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O desafio do comércio livre e justo para a indústria brasileira

Cadeias globais de valor foram estruturadas de modo a aproveitar vantagens comparativas, permitindo que bens e serviços chegassem a consumidores em escala e a custos mais acessíveis

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É inegável que, movido pela expansão do comércio internacional, o mundo cresceu e se desenvolveu de maneira extraordinária nas últimas décadas. A abertura de mercados ampliou eficiências, elevou a produtividade e aprofundou a complementariedade entre países.

Cadeias globais de valor foram estruturadas de modo a aproveitar vantagens comparativas, permitindo que bens e serviços chegassem a consumidores em escala e a custos mais acessíveis.

Esse processo, porém, não foi neutro. Houve ganhadores e perdedores, especialmente no âmbito da indústria. As economias ocidentais perderam participação relativa na manufatura mundial, fenômeno que também afetou o Brasil, tanto no contexto do setor em geral quanto, de modo particular, no têxtil e de confecção.

A transferência de capacidades produtivas para regiões com custos mais baixos e regulações menos exigentes redesenhou o mapa do chão de fábrica do planeta.

Hoje, vivemos uma etapa distinta em termos de geopolítica e geoeconomia. Países ocidentais, Brasil incluído, buscam recuperar parte do terreno perdido, por meio de políticas industriais, estímulos à inovação e estratégias de fortalecimento de suas cadeias produtivas.

Trata-se de uma tarefa complexa, sobretudo quando se considera que cerca de um terço da manufatura mundial está concentrada na China. A globalização não desapareceu, mas está mudando de rosto: organiza-se cada vez mais em blocos econômicos e em torno da busca por autonomias estratégicas.

É nesse contexto que ganha relevância a combinação entre free trade (livre comércio) e fair trade (comércio justo). O primeiro continua sendo um motor essencial de crescimento, integração e difusão tecnológica.

No entanto, a multiplicação de certificações e de exigências ambientais, sociais e trabalhistas revela uma tensão crescente: quando essas regras são aplicadas de maneira assimétrica entre países, a concorrência se desequilibra.

Na prática, nações que têm compromissos mais frouxos nesses campos podem obter vantagens de custo significativas em relação àquelas que adotam legislações mais rigorosas.

Porém, é fundamental afirmar com clareza que não existe fair trade sustentável sem um ambiente doméstico competitivo. A busca por justiça nas regras do comércio internacional precisa caminhar lado a lado com um firme dever de casa interno.

Cada país é responsável por criar condições reais para produzir e investir. Isso significa estabilidade macroeconômica, segurança jurídica, sistema tributário racional, infraestrutura eficiente, crédito acessível e políticas consistentes de inovação e qualificação de recursos humanos.

No caso brasileiro, esse ponto é especialmente crítico. Não basta reivindicar regras mais equilibradas no cenário global se internamente persistem entraves que encarecem a produção e desestimulam o investimento.

Um ambiente de negócios previsível e favorável à indústria não é um detalhe técnico, mas um requisito estratégico para competir, gerar empregos de qualidade e sustentar o crescimento de longo prazo.

O desafio, portanto, não é escolher entre abertura e proteção do mercado, mas assegurar que o comércio seja simultaneamente livre e justo, apoiado por economias nacionais eficientes. Se os produtos circulam globalmente, os modos de produção precisam caminhar para padrões cada vez mais convergentes e transparentes.

Regras mínimas compartilhadas em temas como sustentabilidade ambiental, direitos trabalhistas e responsabilidade social não devem ser vistas como barreiras, mas como fundamentos de uma competição saudável.

Ignorar a dimensão do fair trade ou negligenciar o fortalecimento das condições internas de competitividade implica riscos elevados.

O produto barato de hoje pode custar caro amanhã em termos de desestímulo ao investimento produtivo, perda de capacidade inovadora, redução de empregos de qualidade e enfraquecimento de um desenvolvimento que seja, ao mesmo tempo, sustentado e sustentável.

Conciliar free trade com fair trade, ancorando esse binômio em reformas domésticas que favoreçam a produção, é uma agenda de modernização indispensável.

Trata-se de preservar os benefícios da integração econômica internacional, ao mesmo tempo em que se constroem condições equilibradas de concorrência. Para países como o Brasil, essa convergência, mais do desejável, é essencial para uma inserção internacional competitiva e duradoura.

EDITORIAL

Água tratada leva dignidade às aldeias

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul

03/04/2026 08h15

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O investimento superior a R$ 50 milhões para levar água tratada às aldeias Bororó e Jaguapiru, em Dourados, representa um passo civilizatório que merece ser reconhecido. Trata-se de uma iniciativa que vai além da infraestrutura básica: é uma ação que dialoga diretamente com a dignidade humana, com a saúde pública e com o respeito a uma população que, por décadas, viveu à margem de serviços essenciais. A decisão de implantar um sistema estruturado de abastecimento atende a uma demanda histórica e corrige uma lacuna que não deveria ter persistido por tanto tempo.

A direção da Sanesul e os parlamentares federais que destinaram recursos de emendas para viabilizar a obra estão de parabéns. A articulação institucional demonstrou que, quando há vontade política e coordenação entre diferentes esferas, é possível avançar em soluções concretas. Mais do que anunciar programas ou intenções, a aplicação efetiva dos recursos públicos em obras estruturantes é o que transforma realidades. E, nesse caso, o impacto será direto na vida de milhares de pessoas.

As aldeias Bororó e Jaguapiru, formadas majoritariamente por indígenas das etnias guarani-kaiowá, existem há mais de 40 anos. Quando foram criadas, situavam-se em área rural, distante da expansão urbana. Com o crescimento de Dourados, porém, essas comunidades foram praticamente engolidas pela cidade, tornando-se parte de seu entorno urbano. Ainda assim, permaneceram sem acesso a um serviço básico como a água tratada, um contraste que evidencia desigualdades históricas e a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.

É difícil compreender que um espaço onde vivem mais de 14 mil pessoas – população superior à de muitos municípios de Mato Grosso do Sul – tenha permanecido por tanto tempo sem abastecimento adequado. A ausência de água tratada impacta diretamente a saúde, a alimentação e as condições mínimas de higiene. Ao longo dessas décadas, os moradores enfrentaram períodos de fome, dificuldades estruturais e, mais recentemente, lidam com um surto de febre chikungunya, que expõe ainda mais a vulnerabilidade sanitária da região.

Nesse contexto, o investimento não deve ser visto apenas como uma obra de saneamento, mas como uma medida preventiva de saúde pública. O acesso à água tratada reduz a incidência de doenças, melhora a qualidade de vida e cria condições para o desenvolvimento social. Trata-se de uma intervenção que dialoga com o presente, mas também com o futuro dessas comunidades, que passam a ter melhores condições para superar desafios históricos.

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul. Não apenas pelo volume de recursos, mas pelo alcance humano e simbólico da iniciativa. Garantir água tratada a milhares de indígenas é promover dignidade, reduzir desigualdades e reconhecer que todos os sul-mato-grossenses têm direito aos mesmos serviços básicos.

Que essa obra seja concluída com celeridade e que sirva de exemplo. Investimentos desse porte demonstram que políticas públicas bem direcionadas podem, de fato, transformar realidades e corrigir injustiças históricas. 

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O custo invisível da IA

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso

02/04/2026 07h45

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Entre ganhos e perdas, o uso de inteligência artificial (IA) pelas empresas tem sido muito discutido a partir do viés financeiro. Alguns levantamentos reforçam um cenário multifacetado, como a pesquisa global da KPMG, que mostra que 57% dos líderes afirmam que o retorno sobre investimento com IA supera as expectativas, enquanto um estudo do MIT indica que 95% das implementações de IA generativa nas companhias ainda não revelam impacto mensurável no lucro e prejuízo.

Números como esses ressaltam que, mesmo com muitas organizações percebendo valor na adoção da tecnologia, a captura plena de benefícios financeiros ainda não está acontecendo.

Se por um lado a IA reduz gastos ao automatizar tarefas repetitivas, otimizar processos e aumentar a eficiência operacional, por outro também gera custos relevantes com infraestrutura tecnológica, processamento em nuvem, governança de dados, adequação regulatória e capacitação contínua das equipes.

A mensuração da sua eficácia, portanto, não pode ser feita levando em consideração as economias imediatas, sendo necessário analisar o valor estratégico gerado ao longo do tempo, seja na melhoria da qualidade das decisões, aceleração de ciclos de inovação, redução de riscos operacionais ou capacidade de escalar o negócio com maior previsibilidade.

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso. Por isso, os debates deveriam focar no quanto se transforma a partir dela – além de, é claro, seus custos invisíveis.

O primeiro deles ocorre antes mesmo do modelo entrar em produção, ao preparar, integrar e qualificar dados, tarefas que exigem das organizações um compromisso estratégico com governança de dados e maturidade analítica desde o início e não apenas quando surgem resultados tangíveis.

Outro impacto pouco comentado é o custo operacional contínuo dos sistemas de IA. Ao contrário de aplicações tradicionais, os modelos de IA exigem monitoramento constante, retraining para lidar com deriva de dados, ferramentas de observabilidade e atualizações de segurança.

Todas essas despesas podem corresponder a uma boa parcela do custo inicial anualmente, transformando a IA de um ativo estático em um sistema vivo que precisa de atenção contínua.

Há também gastos que surgem indiretamente, como a complexidade de governança e compliance. A ausência dessas estruturas pode comprometer confiança, exposição ao risco regulatório e até valuation corporativo, o que, paradoxalmente, pode custar mais caro do que a tecnologia em si.

Portanto, é preciso entender que governança de IA não é um “extra”, mas sim parte integrante da sustentabilidade tecnológica de longo prazo.

Ainda assim, não devemos focar apenas nos custos e ignorar as oportunidades trazidas pela tecnologia: quando bem planejada e integrada à estratégia corporativa, ela tem potencial para desbloquear valor exponencial.

Um relatório da Deloitte estima que a IA pode evitar cerca de US$ 70 bilhões em perdas anuais com desastres naturais até 2050, ao aumentar a resiliência das infraestruturas críticas.

Acredito que o verdadeiro desafio hoje é saber escolher quando vale a pena usar a inteligência artificial para ganhar vantagem competitiva. Para isso, as empresas precisam priorizar iniciativas que resolvam problemas centrais dos negócios, em vez de se deixar levar por todo novo “hype tecnológico”.

A discussão sobre o custo invisível nos leva, portanto, a uma conclusão prática: não existe IA barata, mas existe IA valiosa, e quem compreender e internalizar essa visão poderá verdadeiramente aproveitá-la de forma positiva e sustentável.

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