dos desdobramentos do procedimento judicial.

A autoridade policial solicitou ao Poder Judiciário a manutenção das prisões, com a decretação da prisão preventiva, medida que permite manter investigados presos durante o andamento das investigações quando estão presentes os requisitos previstos em lei.

Investigações continuam no norte de MS

Mesmo com a interrupção das comemorações em Pedro Gomes e Sonora, as investigações continuam para identificar outras pessoas que possam ter participado da organização ou do financiamento dos eventos.

Segundo a Polícia Civil, outras pessoas também são investigadas por suspeita de envolvimento na organização e no financiamento dos eventos, incluindo indivíduos que teriam contribuído financeiramente ou mantido contato com as organizadoras locais.

Os investigadores também buscam esclarecer a extensão do planejamento das chamadas ações sociais e identificar eventuais vínculos entre os envolvidos nos diferentes municípios.

O caso chama atenção para uma possível mudança na estratégia de atuação das facções em Mato Grosso do Sul, que, além de disputarem influência por meio de atividades criminosas, também estariam tentando conquistar espaço nas comunidades mediante iniciativas apresentadas como beneficentes.

Para as forças de segurança, impedir a utilização dessas atividades por organizações criminosas é uma forma de enfrentar não apenas os delitos atribuídos às facções, mas também as tentativas de ampliar sua influência sobre a população.

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