Artigos e Opinião

EDITORIAL

A motocicleta que substitui o ônibus

Uma cidade como Campo Grande, que perde passageiros no transporte coletivo e ganha motociclistas, precisa, no mínimo, perguntar para onde está indo

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O transporte público de Campo Grande está sob intervenção e, sob a máxima de que “pior do que está, não fica”, a tendência é de que a prestação do serviço melhore até o fim do ano. É preciso, contudo, olhar para além da qualidade dos ônibus, dos horários e das condições oferecidas aos passageiros.

Existe uma mudança no modo como os campo-grandenses se deslocam que merece a atenção.

Não há um estudo específico para estabelecer uma correlação, mas basta sair de Campo Grande e transitar por outras cidades do Centro-Oeste, do Sul ou do Sudeste que são de porte semelhante para perceber uma diferença evidente: o volume de motocicletas circulando na Capital é muito alto.

E as motos não são utilizadas apenas por motoboys e motoentregadores. Para uma parcela significativa da população, elas se tornaram o principal meio de deslocamento para o trabalho, algo que, em cidades de porte semelhante, costuma ser absorvido em maior medida pelo transporte coletivo.

Há uma razão bastante simples para isso. A motocicleta oferece liberdade de deslocamento, não depende de horários, permite escapar dos congestionamentos e, na maioria das vezes, leva o usuário mais rapidamente ao destino. Para quem precisa trabalhar e cumprir horários, são vantagens difíceis de ignorar.

O problema é o preço dessa liberdade. O volume de passageiros transportados pelo sistema de transporte coletivo de Campo Grande vem caindo nos últimos anos, mês após mês.

O movimento é um indício de que o campo-grandense está deixando o ônibus e escolhendo a motocicleta. Não se pode afirmar, sem um estudo específico, que uma coisa seja consequência direta da outra. Mas os números e a realidade das ruas sugerem uma mudança que não deveria passar despercebida.

A motocicleta pode ser mais rápida e conveniente. Também é muito mais vulnerável no trânsito. A dimensão desse risco pode ser observada nesta semana. Quatro pessoas morreram no trânsito de Campo Grande e, em todos os casos, as vítimas estavam em motocicletas.

Uma parcela significativa dos moradores parece aceitar essa espécie de roleta-russa para conseguir se deslocar pela cidade. Não se trata de condenar quem escolhe a motocicleta. Muitas vezes, é uma decisão econômica e prática.

A questão é entender por que tantas pessoas estão fazendo essa escolha e quais consequências ela produz para a cidade.

Temos, nesta edição, uma reportagem que analisa justamente esse fenômeno. O transporte coletivo perde passageiros, as motocicletas ganham espaço e os acidentes envolvendo os seus condutores continuam produzindo mortes.

O que ainda não sabemos é se as autoridades estão olhando para esse movimento com a atenção que ele merece.

Melhorar o transporte coletivo é fundamental. Mas talvez já não seja o suficiente. É preciso entender por que o cidadão está abandonando o transporte coletivo, quais condições poderiam fazê-lo voltar e como reduzir o número de pessoas que precisam colocar a vida em risco para chegar ao trabalho.

ARTIGOS

Canetas emagrecedoras, perda de peso e a derrota da Educação Física

Desenvolvidas para tratar doenças metabólicas ao atuarem em hormônio que regula a glicose e a saciedade, as canetas entraram de vez também no universo da estética

30/09/2026 07h20

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Muito além de moldar corpos por meio de uma acelerada perda de peso, os medicamentos que imitam a ação do hormônio GLP-1, ou as tão conhecidas canetas emagrecedoras, também estão moldando novos comportamentos na saúde pública.

Desenvolvidas para tratar doenças metabólicas ao atuarem neste hormônio que regula a glicose e a saciedade, as canetas entraram de vez também no universo da estética.

O que temos experenciado é uma grande transformação cultural, em que o atalho químico rouba a atenção e a prática de atividade física, que a ciência há tanto tempo nos evidencia a relevância, tem sido cada vez mais deixada de lado por pessoas das mais diferentes faixas etárias.

O novo comportamento se consolida como tendência e nos traz a necessidade de uma reflexão mais profunda.

A busca e manutenção da saúde em seu aspecto mais amplo cede lugar para a perda de peso, que passa a ser o ponto focal. Nesse contexto, a promessa de um corpo mais magro que exigia meses de disciplina, encontra o sucesso no atalho viabilizado por algumas aplicações semanais do medicamento.

Nessa reflexão, é primordial ressaltar desde o início que ela não suscita um enfrentamento, um combate à medicina. O avanço da indústria farmacêutica viabiliza recursos adicionais e cada vez mais assertivos para tratamentos complexos, como é o caso da obesidade severa e distúrbios metabólicos.

A questão, assim, se coloca não sobre o fármaco, mas a quem recorre ao atalho químico em vez de buscar não só a mudança do corpo, mas de hábitos saudáveis para a vida.

Para quem atua na Educação Física, este é um sinal de alerta, uma possível falha na tentativa de tornar as pessoas apaixonadas pelo movimento do corpo.

É verdade que grande parte do público que busca as canetas o faz motivado pela rapidez do resultado estético, mas também porque a Educação Física convencional e a prática de atividade física por ela proporcionada deixou de ser percebida como uma ação legítima de saúde e bem-estar.

Não podemos negar que a academia, infelizmente, ainda não é vista pelo público geral como um local unânime.

Para muitos, ela é tida como pouco acolhedora, um ambiente massificado, com séries repetitivas, pouca escuta individual e um foco excessivo num ideal estético em vez da longevidade funcional e da qualidade de vida.

Os exercícios físicos ministrados nas academias têm sido “vendidos” como o meio para queimar calorias e se alcançar o ideal estético. Quando há essa conotação, a comparação com o resultado possível por meio do medicamento que virou objeto de desejo de tantas pessoas é inevitável.

A concorrência é fortíssima. Por isso, é urgente e necessário que a Educação Física se reinvente, resgate o seu papel relevante de fomentadora da saúde e volte a mostrar para a população toda a sua potência e todo o seu benefício.

Como fazer essa tarefa? É preciso ressignificar a atividade física, hoje muito vista como um meio com finalidade estética e trazê-lo novamente como um recurso essencial para quem deseja uma vida longa e de qualidade.

Mais do que perda de peso, a prática de atividade física, principalmente conduzida por profissionais capacitados e interessados, promove benefícios que a picada da caneta não consegue promover: massa muscular, densidade óssea, melhor coordenação motora e autonomia física, itens diretamente relacionados à longevidade, saúde e bem-estar.

Não se trata de lutar contra. A medicina e a indústria farmacêutica evoluem e isso representa uma grande notícia. As canetas emagrecedoras vieram para ficar e até que a ciência não revele efeitos colaterais de longo prazo, seguirão como desejo de muitas pessoas.

Contudo, cabe aos profissionais da Educação Física reverem suas formas de atuação e passarem a oferecer uma nova experiência de movimento, que ajude as pessoas a encontrar prazer ao fazê-lo.

Ao alcançar esse ponto, a prática de atividade física deixa de ser um meio estético e passa a ser considerada pelo praticante uma ação essencial e presente para uma vida saudável, algo que nenhum remédio poderá substituir.

EDITORIAL

Adolescência mais violenta nas escolas

Cabe à sociedade decidir se continuará só assistindo às imagens depois que a violência aconteceu ou se será capaz de construir mecanismos para evitar que elas aconteçam

30/09/2026 07h15

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Nesta edição, mostramos mais um caso de violência nas escolas. Brigas entre estudantes não são novidade. A adolescência, por característica, sempre foi marcada por conflitos, disputas e episódios de agressividade. Não se trata, portanto, de afirmar que a violência escolar nasceu agora.

Não há como negar, contudo, que o problema parece ter se agravado. Ou, ao menos, que hoje conseguimos enxergá-lo com uma clareza que não existia no passado.

Os celulares, presentes nas mãos de praticamente todos os adolescentes, registram as agressões e fazem com que imagens de brigas, ameaças e violência circulem rapidamente. Aquilo que antes ficava restrito aos muros da escola agora pode ser visto por milhares de pessoas.

Mas não são apenas as imagens que mudaram. As brigas parecem estar mais intensas e mais sangrentas. Em uma escola de Campo Grande, um estudante esfaqueou o outro.

E, conforme mostramos na reportagem desta edição, são mais de 500 episódios dessa natureza registrados anualmente. É um número que não pode ser tratado como parte inevitável da adolescência.

Nesta semana, já havíamos mostrado outro aspecto preocupante dessa realidade: a violência que ocorre nas redes sociais. A agressão que começa no ambiente escolar pode continuar no celular, assim como conflitos virtuais podem chegar à escola. Os dois mundos, na prática, não estão mais separados.

Já defendemos aqui que é necessário haver maior controle nas redes sociais para impedir que estas sejam utilizadas como espaço para violência, ameaças e práticas criminosas.

Da mesma forma, as escolas precisam ter mecanismos mais rigorosos para prevenir agressões, identificar conflitos e agir antes que eles terminem em violência física.

Mas há um terceiro ambiente que não pode ser esquecido: a família. O rigor que se espera das plataformas e das escolas precisa começar, na medida do possível, dentro de casa.

Pais e responsáveis precisam acompanhar a vida dos filhos, saber com quem eles convivem, o que fazem na internet, quais conflitos enfrentam e quais comportamentos estão apresentando. Infelizmente, essa responsabilidade tem se perdido em muitas famílias.

Sabemos que uma parcela significativa de crianças e adolescentes vive em famílias desestruturadas ou sem a presença adequada de seus responsáveis.

Não se trata de ignorar essa realidade nem de atribuir toda a culpa aos pais. Trata-se de reconhecer que, quando a família deixa de cumprir seu papel de orientação, proteção e estabelecimento de limites, outras instituições acabam sendo obrigadas a preencher esse espaço.

E nenhuma delas conseguirá fazer isso sozinha. A escola educa, mas não substitui a família. A polícia reprime o crime, mas não pode ensinar limites dentro de cada casa. As redes sociais podem ser reguladas, mas não conseguem acompanhar cada conversa que um adolescente mantém.

Por isso, precisamos agir de maneira mais comunitária. Família, escola, Estado e sociedade precisam reconhecer que a violência entre adolescentes não é um problema isolado de quem aparece nas imagens de uma briga. É uma questão que diz respeito a todos.

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