Artigos e Opinião

EDITORIAL

Combustíveis: o livre mercado falhou

O ano passado foi marcado por uma queda nos preços da gasolina e do diesel nas refinarias. Expectativa natural de alívio para o consumidor final. Mas o alívio não veio

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O que aconteceu com os combustíveis ao longo do ano passado é digno de uma cobrança mais firme, mais incisiva e mais organizada por parte da sociedade. Não se trata de um debate ideológico nem de uma discussão técnica restrita a especialistas.

Trata-se de algo que afeta diretamente o orçamento das famílias, o custo do transporte, o preço dos alimentos e, em última instância, a inflação que corrói o poder de compra do brasileiro.

Sob o discurso do livre mercado, o que se viu foi um comportamento que passou longe da livre concorrência. As distribuidoras de combustíveis atuaram, na prática, como verdadeiras oligarcas.

Em vez de competir entre si, disputando consumidores por meio de preços mais baixos, optaram por uma postura uniforme, quase cartelizada, que ignorou completamente os sinais do mercado.

O ano de 2025 foi marcado por uma queda considerável nos preços da gasolina e do diesel nas refinarias. Esse dado, amplamente divulgado, criou a expectativa natural de alívio para o consumidor final. Mas o alívio não veio. Nas bombas, os preços se mantiveram praticamente inalterados durante meses.

A diferença entre o valor na origem e o preço cobrado ao motorista serviu apenas para engordar o caixa dos intermediários, em uma distorção que escancarou a fragilidade do discurso da concorrência plena.

Agora, no início deste ano, o cenário se inverte de forma quase automática. Com o aumento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), um tributo estadual, os combustíveis sobem rapidamente. Não há resistência, não há defasagem, não há espera.

O repasse é imediato, como se fosse uma lei natural do setor. É exatamente o oposto do que ocorreu durante todo o ano passado, quando reduções relevantes simplesmente não chegavam ao consumidor.

A situação é, no mínimo, lamentável. Gera a sensação de mãos atadas, de impotência coletiva diante de um mercado que parece funcionar apenas em uma direção.

Quando há espaço para reduzir preços, ele é absorvido. Quando surge qualquer justificativa para aumentar, o repasse é instantâneo.

Diante desse cenário, o que resta ao consumidor é a busca pelo posto mais barato, comparando preços e exercendo, na medida do possível, seu poder de escolha. Ainda assim, trata-se de uma solução individual para um problema estrutural.

O problema, infelizmente, não será resolvido apenas com essa estratégia. Sem fiscalização efetiva, transparência na formação de preços e pressão social consistente, o ciclo tende a se repetir – sempre com a conta final recaindo sobre quem menos pode escolher.

ARTIGOS

A Venezuela e a autodeterminação dos povos

Um reforço da importância de soluções pacíficas, negociadas e baseadas no protagonismo da sociedade venezuelana, que garanta que seu futuro seja decidido por seu próprio povo

09/01/2026 07h45

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A deposição do ditador Nicolás Maduro na Venezuela requer urgente reflexão por parte dos organismos que compõem a Organização das Nações Unidas (ONU), pela forma como esse episódio teve seu desfecho, ou seja, por interferência externa, ferindo os princípios que regem a Carta da ONU no que diz respeito à defesa dos direitos humanos e da democracia, bem como à autodeterminação dos povos.

Eis um tema que reforça a importância de soluções pacíficas, negociadas e baseadas no protagonismo da sociedade venezuelana, garantindo que seu futuro seja decidido por seu próprio povo.

Convém ressaltar que, no contexto latino-americano, a Venezuela é constantemente citada nos debates sobre autodeterminação, especialmente diante de sua crise política, econômica e social nas últimas décadas.

Muito embora seja um país rico em reservas e produção de petróleo, e um dos maiores exportadores do ramo no mundo, o país enfrenta graves dificuldades internas, como inflação elevada, escassez de produtos básicos, migração em massa e conflitos políticos entre governo e oposição.

Tais fatos passaram a preocupar países e organismos internacionais.

Como consequência, sanções econômicas começaram a ser impostas, agravadas pelo reconhecimento de lideranças políticas específicas, fragilizando ainda mais os sistemas administrativos do país.

Ações dessa natureza geram discussões importantes sobre os limites da intervenção externa e até que ponto elas respeitam ou violam o direito do povo venezuelano à autodeterminação.

Importante frisar que defender a autodeterminação, nesse caso, significa reconhecer que as soluções para seus problemas devem partir, prioritariamente, dos venezuelanos.

Compete às lideranças venezuelanas promover diálogos políticos, processos democráticos e o respeito às instituições nacionais. Embora a cooperação internacional possa ser legítima, ela não deve substituir a vontade popular, nem impor modelos políticos ou decisões externas que comprometam a soberania do país.

O caso venezuelano evidencia o desafio de equilibrar a defesa dos direitos humanos e da democracia com o respeito à autodeterminação dos povos. Contudo, o maior problema do país é a corrupção enraizada no cerne do poder.

A deposição do ditador Maduro abre um precedente perigoso a todos os países latino-americanos, diante do uso da força por uma potência como os Estados Unidos, cujo presidente tem demonstrado ao mundo que, aos EUA compete a segurança do planeta Terra, agindo como um líder mundial com plenos poderes para decidir sobre os destinos dos países e dos continentes, sobrepondo-se até mesmo às resoluções da ONU.

ARTIGOS

A crise silenciosa da saúde mental no mundo do trabalho

Entre as doenças mentais relacionadas ao trabalho, a síndrome de burnout se destaca como um dos retratos mais evidentes deste cenário

09/01/2026 07h30

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Janeiro Branco é uma campanha dedicada à conscientização sobre a saúde mental, convidando a sociedade a refletir quanto ao cuidado com as emoções, ao equilíbrio psicológico e à prevenção de transtornos mentais.

Mais do que um movimento simbólico, trata-se de um chamado à ação. No mundo do trabalho, essa discussão se impõe com ainda mais urgência, pois torna-se cada vez mais evidente que o trabalho, da forma como muitas vezes é organizado, pode adoecer.

O aumento expressivo dos afastamentos previdenciários por adoecimento mental no Brasil não é um fenômeno isolado nem passageiro. Ele revela uma crise silenciosa que atravessa empresas, instituições públicas e relações laborais.

O sofrimento psíquico deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano de milhares de trabalhadores submetidos a jornadas excessivas, metas inalcançáveis, cobrança permanente por desempenho, insegurança profissional e ambientes marcados por assédio moral e ausência de reconhecimento.

Entre as doenças mentais relacionadas ao trabalho, a síndrome de burnout se destaca como um dos retratos mais evidentes deste cenário.

Caracterizada por esgotamento físico e emocional, sensação de incapacidade, irritabilidade, ansiedade e perda de sentido em relação à atividade profissional, o burnout não é resultado de fragilidade individual, mas consequência direta de modelos de gestão que priorizam resultados a qualquer custo, ignorando limites humanos básicos.

Reconhecer que a saúde mental é impactada pelas condições de trabalho não é apenas uma questão social ou ética, é também uma obrigação legal.

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), já em vigor, reforça o dever das empresas de identificar, avaliar e gerenciar riscos ocupacionais, incluindo os chamados riscos psicossociais.

Isso significa que fatores como pressão excessiva, sobrecarga, assédio e organização inadequada do trabalho devem ser tratados com a mesma seriedade dispensada aos riscos físicos, químicos ou ergonômicos.

A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é clara ao atribuir ao empregador a responsabilidade pela preservação de um ambiente de trabalho saudável e seguro.

O cuidado com a saúde mental dos trabalhadores não é uma liberalidade empresarial, mas parte integrante do dever legal de proteção. Ignorar esse aspecto é fechar os olhos para uma realidade que cobra um preço alto, tanto humano quanto econômico.

Apesar dos avanços normativos, persiste um problema estrutural: a subnotificação das doenças mentais relacionadas ao trabalho. Em muitos casos, o adoecimento psíquico não é reconhecido como ocupacional por dificuldades na identificação do nexo causal.

O sofrimento é frequentemente tratado como questão individual, rotulado como ansiedade ou depressão desconectadas do contexto laboral, quando, na prática, decorre diretamente da forma como o trabalho é organizado e imposto.

Essa subnotificação gera impactos profundos. Ela impede a adoção de medidas preventivas eficazes, priva trabalhadores de direitos previdenciários e trabalhistas e perpetua práticas empresariais nocivas à saúde mental coletiva.

O silêncio institucional transforma o adoecimento em rotina e naturaliza o sofrimento como parte do “preço a pagar” pela produtividade.

Os dados reforçam a gravidade do quadro. Informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgadas em setembro do ano passado, indicam que mais de um bilhão de pessoas vive com transtornos mentais em todo o mundo, sendo a ansiedade e a depressão as condições mais prevalentes.

No Brasil, o Ministério da Previdência Social registrou, em 2024, a concessão de 472 mil licenças por adoecimento mental, o que configura um aumento de 68% em relação ao ano anterior.

Em 2025, dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam crescimento ainda mais alarmante: os afastamentos por transtornos mentais aumentaram 143%.

Entre os benefícios por incapacidade temporária, depressão e ansiedade lideram as concessões, somando quase meio milhão de casos, o maior número registrado, em pelo menos, uma década.

Esses números não refletem apenas estatísticas previdenciárias; revelam histórias de vidas interrompidas, carreiras fragilizadas e famílias impactadas.

O Janeiro Branco nos lembra que cuidar da saúde mental não é luxo, nem tendência passageira, é necessidade urgente.

Reconhecer que o trabalho pode adoecer é o primeiro passo para transformar relações laborais, rever modelos de gestão e construir ambientes mais humanos, saudáveis e responsáveis. Produzir não pode significar adoecer. Ignorar isso não é apenas injusto, é insustentável.

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