Artigos e Opinião

EDITORIAL

Crise do IPTU e a voz ignorada da população

É preciso que os responsáveis pelas decisões compreendam que a sociedade mudou e que a maneira como a população fiscaliza e reage aos atos de gestão pública também mudou

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A análise de fatos políticos, administrativos e de decisões judiciais não pode ser feita de forma isolada, como se cada evento existisse em uma bolha técnica ou jurídica.

É indispensável considerar o contexto social em que essas decisões são tomadas e, sobretudo, como elas são percebidas por uma população cada vez mais atenta, crítica e menos tolerante a práticas que soem como imposições ou manobras pouco transparentes.

Muito do que se viu nos últimos dias em Campo Grande – especialmente a crise envolvendo o aumento da taxa do lixo e do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) – decorre, em grande medida, da falta de diálogo e de transparência do Poder Executivo, tanto com os vereadores quanto com a sociedade em geral.

Não se trata apenas de um embate jurídico ou de uma divergência técnica sobre cálculos tributários, mas de uma ruptura na relação de confiança entre governo e governados.

Esse, contudo, não é o único fator determinante. É preciso que os responsáveis pelas decisões compreendam que a sociedade mudou. A forma de se comunicar mudou. A maneira como a população acompanha, fiscaliza e reage aos atos de gestão pública também mudou.

Soma-se a isso um acúmulo de insatisfações com o contexto recente, como alguns problemas que a cidade tem enfrentado, criando um ambiente propício para uma crise. O valor final cobrado no carnê do IPTU, aliado à cobrança casada da taxa do lixo, foi apenas o estopim de um desgaste que já vinha se formando.

Se o aumento do tributo fosse absolutamente legal e cristalino, em algum momento o mandado de segurança ajuizado pela Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Mato Grosso do Sul (OAB-MS) teria sido indeferido.

O que se viu, porém, foi o oposto: a medida foi analisada, em poucos dias, por quatro magistrados diferentes, todos convergindo para o entendimento de que houve uma manobra para elevar a carga tributária sem alterar formalmente a alíquota.

Mais grave ainda: com publicação fora do Diário Oficial, restrita ao site da Secretaria de Fazenda, um espaço que a imensa maioria da população não acessa rotineiramente em busca de mudanças que impactam diretamente o bolso.

Ainda que a atualização de valores esteja prevista no Código Tributário do Município, isso não exime o gestor público do dever da transparência. Cumprir a lei significa respeitar ritos, prazos e princípios constitucionais.

Qualquer atalho fora desse caminho pode configurar ilegalidade. E, sejamos francos: quem busca aprovação popular dificilmente se dispõe a comunicar de forma clara que está aumentando impostos.

Decisões que afetam milhares de pessoas, o orçamento familiar e o futuro da cidade não podem ser tomadas a portas fechadas, sem revisão técnica e jurídica rigorosa e sem uma comunicação eficiente e honesta com a sociedade.

A crise do IPTU em Campo Grande deixa muitas lições. A principal delas é simples e antiga, mas frequentemente ignorada: a população precisa ser ouvida – e considerada – muito mais vezes do que apenas a cada quatro anos.

ARTIGOS

Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

Atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular

10/02/2026 07h45

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O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras.

As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular.

A coordenação motora global se refere à capacidade de uma criança em controlar os movimentos de seu corpo de maneira ampla, envolvendo ações como saltar, correr, dançar e equilibrar-se.

Essas habilidades são fundamentais na infância e impactam desde tarefas simples, como escrever, até a prática de esportes. Portanto, compreender e estimular a coordenação motora é crucial para um crescimento saudável e equilibrado.

O período ideal para trabalhar a coordenação motora global é até os 6 anos, quando o cérebro e o corpo estão em pleno desenvolvimento.

Vale ressaltar que a primeira infância é um período crítico para o desenvolvimento motor, mas não significa que após os 6 anos a criança não consiga desenvolver ou aprimorar essas habilidades, a neuroplasticidade funciona além da primeira infância.

Atividades diárias, como pular corda e desenhar, são essenciais para estimular a coordenação motora grossa e fina. Além disso, ao realizar atividades de forma divertida, como, por exemplo, a amarelinha, as crianças aprimoram sua coordenação olho-mão e desenvolvem habilidades sociais e emocionais.

Essas ações cotidianas não apenas contribuem para o desenvolvimento emocional e social, mas também ajudam a desenvolver habilidades essenciais e a aumentar a autoestima das crianças.

Lembrando que não é necessário usar brinquedos caros para isso. Brincadeiras como circuitos podem ser feitas com objetos comuns, como cones, bambolês ou almofadas. Trabalhar a coordenação motora global melhora as funções cognitivas, como atenção e memória, impactando positivamente a aprendizagem.

Elas melhoram a organização mental, pois ajudam a criança a planejar e executar tarefas complexas; fortalecem as funções executivas, pois trabalham habilidades como atenção, controle inibitório e memória de trabalho e desenvolvimento social.

É fundamental que pais e educadores ofereçam atividades para coordenação motora, como saltos, danças e circuitos, pois são poderosas ferramentas para o desenvolvimento da coordenação motora global e das funções cognitivas das crianças.

Além disso, incorporá-las no dia a dia ajuda a promover uma infância saudável e cheia de aprendizado, diminuindo o tempo de telas.

ARTIGOS

O desafio do comércio livre e justo para a indústria brasileira

Cadeias globais de valor foram estruturadas de modo a aproveitar vantagens comparativas, permitindo que bens e serviços chegassem a consumidores em escala e a custos mais acessíveis

10/02/2026 07h30

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É inegável que, movido pela expansão do comércio internacional, o mundo cresceu e se desenvolveu de maneira extraordinária nas últimas décadas. A abertura de mercados ampliou eficiências, elevou a produtividade e aprofundou a complementariedade entre países.

Cadeias globais de valor foram estruturadas de modo a aproveitar vantagens comparativas, permitindo que bens e serviços chegassem a consumidores em escala e a custos mais acessíveis.

Esse processo, porém, não foi neutro. Houve ganhadores e perdedores, especialmente no âmbito da indústria. As economias ocidentais perderam participação relativa na manufatura mundial, fenômeno que também afetou o Brasil, tanto no contexto do setor em geral quanto, de modo particular, no têxtil e de confecção.

A transferência de capacidades produtivas para regiões com custos mais baixos e regulações menos exigentes redesenhou o mapa do chão de fábrica do planeta.

Hoje, vivemos uma etapa distinta em termos de geopolítica e geoeconomia. Países ocidentais, Brasil incluído, buscam recuperar parte do terreno perdido, por meio de políticas industriais, estímulos à inovação e estratégias de fortalecimento de suas cadeias produtivas.

Trata-se de uma tarefa complexa, sobretudo quando se considera que cerca de um terço da manufatura mundial está concentrada na China. A globalização não desapareceu, mas está mudando de rosto: organiza-se cada vez mais em blocos econômicos e em torno da busca por autonomias estratégicas.

É nesse contexto que ganha relevância a combinação entre free trade (livre comércio) e fair trade (comércio justo). O primeiro continua sendo um motor essencial de crescimento, integração e difusão tecnológica.

No entanto, a multiplicação de certificações e de exigências ambientais, sociais e trabalhistas revela uma tensão crescente: quando essas regras são aplicadas de maneira assimétrica entre países, a concorrência se desequilibra.

Na prática, nações que têm compromissos mais frouxos nesses campos podem obter vantagens de custo significativas em relação àquelas que adotam legislações mais rigorosas.

Porém, é fundamental afirmar com clareza que não existe fair trade sustentável sem um ambiente doméstico competitivo. A busca por justiça nas regras do comércio internacional precisa caminhar lado a lado com um firme dever de casa interno.

Cada país é responsável por criar condições reais para produzir e investir. Isso significa estabilidade macroeconômica, segurança jurídica, sistema tributário racional, infraestrutura eficiente, crédito acessível e políticas consistentes de inovação e qualificação de recursos humanos.

No caso brasileiro, esse ponto é especialmente crítico. Não basta reivindicar regras mais equilibradas no cenário global se internamente persistem entraves que encarecem a produção e desestimulam o investimento.

Um ambiente de negócios previsível e favorável à indústria não é um detalhe técnico, mas um requisito estratégico para competir, gerar empregos de qualidade e sustentar o crescimento de longo prazo.

O desafio, portanto, não é escolher entre abertura e proteção do mercado, mas assegurar que o comércio seja simultaneamente livre e justo, apoiado por economias nacionais eficientes. Se os produtos circulam globalmente, os modos de produção precisam caminhar para padrões cada vez mais convergentes e transparentes.

Regras mínimas compartilhadas em temas como sustentabilidade ambiental, direitos trabalhistas e responsabilidade social não devem ser vistas como barreiras, mas como fundamentos de uma competição saudável.

Ignorar a dimensão do fair trade ou negligenciar o fortalecimento das condições internas de competitividade implica riscos elevados.

O produto barato de hoje pode custar caro amanhã em termos de desestímulo ao investimento produtivo, perda de capacidade inovadora, redução de empregos de qualidade e enfraquecimento de um desenvolvimento que seja, ao mesmo tempo, sustentado e sustentável.

Conciliar free trade com fair trade, ancorando esse binômio em reformas domésticas que favoreçam a produção, é uma agenda de modernização indispensável.

Trata-se de preservar os benefícios da integração econômica internacional, ao mesmo tempo em que se constroem condições equilibradas de concorrência. Para países como o Brasil, essa convergência, mais do desejável, é essencial para uma inserção internacional competitiva e duradoura.

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