Cidades

editorial

Além das apreensões: o combate ao tráfico

O que importa é a capacidade do Estado de enfraquecer, de forma consistente, as organizações criminosas, retirando delas poder econômico e capacidade de corromper

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A divulgação dos dados de apreensão de drogas em Mato Grosso do Sul em 2025 chamou atenção por um motivo específico: pela primeira vez em muitos anos, o Estado deixou de liderar o ranking nacional e passou à segunda colocação, atrás do Paraná. Para alguns, o dado pode parecer bom, para outros, é um sinal de alerta. Na prática, porém, não é nem uma coisa nem outra. Trata-se, sobretudo, de um retrato circunstancial da realidade de um fenômeno complexo, dinâmico e em constante adaptação.

É inegável que retirar drogas de circulação é importante. Cada carga interceptada representa menos entorpecentes chegando às cidades, menos danos à saúde pública e menos violência associada ao consumo. No entanto, reduzir o combate ao crime organizado a uma disputa estatística é um erro conceitual. O volume apreendido varia conforme rotas, estratégias das quadrilhas, intensidade das ações policiais e até decisões logísticas do próprio tráfico. Oscilações acontecem e sempre acontecerão.

Mais relevante do que liderar rankings é atacar o coração financeiro das organizações criminosas. O narcotráfico não se sustenta apenas pela circulação de drogas, mas pela capacidade de transformar dinheiro ilícito em patrimônio aparentemente legal. Combater a lavagem de dinheiro, bloquear bens, sequestrar ativos e desestruturar empresas de fachada são medidas que causam impactos muito mais profundos e duradouros do que grandes apreensões pontuais.

Nesse contexto, o trabalho ostensivo nas estradas continua sendo essencial, independentemente do resultado imediato em números. A simples presença do Estado, com fiscalização permanente, inteligência embarcada e integração entre forças, inibe a atuação criminosa e encarece a logística do tráfico. Mesmo quando não há apreensão, há dissuasão, e isso também conta.

A lógica do enfrentamento ao crime organizado mudou. Não se trata apenas de apreender cargas, mas de compreender fluxos financeiros, redes empresariais e conexões transnacionais. Para isso, investir em inteligência é fundamental, assim como fortalecer instituições, especialmente as polícias e o Poder Judiciário. Instituições sólidas, bem estruturadas e protegidas contra a corrupção são, talvez, o maior obstáculo ao avanço do crime organizado.

No fim das contas, não importa quem lidera o ranking anual de apreensões. O que realmente importa é a capacidade do Estado de enfraquecer, de forma consistente, as organizações criminosas, retirando delas poder econômico, influência e capacidade de corromper. Que os dados sirvam menos para comparações simplistas e mais para aprofundar estratégias. E que o combate ao crime organizado siga se fortalecendo, com inteligência, integração e foco no que realmente faz diferença.

Combate ao tráfico

Apreensão de drogas em Mato Grosso do Sul cai para o menor patamar desde 2019

No ano passado, MS perdeu para o Paraná o posto de líder em apreensões de maconha e cocaína no território brasileiro

28/01/2026 09h30

Apreensão de cocaína realizada pela PRF em Terenos

Apreensão de cocaína realizada pela PRF em Terenos Divulgação

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O volume de drogas apreendidas em Mato Grosso do Sul despencou quase 30% em 2025 e alcançou a menor marca desde 2019, segundo indicadores publicados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), com base em números enviados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp).

O Estado também deixou de ser o campeão brasileiro de apreensões de drogas, posição que tinha desde o início da década, e agora é o segundo em maior volume de apreensões, atrás do vizinho Paraná, que também faz fronteira com o Paraguai. 

Em Mato Grosso do Sul, no ano passado, foram apreendidas 12,2 toneladas de cocaína, 30,26% a menos que em 2024, quando foi confiscado um volume de 17,6 toneladas. 

No que diz respeito à maconha, ela tem um destaque maior no Estado, com 411,3 toneladas apreendidas em 2025, uma redução de 29,01% em relação ao ano anterior, quando foram apreendidas 579 toneladas. Diante disso, ao somar os números das apreensões de ambas as drogas, Mato Grosso do Sul registrou uma queda de 29,05% em comparação com 2024, tendência que também ocorre na quantidade de ocorrências de tráfico de drogas, que diminuíram de 4.058 para 3.341 (17,67%).

Em comparação com os dados compilados dos últimos 10 anos, as 423,6 toneladas apreendidas em 2025 representam o menor volume desde 2019, quando foram confiscadas 383,6 toneladas. 

No Paraná, campeão de apreensões em 2025, foram retidas 566,3 toneladas de drogas (maconha e cocaína). Em 2024, Mato Grosso do Sul apreendeu 597 toneladas, enquanto o Paraná confiscou 490,8 toneladas.

Recorde em 2020

Desde 2019, Mato Grosso do Sul registra aumento no número de ações, o que resultou no recorde em 2020, com a apreensão de 759,5 toneladas.

Como os dados foram enviados pela Sejusp ao MJSP, não há a consideração das apreensões de drogas feitas por órgãos federais, como a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a Polícia Federal (PF). 

O Correio do Estado entrou em contato com ambas as instituições para apurar o volume de drogas apreendido nos dois últimos anos, no entanto, até o fechamento desta edição, não houve retorno.

Panorama nacional

Somando os dados de todos os outros estados, o Brasil confiscou 1,6 mil toneladas de droga no ano passado, sendo Paraná e Mato Grosso do Sul responsáveis por cerca de 990 toneladas, mais precisamente 61,87% do total.

Para se ter ideia do tamanho da influência dos dois estados nesse quesito, o País apresentou uma média diária de 4,4 toneladas de drogas apreendidas no ano passado, sendo Mato Grosso do Sul responsável por 1,16 tonelada e o estado sulista, por 1,5 tonelada.

Apreensão de cocaína realizada pela PRF em Terenos

Incongruência

Mesmo que enviados pela Sejusp, os dados disponíveis no painel do MJSP são levemente diferentes dos apresentados no portal da secretaria.

A maior diferença ocorre no volume apreendido de maconha, com 584,9 toneladas interceptadas em 2024 e 546,7 toneladas no ano passado. Mesmo assim, a redução se mantém, mas menor que a encontrada no painel.

Já os números da cocaína são mais parecidos, mas ainda com uma leve diferença, com 14,7 toneladas em 2025 e 17,8 toneladas em 2024, novamente com queda nos índices.

Destaque

No dia 28 de agosto de 2025, o Departamento de Operações de Fronteira (DOF) apreendeu mais de 15 toneladas de maconha que estavam escondidas em uma carga de milho no interior do Estado.

Conforme divulgado, os militares realizavam patrulhamento pela rodovia MS-386, entre os municípios de Amambai e Ponta Porã, quando avistaram uma carreta Volvo que seguia no sentido contrário e fizeram o retorno para abordá-la.

No decorrer da entrevista, o motorista de 52 anos afirmou aos policiais que havia pegado a carga em Ponta Porã e tinha como destino a cidade de Canoinhas (SC). Porém, na vistoria, foram encontrados diversos fardos de maconha, que totalizaram 15.315 quilos.

Questionado pelos militares, o homem disse que tinha pegado a carga carregada na fronteira e que receberia R$ 50 mil caso conseguisse concluir a missão de entregar a droga no município catarinense. 

O prejuízo estimado ao crime foi de aproximadamente R$ 31 milhões e a droga foi encaminhada à Delegacia Especializada em Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron), em Dourados. Essa foi a maior apreensão de maconha no ano passado realizada pelo departamento.

De acordo com o publicado, no fim do ano passado, o DOF foi responsável pela segunda maior marca histórica de drogas apreendidas desde a criação do departamento, com 196,5 toneladas, superando o ano de 2021, quando foram apreendidas 195,03 toneladas de entorpecentes.

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MATO GROSSO DO SUL

MPF investiga Coca-Cola por uso indevido de imagem de indígenas

Indígenas da etnia terena e kinikinau de Mato Grosso do Sul aparecem, segundo o MPF, em processo de certificação internacional da Coca-Cola de Campo Grande

28/01/2026 09h00

Unidade da Coca-Cola Femsa em Campo Grande é alvo de investigação do Ministério Público Federal

Unidade da Coca-Cola Femsa em Campo Grande é alvo de investigação do Ministério Público Federal Gerson Oliveira

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A fábrica da Coca-Cola em Campo Grande, de propriedade da multinacional mexicana Femsa, está sendo investigada pelo Ministério Público Federal (MPF) por se apropriar indevidamente de imagens e da identidade cultural das etnias indígenas kinikinau e terena, que teriam sido usadas com o objetivo de obter uma certificação internacional sobre uso sustentável da água.

Nesta segunda-feira, a Procuradoria da República em Mato Grosso do Sul publicou a portaria que instaura procedimento administrativo para acompanhar o processo de certificação internacional Alliance for Water Stewardship (AWS) da planta de Campo Grande da empresa Coca-Cola Femsa Brasil, que está em andamento.

De acordo com a publicação assinada pelo procurador Luiz Eduardo Camargo Outeiro Hernandes, a ofensiva do órgão ocorre “em razão da notícia de suposta apropriação indevida da imagem e da identidade cultural de povos indígenas das etnias kinikinau e terena”.

Na argumentação, o procurador cita que foram encaminhados ofícios à Coca-Cola e à Coordenação Regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Campo Grande, para que fossem repassadas mais informações sobre o caso.

Em resposta, a Spal Indústria Brasileira de Bebidas S.A., a razão social da Coca-Cola Femsa, afirmou que segue um padrão de certificação da AWS e que “o engajamento e o diálogo contínuo com diversas partes interessadas” fazem parte das ações para conquistar a aliança.

“Foram também convidados a participar de uma dessas reuniões dois líderes das comunidades indígenas kinikinau e terena, a fim de que fossem informados a respeito das atividades da empresa, seus impactos, seu plano de uso sustentável da água e os critérios de certificação AWS”, afirmou a empresa ao MPF.

Ainda, foi determinado que seja encaminhado um novo ofício à empresa para que, dentro de 10 dias, manifeste-se sobre a atual situação da certificação e confirme se houve um novo encontro com os líderes e membros das comunidades indígenas citadas, além da reunião em agosto do ano passado.

Por fim, o procurador determina que a tramitação do instrumento deve durar por um ano. 

O Correio do Estado entrou em contato com a Coca-Cola Femsa Brasil para obter mais informações acerca do andamento do processo de certificação internacional e se há posicionamento da empresa diante da instauração do procedimento administrativo e da acusação de apropriação cultural, porém, até o fechamento desta edição, não houve retorno.

Vale destacar que a Constituição e o Código Penal Brasileiro afirmam que a apropriação indevida de imagem pode ser caracterizada como crime em casos mais graves. Contudo, a apropriação cultural não é tipificada como crime em nenhum dos dois instrumentos que regem as leis e normas do País.

AWS

Conforme consta no portal oficial da certificação, a AWS é uma aliança global com múltiplos membros e um padrão internacional para o uso responsável da água, com o objetivo de promover e estimular ações em prol da gestão responsável da água. Hoje, fazem parte da AWS mais de 200 membros dos setores empresarial e público e da sociedade civil.

Nos últimos dois anos, nove unidades da Coca-Cola Femsa na América Latina receberam a certificação: Apizaco, Morelia, San Cristóbal de las Casas, Ojuelos, Pacífico e Toluca, no México; Tocancipá, na Colômbia; Manágua, na Nicarágua; e Mogi das Cruzes, no Brasil.

Segundo dados disponibilizados pela empresa, em 2024, a franquia atingiu a meta intermediária de 1,36 litro de água por litro de bebida produzida e tem o objetivo de baixar esse número para 1,26 litro por litro de bebida neste ano.

Inclusive, a Coca-Cola Femsa diz que o objetivo das ações de reabastecimento de água é “desenvolver soluções inovadoras e estabelecer parcerias para melhorar o acesso à água a longo prazo nas comunidades onde atua”, justamente o que teria causado esse imbróglio entre os povos indígenas e a empresa.

No site da AWS, é possível verificar que o processo de certificação da fábrica em Campo Grande está em andamento, mas, até o momento, não há mais informações disponíveis.

Kinikinau e Terena

Os indígenas kinikinau, que também são chamados de kinikinawa, vivem atualmente em diversas cidades do Estado, como Aquidauana (Bananal e Limão Verde), Miranda (Cachoeirinha e Lalima) e Nioaque (Água Branca e Brejão). Porém, é na aldeia São João, ao sudeste da Reserva Indígena Kadiwéu, no município de Porto Murtinho, onde está concentrada a maior parte do povo.

Já os terena são a segunda maior etnia indígena de Mato Grosso do Sul, com 42.492 pessoas que se declararam parte do povo, segundo o último Censo, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Atualmente, vivem nas cidades de Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque, Rochedo, Dourados e Porto Murtinho.

Saiba

Unidade produz e distribui várias marcas:

Além das de produzir bebidas das marcas Coca-Cola, como o refrigerante de mesmo nome e Crystal, Fanta, Sprite, Kuat, Schweppes, Del Valle, Kapo, Matte Leão, Ades, Powerade e Monster Energy Drink, a Coca-Cola Femsa Brasil também distribui bebidas alcoólicas, como Johnnie Walker, Tanqueray, Campari, Smirnoff, Sagatiba e Vodka Sky. Doces e guloseimas também são distribuídos pela empresa.

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