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Compliance no debate eleitoral em MS

Um sistema de integridade não busca apenas assegurar essa conformidade, mas criar condições para que pessoas e organizações ajam de forma ética e responsável

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Compliance não é sinônimo de anticorrupção, muito menos de investigação, repressão e ameaça de punição. Quando esses elementos passam a ocupar o centro do sistema, aproximamo-nos do chamado “compliance policialesco”.

Investigar e responsabilizar continuam necessários. O problema surge quando esses instrumentos passam a definir o próprio sentido de um sistema de integridade.

E aqui cabe uma distinção. Embora compliance seja a palavra difundida, integridade vai além da conformidade com normas.

Um sistema de integridade não busca apenas assegurar essa conformidade, mas criar condições para que pessoas e organizações ajam de forma ética e responsável. É nesse sentido mais amplo que utilizo compliance neste artigo.

O tema apareceu no debate eleitoral estadual. De um lado, surgiu a proposta de reforçar a capacidade investigativa da Controladoria-Geral do Estado de Mato Grosso do Sul (CGE-MS) e criar uma estrutura específica de combate à corrupção, com profissionais oriundos do Gaeco, da Polícia Federal e da Receita Federal. De outro, a defesa de que compliance não deve ser um grupo dedicado a “caçar o malfeito”, mas um instrumento de construção de cultura.

A divergência permite uma pergunta anterior: o que se espera, afinal, de um sistema de integridade?

A resposta começa pela prevenção, função central de um sistema de integridade.

A CGE-MS já dispõe de estrutura e servidores qualificados para investigar irregularidades. Por isso, a questão não é apenas saber quem investiga melhor, mas quais capacidades ainda precisam ser desenvolvidas para prevenir melhor.

Há modelos mais abrangentes de integridade, inspirados em referências como as da OCDE, que organizam o sistema em elementos centrais, essenciais e complementares. Cultura e liderança ocupam o centro.

Capacitação, comunicação e mecanismos de proteção dão sustentação. Identificação, resposta e responsabilização aparecem como complemento.

Essa arquitetura ajuda a compreender por que estruturas formais, embora indispensáveis, não são suficientes.

Há mais de duas décadas, Ann Tenbrunsel, Kristin Smith-Crowe e Elizabeth Umphress mostraram que a infraestrutura ética de uma organização reúne sistemas formais, informais e o clima organizacional.

O comportamento não é determinado apenas pelo que está escrito nos códigos, políticas e manuais. Importa também o cotidiano: como líderes se relacionam com suas equipes, como reagem a problemas, quais comportamentos são valorizados, quem pode falar e se as decisões são percebidas como justas.

É aqui que a ideia de controle começa a ficar pequena.

Quando passamos a atuar sobre riscos, cultura, comportamento, liderança e ambiente, entramos em um campo mais amplo: o da integridade.

Imagine um servidor que percebe uma fragilidade em determinado contrato. Ele pode conhecer a regra, saber qual canal de denúncia utilizar e compreender sua responsabilidade. Ainda assim, pode escolher o silêncio.

A diferença estará no ambiente em que trabalha. Há segurança psicológica para falar? É possível discordar da liderança? Quem aponta problemas é protegido ou visto como inconveniente? A organização aprende com os erros?

Essas perguntas também pertencem à prevenção.

Por isso, combater corrupção seriamente exige ir além de uma visão burocrática e reativa do compliance.

Liderança, comunicação, participação, segurança psicológica, motivação, gestão de pessoas e ciências comportamentais deixam de ocupar posição periférica.

Não porque compliance deva cuidar de tudo, mas porque comportamento ético é comportamento humano.

Já sabemos criar normas, códigos, canais, comitês e procedimentos. O desafio é transformar essas estruturas formais em cultura vivida no cotidiano.

Conhecimento jurídico e técnico continua indispensável, mas construir cultura exige compreender riscos, governança, comportamento humano, comunicação e liderança. Exige diagnosticar ambientes, escutar, mobilizar pessoas, conectar áreas e transformar conhecimento em prática.

Antes de perguntar o que precisa ser criado, talvez seja mais útil perguntar o que já existe, o que precisa ser fortalecido e quais competências ainda estão ausentes.

Criar capacidade institucional não é sinônimo de criar estrutura.

Instituições também avançam quando reconhecem o conhecimento que têm, desenvolvem seus servidores e conectam competências hoje dispersas.

Talvez essa seja uma contribuição importante do debate eleitoral sobre compliance: ampliar a discussão para além da investigação.

Corrupção precisa ser investigada. Irregularidades, apuradas. Responsabilidades, atribuídas. Mas um sistema de integridade não pode considerar sucesso apenas aquilo que consegue descobrir depois.

Sua maior capacidade está em criar as condições para que o problema tenha menos chance de acontecer.

Prevenir é chegar antes.

EDITORIAL

A sociedade falou nas urnas

Não basta identificar que existe insatisfação. É necessário compreender as suas causas. A população quer emprego? Quer renda maior? Quer serviços públicos melhores?

07/10/2026 07h15

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Em mais uma eleição, parte da sociedade foi pega de surpresa com os resultados das urnas. O resultado surpreendeu, inclusive, setores da direita, que esperavam uma votação expressiva, mas não imaginavam a dimensão do desempenho verificado.

É importante destacar que a eleição atual, sobretudo a disputa pela Presidência da República, que acaba pautando as demais, foi uma das que menos debateu projetos nas últimas décadas.

Em 2018, também prevaleceram a polarização, as acusações e as disputas em torno de nomes, muito mais do que propostas para o País.

O eleitor foi chamado a escolher em um ambiente no qual pouco se falou sobre o que cada candidato pretende fazer caso chegue ao poder. Faltaram discussões mais profundas sobre economia, saúde, educação, segurança, infraestrutura e emprego.

É verdade que reportagens, pesquisas e análises ajudaram a calibrar uma realidade que não era exatamente a esperada por muitos. Pesquisas são retratos de determinados momentos e podem errar.

Reportagens procuram interpretar fatos e tendências, mas não substituem a decisão do eleitor. O eleitor se expressa nas urnas, e não necessariamente nas ruas todos os dias. É ali que revela a sua escolha.

Cabe aos políticos compreender esse princípio e, mais do que tentar explicar o resultado depois que ele acontece, procurar ouvir a sociedade antes de tomar decisões.

Por isso, acreditamos que precisam ir mais às ruas, estar mais presentes nas redes sociais e conversar mais com os eleitores. Não apenas em períodos eleitorais. É preciso entender o que as pessoas estão vivendo, as suas angústias.

Há um sinal importante nesta eleição: o que caminha para definir a disputa é a base da pirâmide social. E essa base não está bem. Se estivesse, provavelmente não haveria uma disposição tão significativa por mudanças.

O voto por mudança não surge do nada. É consequência da percepção de que alguma coisa precisa ser diferente.

É justamente aí que está a questão que parece não ter sido debatida o suficiente até agora: o que precisa ser feito? Não basta identificar que existe insatisfação. É necessário compreender as suas causas.

A população quer emprego? Quer renda maior? Quer serviços públicos melhores? Está preocupada com o custo de vida, segurança, saúde ou educação? Provavelmente quer um pouco de tudo isso.

O próximo passo deveria ser ouvir essas demandas e transformá-las em propostas. O segundo turno deveria ser uma oportunidade para os candidatos explicarem como pretendem melhorar a vida de quem está na base da pirâmide.

A surpresa das urnas pode ser uma oportunidade. Em vez de justificar o seu resultado, é hora de olhar para ele como um recado. A sociedade falou. Agora cabe aos políticos ouvir.

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O Brasil entre dois caminhos

O voto constitui uma das mais importantes manifestações da cidadania e a forma pela qual o povo participa da construção dos destinos do País

06/10/2026 07h20

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Como é de conhecimento geral, voto e democracia caminham lado a lado. A relação é intrínseca, um não existe sem o outro. No Brasil, segundo garante a Constituição Federal de 1988, todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

O voto constitui, portanto, uma das mais importantes manifestações da cidadania e a forma pela qual o povo participa da construção dos destinos do País.

No domingo, dia 4 de outubro, o Brasil foi novamente às urnas. Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva, 45,16%. Nenhum alcançou a maioria absoluta e, no dia 25, o eleitor brasileiro será novamente chamado a escolher o presidente da República.

Dois candidatos, dois projetos e visões distintas sobre os caminhos que o Brasil deverá percorrer nos próximos quatro anos. A pequena diferença nas urnas revela um País politicamente dividido e aumenta a responsabilidade do eleitor neste segundo turno.

Mas outro número merece especial atenção. O Brasil tinha 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. Mais de 33 milhões não compareceram às urnas, uma abstenção de 21,08%, a maior desde 1998.

Em outras palavras, mais de um em cada cinco eleitores deixou de participar da escolha. É um número que preocupa e convida à reflexão.

Em 2018, escrevi neste mesmo jornal o artigo “A festa fúnebre da democracia brasileira”. Naquela oportunidade, chamava a atenção para o distanciamento de parcela considerável da população da vida política e para o descrédito provocado por sucessivos escândalos, denúncias e decepções.

Oito anos se passaram. Mudaram personagens e circunstâncias, mas a elevada abstenção demonstra que permanece o afastamento de milhões de brasileiros do processo político. É compreensível a decepção.

O que não podemos permitir é que a indignação com a política se transforme em indiferença com a democracia. Quando o cidadão deixa de escolher, outros escolhem por ele.

Vivemos também um período de intensa polarização. Divergir faz parte da democracia. Transformar quem pensa diferente em inimigo, não. Famílias, amizades e relações pessoais não podem ser destruídas porque existem opiniões políticas distintas.

Democracia exige liberdade para escolher e maturidade para respeitar a escolha do outro. Nas próximas semanas assistiremos a uma disputa intensa. Mais importante do que acusações e ataques pessoais será apresentar propostas concretas para os problemas que afetam a vida das pessoas.

O Brasil precisa mudar. Não podemos continuar adiando decisões importantes nem tratando problemas históricos como se o tempo fosse capaz de resolvê-los sozinho.

Segurança pública, saúde, educação, equilíbrio das contas públicas, geração de empregos, redução das desigualdades, eficiência do Estado e desenvolvimento econômico exigem coragem para enfrentar pautas sensíveis, planejamento e, sobretudo, responsabilidade com as próximas gerações.

Não existem soluções fáceis para problemas complexos. Por isso, o segundo turno não deve ser apenas uma disputa entre nomes ou paixões políticas, deve ser uma oportunidade para discutir o Brasil que queremos construir.

Aos candidatos cabe apresentar seus caminhos, ao eleitor, pesquisar, comparar propostas, conhecer trajetórias e distinguir informação de propaganda, verdade de mentira e convicção de fanatismo.

Que aqueles que se abstiveram no primeiro turno reflitam sobre a importância de sua participação e que todos exerçam livremente, no dia 25, o direito de escolher, segundo sua consciência. No fim haverá um vencedor e um vencido. É da democracia.

O que não pode haver é um Brasil vencido pela intolerância, pelo radicalismo, pela indiferença ou pela incapacidade de mudar. Governos passam, adversários se alternam no poder e eleições terminam. O Brasil permanece acima de todos. E é a ele que devemos nossa maior lealdade.

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