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Desafio da educação não é gerar dados, é governá-los

O recomendado é estabelecer critérios claros, responsabilidades bem definidas e alinhamento institucional sobre como os dados devem ser produzidos, utilizados e protegidos

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A educação pública ocupa um papel central no desenvolvimento social e econômico do País. Nos últimos anos, o setor educacional brasileiro avançou de forma consistente na produção e disponibilização de dados, constituindo um patrimônio informacional cada vez mais relevante para o planejamento, a execução e a avaliação de políticas públicas.

Bases como o Censo Escolar, as avaliações do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), as estatísticas e os indicadores produzidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), além dos sistemas estaduais e municipais de gestão educacional, reúnem informações sobre matrículas, fluxo escolar, desempenho acadêmico, infraestrutura das escolas e perfil dos docentes.

Quando analisados em conjunto com dados socioeconômicos e territoriais, esses registros ampliam significativamente a capacidade de compreensão da realidade educacional brasileira.

Esse cenário cria uma oportunidade concreta de utilizar dados de forma mais estruturada para qualificar as decisões públicas em educação. Para que isso ocorra de maneira sustentável, porém, não basta ter acesso à informação.

O recomendado é estabelecer critérios claros, responsabilidades bem definidas e alinhamento institucional sobre como os dados devem ser produzidos, utilizados e protegidos.

Neste ponto, a Governança de Dados se consolida como um elemento estratégico, especialmente em um setor no qual os dados são produzidos de forma contínua e possuem ampla cobertura nacional, refletindo a complexidade do sistema educacional brasileiro.

O desafio, então, está menos na geração de novos dados e mais na harmonização conceitual dos indicadores, na integração entre sistemas e no uso coordenado das informações em um ambiente federativo que envolve União, estados e municípios.

Indicadores educacionais com nomenclaturas semelhantes podem assumir definições distintas conforme a base de origem ou a finalidade do sistema.

Na educação pública, a Governança de Dados contribui para a definição clara de responsabilidades sobre dados estratégicos, a padronização conceitual de indicadores educacionais, a melhoria contínua da qualidade da informação e o uso ético e responsável dos dados, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Ao criar esse alinhamento, a Governança potencializa o valor dos sistemas e bases já existentes, sem exigir rupturas estruturais ou investimentos desproporcionais.

Diversas iniciativas educacionais demonstram, na prática, como o uso sistemático de indicadores e o acompanhamento estruturado de resultados contribuem para decisões mais qualificadas.

Ao incentivar o uso contínuo desses dados na tomada de decisão, o programa reforça práticas orientadas por evidências, ainda que não se configure formalmente como um programa de Governança de Dados. No quesito equidade, o uso estruturado de dados amplia a capacidade do Estado de identificar desigualdades regionais, sociais e territoriais, apoiando políticas educacionais mais equitativas.

Ao mesmo tempo, a Governança de Dados estabelece salvaguardas éticas essenciais, protegendo estudantes, famílias e profissionais da educação contra usos indevidos da informação e criando bases para a adoção responsável de análises avançadas e soluções de inteligência artificial.

A educação pública brasileira já dispõe de um conjunto valioso de dados. O desafio está em organizar, integrar e utilizar essas informações de maneira estratégica e contínua, fortalecendo a capacidade do Estado de tomar decisões mais justas, eficazes e transparentes.

Para isso, a Governança de Dados deve ser compreendida como um instrumento permanente de aprimoramento da gestão educacional, criando bases sólidas para políticas públicas orientadas por evidências e alinhadas às necessidades da sociedade.

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Honra não tem preço, tem valor

É preciso distinguir a crítica ácida ou o insulto gratuito da calúnia ou difamação

01/05/2026 07h45

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Ministros do Supremo Tribunal Federal têm se considerado atingidos em sua honra por críticas de fulano, beltrano, sicrano e, inclusive, de candidatos à Presidência. Pessoalmente, tenho uma opinião a respeito da indenização por danos morais.

Certa vez, participava de um congresso no Rio de Janeiro com o ministro Moreira Alves, e nós dois tínhamos como tema da palestra a “quantificação de indenização por danos morais”.

Naquela oportunidade, o ministro Moreira Alves, grande civilista, defendia que nós temos que quantificar a honra e que se trata de um pretium doloris – um preço da dor. Desde aquela época, entretanto, defendi a tese de que a minha honra não tem preço.

Nunca vou entrar com uma ação judicial contra alguém que pretenda me ofender. Conhecendo quem sou e sabendo que, às vezes, trata-se de uma mera agressão, nunca respondo, pois a melhor forma de responder é não dando atenção.

Ao contrário do ministro Moreira Alves, que defendeu a necessidade de haver um pretium doloris, dizia e digo o seguinte: a honra não tem preço; ela não está no mercado, valendo “tanto” ou “tanto”. Eu defendia e continuo defendendo que a honra verdadeira não tem preço.

Mas o que vemos hoje tem, sobretudo, um viés político, pois quando se procura atingir um candidato à Presidência da República, um deputado, um senador ou um ministro da Suprema Corte, a pessoa reage, demonstrando que realmente foi afetada pela manifestação de quem está dizendo.

Além disso, a judicialização das críticas – especialmente por parte de quem detém o poder – acaba por criar um efeito inibidor na liberdade de expressão.

Quando figuras públicas reagem a qualquer contestação com processos, não protegem apenas sua honra; inadvertidamente, sinalizam que o debate democrático é perigoso e deve ser contido.

Isso transforma o Poder Judiciário em uma arena de vaidades, onde questões que deveriam ser resolvidas no campo do debate público ou da indiferença soberana passam a ocupar uma pauta que deveria ser reservada a temas de real interesse coletivo.

É preciso distinguir, portanto, a crítica ácida ou o insulto gratuito da calúnia ou difamação propriamente ditas, que têm contornos legais definidos. A honra, em sua acepção subjetiva – o sentimento que temos de nós mesmos –, não pode ser tutelada pelo Estado.

Quando um magistrado ou um político utiliza a máquina judicial para punir ofensas menores, ele transfere a outros a responsabilidade por sua própria estabilidade emocional, o que, ironicamente, diminui a estatura moral do cargo que ocupa.

Reafirmo: quem tem, verdadeiramente, honra pouco se importa com a opinião alheia. A pessoa mais importante – que é Cristo, para mim o próprio Deus – não deu atenção aos ataques que sofreu e perdoou a todos quando estava na cruz.

Ora, nós, que somos um ponto temporário no Universo, dizer “fui atacado na minha honra e ela tem um preço” é, no mínimo, curioso.

Quem ataca, sim, demonstra que não tem honra. E quem reage está dando um preço à sua honra e, ao mesmo tempo, desvalorizando-a. Por esta razão, pessoalmente, nunca respondo, nem dou atenção.

Acredito, pois, que a melhor forma de mostrar que aquela agressão não vale nada é desconsiderá-la; é não dar importância, considerá-la sem relevo. Sendo assim, ao contrário do meu queridíssimo e saudoso amigo Moreira Alves, eu sempre dizia e digo: a minha honra não tem preço.

O silêncio diante da injúria não é sinal de fraqueza, mas de superioridade.

Quem ocupa postos de mando deve compreender que a autoridade não emana da capacidade de silenciar críticos por meio de sentenças, mas da solidez de um caráter que entende que a verdadeira honra, por ser inalienável, jamais deveria ser objeto de compensação pecuniária.

Quem dá preço à sua honra é porque, realmente, a ela não dá muito valor.

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Trabalhar para viver - não viver para trabalhar

Jornadas longas aumentam o estresse, reduzem o sono e elevam riscos de acidentes

01/05/2026 07h30

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Quando debatemos o fim da escala 6×1 no Brasil, estamos, no fundo, discutindo o tempo: o tempo dedicado ao trabalho, ao descanso e, sobretudo, à vida. Trata-se de uma escolha sobre o tipo de país que queremos construir – um país que valoriza o trabalho digno ou que mantém um modelo ultrapassado, herdado do século passado, que já não se sustenta.

A escala 6×1 surgiu em um contexto de baixa tecnologia aplicada ao mundo do trabalho, em que a produtividade dependia da presença contínua do trabalhador e da trabalhadora.

Hoje, essa lógica não se aplica. O resultado é outro: exaustão e adoecimento. É um sistema que drena energia, patrocina a perda de tempo de convivência familiar, reduz a qualidade de vida e limita o potencial produtivo.

Os dados são claros. Análise do eSocial em dezembro de 2025, com base em 50,3 milhões de vínculos, mostra que, embora 74% dos trabalhadores formais tenham contratos de 44 horas semanais, 66,8% já operam no regime 5x2, enquanto 33,2% ainda estão presos à escala 6×1.

Ou seja, não se trata de necessidade econômica – é uma escolha cultural. E mais: essa incidência praticamente não varia entre médias e grandes empresas, o que reforça que não é o tamanho do negócio que determina essa prática.

Manter a 6×1 gera custos ocultos. Jornadas longas aumentam o estresse, reduzem o sono e elevam riscos de acidentes. Trabalhadores mais cansados faltam mais, produzem menos e têm maior dificuldade de aprendizado.

A rotatividade cresce, elevando custos com demissões, contratações e treinamento. Descansar não é o oposto de produzir – é condição para produzir melhor, com mais qualidade e mais eficiência.

A transição é possível e responsável. O impacto direto estimado é de 4,7% na massa salarial, valor plenamente absorvível pela economia brasileira.

O risco de aumento expressivo de horas extras é limitado: mais da metade dos trabalhadores não recebe horas extras e, entre os que recebem, a média é de apenas três horas semanais.

E os ganhos são concretos: estudo da Fundação Getúlio Vargas, também de 2025, com 19 empresas mostra que 72% aumentaram a receita e 44% melhoraram o cumprimento de prazos após reduzir a jornada.

O mundo já avançou. A Islândia registrou crescimento econômico com redução da jornada. No Japão, a Microsoft teve aumento de 40% na produtividade com semana de quatro dias. Na América Latina, Chile e Equador lideram esse movimento, demonstrando que é possível conciliar competitividade com qualidade de vida.

O presidente Lula já enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei com urgência constitucional para enfrentar essa questão. A proposta representa um passo decisivo para retirar a escala 6×1 como padrão e valorizar o descanso, fortalecendo a negociação coletiva e modernizando as relações de trabalho no Brasil.

Estamos falando de um projeto de país. Um Brasil que cresce com pessoas inteiras, não exauridas. Um país que entende que tempo livre também movimenta a economia, fortalece vínculos sociais e melhora a vida em comunidade.

O tempo de viver é agora. Trabalhar não pode significar abrir mão da vida. Os parlamentares aprovarem essa proposta representa dar um passo necessário rumo a um país mais justo, mais produtivo e mais humano.

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