Durante décadas, o varejo brasileiro disputou espaço diretamente com outros varejistas. A concorrência acontecia entre supermercados, lojas de departamento, farmácias e, posteriormente, marketplaces e e-commerces.
Hoje, um novo competidor passou a disputar o mesmo orçamento das famílias e ele sequer vende produtos. As plataformas de apostas esportivas, popularizadas como bets, transformaram-se em um dos principais destinos da renda disponível dos brasileiros, alterando significativamente a dinâmica do consumo.
Impulsionadas pela forte presença publicitária, o acesso facilitado via smartphones e a regulamentação do setor, as apostas on-line não são apenas uma opção de entretenimento, elas competem diretamente com despesas que antes eram destinadas ao comércio, ao lazer, à aquisição de bens duráveis e até mesmo à formação de reservas financeiras.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança, segundo o levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aproximadamente R$ 100 bilhões deixaram de circular no varejo brasileiro somente em 2024 para serem direcionados às plataformas de apostas.
Esse montante representa bilhões que deixaram de movimentar supermercados, farmácias, lojas de roupas, eletrodomésticos, restaurantes e inúmeros outros segmentos responsáveis pela geração de emprego e renda.
Antes, quando uma família tinha algum recurso disponível, esse valor costumava ser destinado à compra de um bem durável, à reforma da casa, a uma viagem, ao vestuário, ao lazer ou mesmo à construção de uma reserva financeira.
Hoje, parte desse orçamento passou a alimentar uma economia paralela, baseada na expectativa de retorno rápido e no estímulo constante ao consumo das apostas, e essa mudança de destino do dinheiro afeta muito mais do que o caixa das lojas.
Quando uma compra deixa de acontecer, toda uma cadeia econômica perde movimento.
Fabricantes reduzem pedidos, distribuidores diminuem operações, transportadoras movimentam menos cargas, centros de distribuição operam abaixo da capacidade e pequenas empresas passam a enfrentar mais dificuldades para manter fluxo de caixa e rentabilidade.
O impacto se espalha por diversos setores produtivos e chega, inevitavelmente, ao mercado de trabalho.
O desafio se torna ainda maior porque o varejo passa a enfrentar um concorrente completamente diferente daquele com o qual estava acostumado.
Não se trata mais apenas de oferecer preços competitivos ou melhores condições de pagamento, agora, disputa-se um recurso muito mais escasso: a atenção do consumidor e sua renda disponível.
Mais do que investir em promoções, o varejo precisará fortalecer sua capacidade de gerar valor percebido, construir relacionamentos duradouros, ampliar programas de fidelização e utilizar inteligência de dados para compreender, com maior precisão, as novas prioridades de consumo dos brasileiros.
O varejo brasileiro sempre soube competir entre si, mas o grande desafio desta década será aprender a competir com negócios que sequer fazem parte do comércio tradicional, mas que passaram a disputar exatamente o mesmo dinheiro do consumidor.
Afinal, cada real destinado a uma aposta é, potencialmente, um real que deixa de movimentar a economia produtiva. Essa talvez seja uma das mudanças mais profundas do comportamento de consumo no Brasil, e ignorá-la pode custar muito mais do que perda de vendas.


