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A crise silenciosa da saúde mental no mundo do trabalho

Entre as doenças mentais relacionadas ao trabalho, a síndrome de burnout se destaca como um dos retratos mais evidentes deste cenário

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Janeiro Branco é uma campanha dedicada à conscientização sobre a saúde mental, convidando a sociedade a refletir quanto ao cuidado com as emoções, ao equilíbrio psicológico e à prevenção de transtornos mentais.

Mais do que um movimento simbólico, trata-se de um chamado à ação. No mundo do trabalho, essa discussão se impõe com ainda mais urgência, pois torna-se cada vez mais evidente que o trabalho, da forma como muitas vezes é organizado, pode adoecer.

O aumento expressivo dos afastamentos previdenciários por adoecimento mental no Brasil não é um fenômeno isolado nem passageiro. Ele revela uma crise silenciosa que atravessa empresas, instituições públicas e relações laborais.

O sofrimento psíquico deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano de milhares de trabalhadores submetidos a jornadas excessivas, metas inalcançáveis, cobrança permanente por desempenho, insegurança profissional e ambientes marcados por assédio moral e ausência de reconhecimento.

Entre as doenças mentais relacionadas ao trabalho, a síndrome de burnout se destaca como um dos retratos mais evidentes deste cenário.

Caracterizada por esgotamento físico e emocional, sensação de incapacidade, irritabilidade, ansiedade e perda de sentido em relação à atividade profissional, o burnout não é resultado de fragilidade individual, mas consequência direta de modelos de gestão que priorizam resultados a qualquer custo, ignorando limites humanos básicos.

Reconhecer que a saúde mental é impactada pelas condições de trabalho não é apenas uma questão social ou ética, é também uma obrigação legal.

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), já em vigor, reforça o dever das empresas de identificar, avaliar e gerenciar riscos ocupacionais, incluindo os chamados riscos psicossociais.

Isso significa que fatores como pressão excessiva, sobrecarga, assédio e organização inadequada do trabalho devem ser tratados com a mesma seriedade dispensada aos riscos físicos, químicos ou ergonômicos.

A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é clara ao atribuir ao empregador a responsabilidade pela preservação de um ambiente de trabalho saudável e seguro.

O cuidado com a saúde mental dos trabalhadores não é uma liberalidade empresarial, mas parte integrante do dever legal de proteção. Ignorar esse aspecto é fechar os olhos para uma realidade que cobra um preço alto, tanto humano quanto econômico.

Apesar dos avanços normativos, persiste um problema estrutural: a subnotificação das doenças mentais relacionadas ao trabalho. Em muitos casos, o adoecimento psíquico não é reconhecido como ocupacional por dificuldades na identificação do nexo causal.

O sofrimento é frequentemente tratado como questão individual, rotulado como ansiedade ou depressão desconectadas do contexto laboral, quando, na prática, decorre diretamente da forma como o trabalho é organizado e imposto.

Essa subnotificação gera impactos profundos. Ela impede a adoção de medidas preventivas eficazes, priva trabalhadores de direitos previdenciários e trabalhistas e perpetua práticas empresariais nocivas à saúde mental coletiva.

O silêncio institucional transforma o adoecimento em rotina e naturaliza o sofrimento como parte do “preço a pagar” pela produtividade.

Os dados reforçam a gravidade do quadro. Informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgadas em setembro do ano passado, indicam que mais de um bilhão de pessoas vive com transtornos mentais em todo o mundo, sendo a ansiedade e a depressão as condições mais prevalentes.

No Brasil, o Ministério da Previdência Social registrou, em 2024, a concessão de 472 mil licenças por adoecimento mental, o que configura um aumento de 68% em relação ao ano anterior.

Em 2025, dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam crescimento ainda mais alarmante: os afastamentos por transtornos mentais aumentaram 143%.

Entre os benefícios por incapacidade temporária, depressão e ansiedade lideram as concessões, somando quase meio milhão de casos, o maior número registrado, em pelo menos, uma década.

Esses números não refletem apenas estatísticas previdenciárias; revelam histórias de vidas interrompidas, carreiras fragilizadas e famílias impactadas.

O Janeiro Branco nos lembra que cuidar da saúde mental não é luxo, nem tendência passageira, é necessidade urgente.

Reconhecer que o trabalho pode adoecer é o primeiro passo para transformar relações laborais, rever modelos de gestão e construir ambientes mais humanos, saudáveis e responsáveis. Produzir não pode significar adoecer. Ignorar isso não é apenas injusto, é insustentável.

EDITORIAL

Ponte avança; acesso preocupa

A falta de atualizações claras sobre o andamento da alça de acesso alimenta o temor de novos atrasos em um projeto que já levou tempo demais para sair do papel

12/02/2026 07h15

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Temos noticiado, tanto em nosso portal quanto nesta edição impressa, que a ponte sobre o Rio Paraguai, ligando Porto Murtinho, no Brasil, a Carmelo Peralta, no Paraguai, está muito próxima de ser concluída.

A imagem é simbólica: duas frentes de trabalho avançam, cada uma a partir de uma margem, separadas agora por pouco mais de 100 metros. Quando esses trechos se encontrarem, não será apenas concreto que se unirá, mas dois países e um projeto de integração aguardado há décadas.

A ponte é peça central da Rota Bioceânica, sonho antigo de integração logística entre o Centro-Oeste brasileiro e os portos do Pacífico.

No entanto, enquanto a estrutura principal avança de forma visível, há um silêncio preocupante em torno de outra etapa igualmente estratégica: a alça de acesso sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

Trata-se de obra complexa, que não se resume a um simples acesso viário, mas inclui a implantação de uma grande alfândega, fundamental para o funcionamento pleno do corredor internacional.

Sem a alça e sem a estrutura aduaneira operando adequadamente, a ponte perde parte relevante de sua utilidade prática. Logística não se faz apenas com grandes marcos de engenharia; depende de conexões eficientes, sistemas integrados e planejamento detalhado.

A falta de atualizações claras sobre o andamento dessa etapa gera apreensão e alimenta o temor de novos atrasos em um projeto que já levou tempo demais para sair do papel.

Infelizmente, quando o assunto é infraestrutura logística, o Brasil – e boa parte da América Latina – carrega um histórico de morosidade. Projetos estratégicos enfrentam entraves burocráticos, indefinições orçamentárias e lentidão administrativa.

O resultado é previsível: regiões inteiras aguardam anos, às vezes décadas, para se integrar plenamente às rotas comerciais globais, perdendo competitividade e oportunidades de desenvolvimento.

Temos inegável valor como povo, capacidade técnica e potencial produtivo. Evoluímos em diversos aspectos institucionais e administrativos, mas ainda precisamos perseguir a eficiência com mais determinação. Grandes obras exigem não apenas vontade política inicial, mas constância, transparência e rigor na execução.

Se, por um lado, é lamentável qualquer atraso adicional na consolidação da Rota Bioceânica, por outro, é prudente aproveitar esse tempo para nos prepararmos melhor. A nova rota trará fluxo de cargas, pessoas e riquezas, mas também desafios.

Reforçar as forças de segurança, estruturar serviços públicos e aprimorar a infraestrutura ao longo de todo o trajeto é medida de responsabilidade. Que a ponte, ao finalmente unir suas duas pontas, encontre também um país mais preparado para atravessá-la com eficiência e visão de futuro.

ARTIGOS

O centro político e a engenharia silenciosa de Gilberto Kassab

Entre esses dois pólos, entretanto, abre-se um espaço político relevante: o eleitorado que rejeita tanto o lulopetismo quanto o bolsonarismo

11/02/2026 07h45

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A eleição presidencial deste ano começa a se desenhar sob o signo de uma polarização já conhecida. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; de outro, o senador Flávio Bolsonaro, apresentado como herdeiro político de Jair Bolsonaro, hoje inelegível e preso por crimes relacionados a tentativa de ruptura institucional.

Entre esses dois pólos, entretanto, abre-se um espaço político relevante: o eleitorado que rejeita tanto o lulopetismo quanto o bolsonarismo.

É nesse terreno intermediário – frequentemente chamado de centro (não raro, envolve partidos do Centrão), ainda que heterogêneo – que ganha destaque a atuação de Gilberto Kassab, presidente do Partido Social Democrático (PSD).

Diferentemente de líderes carismáticos ou mobilizadores de massas, Kassab construiu sua força política por meio de uma habilidade rara no sistema partidário brasileiro: a capacidade de organizar, atrair e manter coesas lideranças diversas, sem recorrer a uma identidade ideológica rígida.

A recente filiação de Ronaldo Caiado ao PSD, somando-se a Ratinho Júnior e Eduardo Leite, evidencia essa estratégia. O partido passa a abrigar três nomes com densidade eleitoral e perfis distintos, todos potencialmente presidenciáveis.

Ao afirmar que é “zero” a chance de o PSD não lançar candidato à Presidência, Kassab sinaliza menos uma decisão personalista e mais uma lógica de maximização de possibilidades num cenário altamente fragmentado.

Essa forma de atuação não se ancora em discursos redentores nem em promessas de ruptura. Ao contrário, baseia-se na mediação, no cálculo político e na ocupação estratégica do espaço institucional.

Em um ambiente marcado pela exaustão do confronto binário, essa racionalidade pragmática passa a dialogar com um eleitorado que busca previsibilidade, governabilidade e redução de conflitos.

Os números ajudam a explicar essa centralidade. O PSD conta hoje com 14 senadores, 47 deputados federais e se tornou, nas eleições municipais de 2024, o partido com maior número de prefeituras conquistadas, saltando de 657 em 2020 para cerca de 887 municípios.

Trata-se de uma capilaridade territorial expressiva, somada à capacidade de atrair quadros competitivos de outras legendas. Em entrevistas recentes, Kassab tem sustentado que o eleitorado brasileiro tende a se dividir, grosso modo, em três terços: um alinhado a Lula, outro a Bolsonaro, e um terceiro que se distancia de ambos.

É justamente nesse último segmento que o PSD aposta, não como movimento ideológico, mas como plataforma política capaz de oferecer alternativas viáveis em um sistema saturado de antagonismos.

A indefinição sobre quem será o candidato presidencial do partido, longe de sinalizar fragilidade, pode ser lida como parte da estratégia.

Ela permite ao PSD retirar votos dos polos mais radicalizados no primeiro turno e, ao mesmo tempo, posicionar-se como ator central em eventuais arranjos de segundo turno – seja liderando uma candidatura, seja tornando-se parceiro decisivo em uma coalizão.

Em um país polarizado e com lideranças personalistas, a engenharia silenciosa de Kassab – pouco carismática, mas altamente funcional – pode mudar substantivamente o quadro eleitoral deste ano. Sigamos 
acompanhando.

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