Artigos e Opinião

EDITORIAL

A nova fronteira da celulose em MS

O potencial já é grande; o desafio, agora, é transformar essa projeção em um modelo de desenvolvimento duradouro e inclusivo. O futuro é promissor e podemos ser protagonistas

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Nesta edição mostramos que, em um período de 10 anos, Mato Grosso do Sul se tornará o maior produtor de celulose do Brasil. Trata-se de uma excelente notícia no médio e longo prazo, que enche todos nós, que vivemos o presente, de esperança. É a confirmação de que o Estado ocupa, de forma definitiva, um lugar de destaque na indústria de base florestal e de que a economia sul-mato-grossense caminha para se tornar ainda mais diversificada e sustentável.

Mas, até que esse cenário se concretize, há muito por ser feito. As grandes transformações econômicas não se sustentam apenas em anúncios de investimentos bilionários, por mais expressivos que sejam. Elas dependem, sobretudo, de preparo, planejamento e capacitação das pessoas que vão transformar as promessas em realidade.

Em primeiro lugar, é preciso investir de forma sistemática na qualificação da mão de obra. As fábricas que estão sendo erguidas e aquelas que entrarão em operação na próxima década exigem trabalhadores preparados, tanto para a construção quanto para a operação dos complexos industriais. Que elas gerarão empregos, disso não há dúvida. Mas a questão é: para quem serão esses empregos? Para os que já estão aqui ou para os que migrarão de outros estados para ocupar as vagas abertas? É hora de garantir que os sul-mato-grossenses tenham prioridade, e isso só será possível com investimento em educação técnica, Ensino Superior e formação continuada.

Ao mesmo tempo, o Estado precisa ir além. É necessário colocar universidades e centros de pesquisa a serviço do setor e chamar o empresariado local para participar de projetos de inovação. Se temos o parque industrial, por que não desenvolver também os produtos que saem dele?
É urgente fortalecer laboratórios e programas de pesquisa para desenvolver novos compostos a partir da celulose, que já é matéria-prima para segmentos tão diversos quanto o têxtil, o farmacêutico e o alimentício.

Da mesma forma, é essencial investir em produtividade: o eucalipto sul-mato-grossense é um dos mais produtivos do mundo, mas ainda há espaço para aprimorar o manejo, reduzir impactos ambientais e agregar valor às florestas plantadas.

Além disso, há um efeito transformador que já pode ser sentido. O chamado Vale da Celulose vem mudando a paisagem do nordeste do Estado, onde milhões de hectares de pastagens degradadas foram convertidos em florestas plantadas. Essa reconversão de uso da terra, feita de forma planejada e tecnicamente orientada, é um exemplo de como o desenvolvimento industrial pode andar junto com a recuperação ambiental e com a revalorização de regiões que antes estavam esquecidas.

Com esses passos, Mato Grosso do Sul tem a chance de consolidar não apenas uma liderança produtiva, mas também tecnológica, ambiental e social. O potencial já é grande; o desafio, agora, é transformar essa projeção em um modelo de desenvolvimento duradouro e inclusivo. O futuro da celulose é promissor, e o Estado tem todas as condições de ser o protagonista nessa nova fronteira.

ARTIGOS

Quando a fome tem pressa: o que está acontecendo com as crianças em Madagascar, e nós com isso?

Nos centros nutricionais da Fraternidade Sem Fronteiras (FSF), crianças entre 1 e 5 anos chegam todos os dias em estado severo de desnutrição

26/03/2026 07h45

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Há realidades que desafiam qualquer tentativa de compreensão. Não pela falta de dados – eles existem –, mas pela dificuldade de aceitarmos que, em pleno século 21, ainda há crianças lutando diariamente para sobreviver por falta de algo tão essencial quanto o alimento.

No sul de Madagascar, essa não é uma exceção. É rotina.

Nos centros nutricionais da Fraternidade Sem Fronteiras (FSF), crianças entre 1 e 5 anos chegam todos os dias em estado severo de desnutrição. Algumas, com apenas um ano de idade, pesam menos de 3 quilos. Corpos frágeis, olhares silenciosos e uma urgência que não pode esperar.

A média é de 15 novas crianças por dia buscando atendimento. Não há fila organizada, nem sistema de agendamento. Há presença. Há insistência. Há famílias que caminham até onde podem, todos os dias, na esperança de encontrar cuidado para seus filhos.

Hoje, mais de 5 mil crianças em estado grave recebem tratamento nutricional especializado – com fórmulas, medicação, soro e acompanhamento contínuo. Outras 11 mil são alimentadas diariamente nos 14 centros nutricionais da organização.

Mas o cenário se agrava.

Sem chuvas há cerca de dois meses, a escassez de alimentos se intensificou. O que era vulnerabilidade tornou-se emergência. Muitas dessas crianças começaram a ser atendidas em 2024. Em 2025, o número cresceu. Agora, cresce ainda mais – dia após dia.

Diante disso, uma pergunta inevitável surge, quase como um incômodo necessário: quanto custa, hoje, sustentar conflitos ao redor do mundo? Quanto custa um míssil, um drone, uma bomba?

Porque, na mesma medida, um único dia de guerra poderia levar alimento, educação e dignidade para centenas de comunidades extremamente pobres. Poderia mudar histórias inteiras – como as que hoje lutam silenciosamente para continuar existindo.

Enquanto essa conta não fecha, há quem escolha agir.

A Fraternidade Sem Fronteiras atua como ponte – conectando pessoas que desejam ajudar iniciativas sérias, que estão no território, fazendo o que é possível com o que têm. Não se trata apenas de assistência, mas de confiança: no trabalho local, na dedicação de quem cuida, na força de pequenas ações contínuas.

Há uma frase que orienta esse trabalho e que, talvez, resuma o momento com precisão:

“Enquanto o sol não vem, acendemos uma vela na escuridão”.

No sul de Madagascar, essa vela hoje tem nome, tem rosto – e tem urgência.

E, sobretudo, depende de quantos estão dispostos a mantê-la acesa.

ARTIGOS

Janela (porta) partidária fidelidade

Com duração de 30 dias, neste ano será até o dia 3 de abril, e está disponível apenas para os deputados federais, estaduais e distritais

26/03/2026 07h30

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A chamada “janela partidária” – regulamentada pela legislação eleitoral, Lei nº 13.165/2015, e ainda pela EC nº 91/2016 – é na verdade “uma porta” para a troca partidária.

Após a decisão do TSE de que o mandato pertence ao partido, e não ao candidato eleito, estabeleceu-se um novo momento para aqueles que, sem qualquer tipo de pudor, se elegessem por um partido e ao fim de cada mandato fizessem um verdadeiro périplo pelas demais agremiações.

Fora desse momento chamado de “janela”, mas que a bem da verdade se trata de uma porta, porque não exige qualquer esforço ou justificativa para a mudança de sigla, a desfiliação partidária exige comprovada “justa causa”, conforme preceitua o art. 22-A, caput, da Lei nº 9096/95.

Destaque-se que a mencionada “janela” tem duração de 30 dias – neste ano até o dia 3 de abril – e está disponível apenas para os deputados federais, estaduais e distritais.

Uma pergunta cabível é: a fidelidade partidária é mesmo necessária? Responder se afigura algo um tanto complexo porque vivemos em um país em que a “fidelidade”, em toda extensão da palavra, é algo que rememora compromisso, cumprimento de obrigações, lealdade ou ainda simplesmente “ser fiel”.

Assim, como estamos falando de políticos detentores de mandatos eletivos, essa “fidelidade” deveria ser muito mais direcionada ao relacionamento entre o eleitor e o eleito, porque o primeiro é o único a possibilitar o ingresso do segundo no mandato.

De nada adianta o partido, seu programa, se não houver o eleitor para que o sufrágio possa existir, mas a legislação eleitoral, como dito, afirma que o mandato pertence ao partido, exceto quando o exercente desse mandato resolve trocar de partido na citada “janela”.

Neste caso, o mandato deixa de ser do partido por 30 dias. Simples assim.

Voltando ao tema da “janela partidária”, resta claro que acaba por ser uma porta para que os interessados possam, em seus pessoais e exclusivos interesses, procurar uma outra agremiação na qual tenham melhores chances de buscar uma reeleição, em que o chamado Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, denominado Fundo Partidário, e ainda o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) asseguram vultosa quantia (R$ 4,9 bilhões), para partidos, campanhas e eleições, retirada do Orçamento da União e de outras origens.

Estamos a ouvir as mais diversas “justificativas” para o uso da “janela”, mas é importante lembrar que o aval a tais mudanças terá de ser dado pelos eleitores no dia 4 de outubro, primeiro turno, e no dia 25 de outubro, o segundo.

Temos então, como eleitores, a responsabilidade, se eleito/reeleito o nosso candidato, de o acompanhar no exercício do mandado, e mais, temos o dever de exigir fidelidade ao nosso voto, ainda que uma possível justa causa possa advir e que uma nova “janela” um dia vá se abrir.

A novidade das próximas eleições se refere à data da posse do presidente eleito, que acontecerá em 5 de janeiro de 2027, e dos governadores eleitos, no dia seguinte.

Enfim, essa verdadeira porta está quase a fechar e são grandes os movimentos de mudança de partido, e sem dúvidas é um grande “vai e vem” e são conhecidas muitas “verdades” político-partidárias, com muita ênfase nas federações partidárias que se destinam a salvar os chamados partidos nanicos de seu total desaparecimento, ante a chamada cláusula de barreira.

Viveremos neste ano mais um período em que os discursos dos detentores de mandatos eternos serão no sentido de que foram, são e continuarão sendo os melhores, quando, a bem da verdade, deveriam ter a consciência de que a renovação é um dos pilares da democracia e que o continuísmo é retrocesso inquestionável.

Assim, uma reforma política visando não permitir as reeleições reiteradas é necessidade imperiosa, mas difícil, pois quem tem competência para propô-la é exatamente quem não quer deixar que o continuísmo seja interrompido.

A responsabilidade, volto a dizer, é transferida diretamente para cada um de nós, eleitores, que precisamos decidir com nosso voto se reelegeremos aqueles que insistem em transformar mandatos eletivos em profissão.

Como sabemos, para transpor uma janela é preciso mais esforço, já uma porta…

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