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CORREIO DO ESTADO

Editorial desta quarta-feira: "Triste aniversário"

Editorial desta quarta-feira: "Triste aniversário"

Redação

26/08/2015 - 00h00
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Campo Grande, cuja pujança, beleza, trabalho de sua gente são reconhecidos no Brasil e no mundo, não merece sofrer com esta crise política e institucional

Campo Grande completa hoje 116 anos em meio à maior crise política desde sua fundação. No dia em que a cidade faz aniversário, a população tem muito pouco a comemorar, em meio à insegurança e à incerteza causadas pela movimentada e turbulenta dança das cadeiras nos poderes Executivo e Legislativo municipal.

Os moradores da cidade, que dependem dos projetos de médio e longo prazo para ter uma vida mais tranquila e de qualidade, são os que mais sofrem com a instabilidade política e a morosidade da Justiça.

Instabilidade política, porque há pouco diálogo e capacidade de pensar a cidade por parte dos dois últimos prefeitos, Alcides Bernal e Gilmar Olarte, e também dos atuais vereadores. Morosidade da Justiça, porque os desembargadores responsáveis pelo julgamento do recurso da decisão que determinou a recondução de Bernal à prefeitura,  em maio do ano passado, simplesmente levaram 1 ano e três meses para julgar a demanda.

A incerteza causada por estes dois fatores é geradora de uma característica presente tanto na gestão de Bernal, quanto na de Olarte: a falta de compromisso com projetos que envolvem toda a cidade, e o foco ajustado para iniciativas voltadas a projetos particulares ou o desfrute da máquina pública. Foi assim com o Instituto Mirim, do qual os aliados de Bernal tomaram conta após sua saída, e tem sido assim com o excesso de servidores comissionados que Olarte nomeou enquanto foi prefeito. 

O resultado da crise política que teve início em 2013 é o que se vê hoje: o primeiro aniversário da Capital em clima de tensão, insegurança jurídica e administrativa, e sem projetos e boas notícias. Sem esperança no curto prazo, porque a consequência de toda esta disputa é o sofrimento da população, que superlota os postos de saúde em busca de atendimento, que enfrenta a greve de professores mais longa da história da cidade; do motorista que trafega pelas ruas sem sinalização; e do servidor público, que neste mês recebeu seu salário com atraso, situação que deve se repetir também no próximo mês.

Uma cidade com os bons índices que apresentou ao longo de seus 116 anos de história, cuja pujança, beleza, trabalho de sua gente são reconhecidos no Brasil e no mundo, não merece sofrer com esta crise política e institucional.

O campo-grandense que trabalha honestamente, estuda, esforça-se diariamente e paga seus impostos merece viver em uma cidade que tem rumo. Este rumo pode ser dado no próximo ano, e deve ser orientado pela consciência da população.

Toda esta insegurança jurídica e administrativa pela qual a cidade - que é onde acontece a vida cotidiana - passa atualmente teve origem nas últimas eleições, quando eleitores bem-intencionados, acabaram levando a pior com escolhas equivocadas.

Que esta crise política sirva de lição para quem for escolher o próximo prefeito nas urnas, e que Campo Grande volte a ser lembrada por seu dinamismo, inovação, educação e desenvolvimento humano e estrutural. 

Artigo

Nem "patience" garantiu a chegada ao show do Guns N' Roses em Campo Grande

O trânsito parado na Avenida Ministro João Arinos e a fila de veículos a perder de vista eram um mau sinal

13/04/2026 07h30

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Saí às 17h45min. Os portões foram abertos às 16h, grande parte do público já estava no Autódromo Internacional Orlando Moura. Ia ter trânsito, claro. Um pouco mais de uma hora para completar o trajeto do centro da cidade até o local do show. Quem dera. O trânsito parado na Avenida Ministro João Arinos e a fila de veículos a perder de vista eram um mau sinal. Para quem ia ao show e para quem pegaria a próxima saída para chegar em casa.

Às 19h40min soube que ia atrasar. Pessoas desciam dos carros a mais de 12 quilômetros do autódromo, temerosas de não chegarem a tempo. Vi três pessoas, duas mulheres e um homem, descerem de um sedã preto xingando e gesticulando. Farinha foi jogada por uma das mulheres dentro e sobre o carro.

O quilo do ingresso solidário. Não houve solidariedade entre os que não tinham culpa da situação, um trabalhador querendo garantir seu rendimento, três passageiros querendo seguir.

Motociclistas por todos os lados às 20h, muitas pessoas chamando. De carro ou ônibus, como os 30 que foram fretados por empresário, não ia dar para chegar. Muitos desistiram.

Faltavam 30 minutos para o show. Nas redes, trechos do show do Raimundos. Chamava atenção o espaço que deveria estar ocupado pelos milhares no engarrafamento.

As primeiras notícias sobre o atraso do Guns N’ Roses chegaram às 21h. Queriam esperar por quem seguia a pé. Próximo do pontilhão, vi a primeira viatura do Detran-MS, perto de uma das alças de acesso, pela qual desciam duas carretas.

Achei ter ouvido da organização do evento, da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Detran-MS que caminhões não iam circular das 18h às 22h. Devo ter ouvido errado. Trabalhadores que desceram do coletivo preso no engarrafamento caminhavam ao lado da avenida.

Às 22h30min chegaram as notícias de que o show tinha começado. Motociclistas faziam rali pelas ruas paralelas à João Arinos: desciam barrancos e buzinavam pedindo passagem.

Ofereciam aos motoristas seus serviços, alguns até encontraram lugar para estacionar seus carros e seguiram de moto.

Só às 23h que vi a primeira viatura da PRF, no ponto em que a João Arinos perde seu “canteiro central”. A ação das autoridades era tão sutil que apenas os inteligentes podiam ver.

Milhares sentiam isso na pele. Cinco horas em um carro, o show tinha começado há mais de meia hora. Talvez desse para ver uma ou duas músicas.

Quase 0h. Um posto em frente a um condomínio. Longe ainda. O corpo quase travou ao descer do carro. No banheiro, era tanto cansaço que esvaziar a bexiga nem foi tão prazeroso assim.

Dava para ouvir “November Rain”, mas a distância podia estar pregando peças. Era tentador seguir, no entanto, o destino agora estava no sentido contrário. Na pista vazia.

Muitos que não chegaram ao show poderiam contar experiências como essas ou até piores. Houve amadorismo, promessas de planejamento vazias, descuido e desrespeito.

Uma grande estrutura para o show, instalada em um local inacessível sem organização e autoridades fazendo seu trabalho.

Mas a PRF foi rápida em responder a isso e jogar a responsabilidade apenas nas costas dos organizadores, que venderam ingressos até para o estacionamento e não entregaram os acessos que prometeram.

Assim, a PRF se esquivou da responsabilidade de não ter conseguido resolver o problema de três faixas que viram duas, duas faixas que viram uma, enquanto a faixa no sentido contrário permaneceu livre o tempo todo.

A organização do evento não conseguiu atender os que acreditaram em um produto bem vendido, que se prepararam por meses para estar presentes, que saíram do trabalho mais cedo, que não imaginaram que enfrentariam mais de cinco horas de congestionamento, que abandonaram o carro e foram a pé ou de moto, que conseguiram chegar a tempo e depois ficaram presos por mais cinco horas tentando voltar para casa.

No entanto, não há “patience” que consiga mudar a realidade do amadorismo da organização do show do Guns N’ Roses e a falta de ação das autoridades no alardeado maior evento internacional de todos os tempos em Campo Grande.

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Editorial

Endividamento expõe falhas no sistema

Taxas de cartão, tarifas para plataformas digitais, comissões em marketplaces e aplicativos, tudo isso compõe um sistema que drena margens e compromete a sustentabilidade dos negócios

13/04/2026 07h15

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Nesta edição, apresentamos um dado que merece atenção redobrada: o avanço do número de empresas endividadas em Mato Grosso do Sul. Mais do que um indicador isolado, o fenômeno sinaliza um desarranjo mais amplo na economia, com potenciais efeitos em cadeia sobre investimentos, empregos e consumo.

O aumento do endividamento empresarial não é apenas um problema restrito às empresas. Quando muitos negócios passam a operar sob pressão financeira, a consequência natural é a retração de investimentos e a dificuldade de honrar compromissos, o que pode desencadear um problema de liquidez. Em outras palavras, o dinheiro circula menos, o crédito encarece ainda mais e a economia perde dinamismo.

É evidente que os juros elevados ocupam papel central nesse cenário. São, de fato, o vilão mais visível e imediato. No entanto, reduzir a análise apenas a esse fator seria simplificar um problema que é estrutural.

O custo do dinheiro no Brasil vai além das taxas bancárias, ele está diluído em uma engrenagem complexa e cada vez mais financeirizada.

Hoje, o acesso ao capital envolve uma série de intermediações que impõem custos adicionais ao empresário. Não se trata apenas do crédito tradicional, mas de um conjunto de “pedágios” embutidos nas operações cotidianas.

Taxas de administradoras de cartão, tarifas para uso de plataformas digitais, comissões em marketplaces e aplicativos de serviços, tudo isso compõe um sistema que drena margens e compromete a sustentabilidade dos negócios.

Há, portanto, um excesso de atravessadores que encarece a atividade produtiva sem necessariamente agregar valor proporcional. Esse é um ponto que precisa entrar no radar das discussões regulatórias.

A modernização da economia digital não pode significar apenas mais eficiência para intermediários, mas também melhores condições para quem produz e gera riqueza.

Nesse contexto, a existência de ferramentas como o Pix surge como um contraponto positivo. Ao reduzir custos de transação e eliminar parte das intermediações, o sistema trouxe alívio para empresas e consumidores que antes dependiam quase exclusivamente das operadoras de cartão e de maquininhas.

É um exemplo de como a inovação, quando bem direcionada, pode corrigir distorções.

Ainda assim, o desenho geral do sistema econômico parece, muitas vezes, operar na lógica do endividamento contínuo. Seja para o cidadão, seja para o empresário, a dependência do crédito caro se torna regra, não exceção.

Romper esse ciclo é possível, mas exige disciplina financeira, planejamento e, sobretudo, consciência sobre os custos invisíveis que permeiam cada operação.

Em um ambiente assim, a busca por capitalização própria e menor dependência de intermediários não é apenas uma estratégia de gestão, é um caminho para a autonomia.

Afinal, como já diria Renato Russo, disciplina é liberdade. E, no atual cenário, ela pode ser também a diferença entre sobreviver e sucumbir às distorções do sistema.

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