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Cota e seus enigmas

Volumes que ultrapassarem o limite definido estarão sujeitos a uma tarifa adicional de 55%, medida que deverá vigorar por um período inicial de três anos

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A China decidiu estabelecer uma cota anual de importação de carne bovina para seus fornecedores internacionais, incluindo o Brasil, como parte de uma política de proteção aos produtores locais.

Pelo modelo anunciado, volumes que ultrapassarem o limite definido estarão sujeitos a uma tarifa adicional de 55%, medida que deverá vigorar por um período inicial de três anos. Trata-se de uma mudança relevante nas regras do comércio internacional de carnes, com impactos diretos sobre os principais exportadores.

Dentro desse novo desenho, o que mais preocupa o setor brasileiro é a forma como a China pretende contabilizar essa cota.

As autoridades chinesas deixaram claro que o volume será apurado com base nas entradas efetivas no país, a contar de 1º de janeiro, independentemente de contratos firmados anteriormente, cargas em trânsito ou produtos já embarcados.

Se essa interpretação se confirmar sem qualquer revisão, o Brasil terá de descontar da cota aproximadamente 350 mil toneladas que hoje já estão comprometidas, seja em cargas paradas em portos chineses aguardando desembaraço, em navios em trânsito ou em estoques formados nos portos brasileiros.

Na prática, isso reduz de forma significativa o espaço disponível para novas produções ao longo deste ano.

Feitas as contas, restariam cerca de 750 mil toneladas disponíveis para produção destinada ao mercado chinês durante todo o ano. Dividido pelos 12 meses, esse volume se traduz em aproximadamente 62,5 mil toneladas mensais, um patamar totalmente desconectado da realidade atual do setor.

Para efeito de comparação, o Brasil vinha exportando, nos últimos meses, volumes superiores a 160 mil toneladas mensais para a China.

A discrepância entre esses números evidencia, por si só, a urgência de uma ação diplomática coordenada, baseada em diálogo direto entre governos, para buscar um entendimento que leve em consideração os fluxos comerciais já estabelecidos.

O impacto dessa restrição é difícil de dimensionar com precisão, mas certamente será profundo. Considerando uma projeção anual próxima de 1,7 milhão de toneladas, a redução potencial, que inicialmente se estimava em torno de 35%, torna-se extraordinariamente preocupante quando aplicadas as novas regras de contabilização.

A pecuária brasileira avançou de forma consistente nos últimos anos, com investimentos expressivos em genética, manejo, processos produtivos e ganhos de eficiência. A indústria, por sua vez, modernizou plantas, ampliou capacidade e se estruturou para atender uma demanda crescente e estável.

Uma mudança abrupta dessa magnitude obriga toda a cadeia a revisar expectativas, projeções e investimentos, tanto no curto quanto no médio prazo.

Não há culpados evidentes nem soluções simples. O único caminho possível é o diálogo institucional com as autoridades chinesas, em busca de um entendimento equilibrado, construído de governo para governo.

É preciso reconhecer que o governo brasileiro tem feito sua parte na ampliação e diversificação de mercados, com um trabalho consistente conduzido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária e pelo ministro Carlos Fávaro.

Ainda assim, é fundamental ter clareza: os novos mercados não têm, ao menos por ora, o mesmo potencial de absorção do mercado chinês e, além disso, já contam com fornecedores consolidados, o que demanda tempo e estratégia para sua efetiva ocupação.

Enquanto isso, a eventual redução de volumes incide sobre o setor com rapidez extrema, como uma guilhotina afiada. Não se trata do fim da atividade, mas de mais um momento em que será necessário acomodar-se, adaptar-se e reinventar-se.

Os volumes excedentes são grandes demais para uma absorção imediata. O desafio está posto e a solução não virá de uma lâmpada mágica esquecida em alguma caverna, mas de negociação, realismo e construção conjunta.

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Colapso teocrático

O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo

16/01/2026 07h45

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Em janeiro de 2026, o Irã vive um momento de ruptura definitiva. As ruas de Teerã e das principais províncias não clamam mais por reformas graduais, mas pelo fim de um sistema que se tornou anacrônico.

O regime, que por décadas utilizou o fervor religioso e o nacionalismo para se sustentar, enfrenta hoje uma combinação letal: o colapso econômico interno e a sucessão de derrotas no cenário externo. O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo.

Compreender a crise contemporânea exige revisitar o colapso de Mohammad Reza Pahlavi. Ao tentar converter o país em uma potência ocidentalizada, o xá negligenciou as bases tradicionais e o clero xiita, enquanto a repressão da Savak, sua polícia política, alienava a elite intelectual.

Esse cenário culminou na Revolução de 1979 – uma coalizão heterogênea em que emergiu a liderança de Ruhollah Khomeini, que ascendeu após a queda da monarquia. O vácuo de poder foi preenchido pela “velayat-e faqih”, doutrina que submeteu a nação à tutela política e espiritual de um clérigo supremo, consolidando a teocracia moderna.

Quase meio século depois, o contrato social da República Islâmica ruiu. O sistema que prometia justiça social entregou uma economia de espoliação, controlada por fundações opacas e pelo braço empresarial da Guarda Revolucionária, que opera em moldes mais cruéis que a antiga Savak.

A crise atual é o ápice de uma década de má gestão e expansionismo baseado no terror, agravada pelas sanções e pelo impacto da Guerra dos 12 Dias, em 2025, que degradou a infraestrutura nuclear e militar do país.

Diferentemente de 2022, as manifestações atuais têm caráter existencial. O coração do levante bate no Bazar, o termômetro da estabilidade política persa. Quando mercadores fecham as portas e se unem aos jovens e às minorias étnicas, o regime perde sua última âncora de legitimidade. Ao mesmo tempo, a repressão mostra sinais de fadiga, com relatos de deserções e a incapacidade de conter focos simultâneos em todas as 31 províncias.

A análise de risco político nos obriga a desenhar caminhos para este desenlace. O Irã de amanhã não será o mesmo de ontem, e sua transição é um debate com reflexos globais.

Um cenário provável é a solução pretoriana: diante da queda iminente, a Guarda Revolucionária poderia desferir um golpe interno, afastando os aiatolás em troca de uma abertura econômica nacionalista e pragmática, aos moldes do Egito.

Outro caminho é a restauração de uma democracia parlamentarista laica, com Reza Pahlavi como símbolo de unidade transicional, assemelhando-se ao modelo espanhol pós-Franco.

Contudo, não se deve subestimar a resiliência ideológica de uma teocracia acuada e o recrudescimento do regime ainda é uma opção, o que poderia transformar o país em uma “Coreia do Norte do Oriente Médio”, mantendo o poder pelo terror e o isolamento absoluto.

Por fim, existe o risco latente de fragmentação e “balcanização”, em que o colapso fomentaria movimentos separatistas e uma guerra civil devastadora.

Os sinais são de que o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar. O mundo deve estar preparado para o que emergirá das cinzas da teocracia.

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Hasta cuando

Quem de fato é o ditador diante do autocrata?

16/01/2026 07h30

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No início de 2026, não só os venezuelanos, como nós mesmos fomos surpreendidos na madrugada pelos acontecimentos militares envolvendo ataques, invasões, bombardeios, sequestro, rapto, desrespeito à soberania de um país e das leis internacionais, com a morte de 40 pessoas, realizados pelo Exército americano contra um país andino, nosso vizinho e detentor da maior reserva de petróleo mundial.

Historicamente, a Venezuela foi símbolo da luta da independência e inspiração para toda a América Latina nas ações realizadas por Simón Bolívar, então intitulado “o Libertador”, sendo fundamental na libertação de diversas nações, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, incluindo a Venezuela (1811).

Uma ideologia foi revivida e reverenciada a Bolívar, posteriormente, por Hugo Chaves (1999), ao estabelecer a “República Bolivariana da Venezuela”, baseando-se nas ideias de unidade latino-americana e independência de potências estrangeiras (Espanha e França) e, especialmente, contra o dito imperialismo americano, entendido como a prática de exercer influência política, militar, cultural e, especialmente, econômica sobre outros países, na tentativa de expandir seu controle hegemônico e estratégico mundial, justificando suas ações com o combate ao comunismo (passado), a liberdade e, atualmente, o narcotráfico.

E, assim, o imperialismo assume a crença de que tem o direito de expandir seus territórios e ameaçar intervenção militar, garantindo seus interesses na busca por matérias-primas (petróleo, terras raras, metais preciosos), novos mercados e investimentos, controle econômico e político, com ajuda militar direta para os países alinhados, sempre justificando a garantia da liberdade pela força, mantendo práticas neoliberais na manutenção da liderança do dólar, substituindo em parte o estereótipo do comunismo, de vez em quando revisitado pela democracia, pelo narcoterrorismo.

Todas essas atitudes são reprováveis pelo Direito Internacional, mas tem sido aceitas por inúmeras pessoas, incluindo comentaristas, jornalistas, âncoras, influenciadores, especialistas em política internacional, professores conservadores, que emitem opiniões de aprovação desde que “não sendo comigo, nada atinge meu umbigo”, inclusive, ao interpretar os fatos e dizer que não houve sequestro de um presidente, e sim captura de ditador, chefe da narco-organização Cartel de Los Soles, até então inexistente, conforme a própria Justiça americana.

As notícias são incapazes de estabelecer a principal diferença entre um ditador e um autocrata de acordo com a conceituação sobre o exercício do poder.

O ditador se caracteriza pelo exercício de poder de forma absoluta, descontrolada, desproporcional e assimétrica, ao passo que o autocrata se identifica como aquele que se julga legítimo representante ao exercer o poder de modo arbitrário e concentrado.

Julga-se com poder ilimitado, independendo de justificativas para o exercício de sua autoridade, desrespeitando as instituições da administração, desconsiderando as leis, normas e regras, agindo sempre de forma opressiva, jactando-se de sua capacidade e ostentação de força opressiva.

Quem de fato é o ditador diante do autocrata?

O “ditador” encontra-se preso, incomunicável, aguardando um julgamento faccioso com um processo “lawfare”, ao se utilizar afirmativas fictícias com leis nacionais contra cidadãos estrangeiros, acusando-os volatilmente, sendo politicamente incriminados sob uma grave violação e desprezo às leis e aos organismos internacionais, ferindo um princípio fundamental da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a soberania e a independência política de Estados.

Enquanto isso, o “autocrata” continua histrionicamente, com suas bravatas, a assustar seus próprios apoiadores e aliados subservientes, distribuindo em todas as direções ameaças econômicas e militares, dirigindo no momento a atenção e o desejo de administrar o petróleo da Venezuela, de abocanhar as matérias-primas da Groenlândia, promover a mudança de regime do Irã e sufocar o governo de Cuba. “Hasta cuándo el mundo aceptará esto?”

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