Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Editorial deste sábado: ''A crise e o desperdício"

Editorial deste sábado: ''A crise e o desperdício"

Redação

09/05/2015 - 00h00
Continue lendo...

As dificuldades nacionais não isentam  os gestores locais, os quais também cometeram discrepâncias que contribuíram para o desfalque nos cofres públicos

Por mais que a população empenhe esforços para compreender os cortes de recursos e investimentos decorrentes da crise, alguns gastos públicos ainda soam como incoerências. A estagnação da economia brasileira reflete diretamente no caixa dos estados e municípios. Indústrias produzem menos, algumas são obrigadas a demitir e, consequentemente, o consumidor perde o poder de compra, o que prejudica também o comércio. Os repasses constitucionais feitos pelo governo federal também despencaram. Obras estão paralisadas. Assim, a Prefeitura de Campo Grande reduziu em R$ 181,14 milhões a projeção da receita para este ano e tenta cortar R$ 301 milhões. Já era previsto que 2015 seria um ano de dificuldades econômicas, apesar das resistências da presidente Dilma Rousseff em admitir os equívocos que resultaram no colapso das finanças. A tentativa de mascarar os problemas durante a campanha eleitoral fez com que providências demorassem a ser adotadas. Entretanto, as dificuldades nacionais não isentam os gestores locais, os quais também cometeram discrepâncias que contribuíram para agravar o desfalque nos cofres públicos. 

No sufoco, a administração municipal tenta reduzir a folha de pagamento, pois já extrapolou o limite prudencial de 51,3% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Com isso, além de não poder onerar ainda mais a folha, a prefeitura fica impedida de realizar operações de crédito e assinar novos convênios. É indiscutível a necessidade de adotar medidas de contenção de gastos. No entanto, fica a dúvida se os gestores não poderiam ter contido mais algumas despesas e, assim, evitar as ações drásticas que atingem diretamente os servidores municipais e os campo-grandenses, que passam a contar com menos investimentos. A prefeitura da Capital também paga por erros herdados. No ano passado, por exemplo, a prefeitura reajustou em 107% o contrato com a CG Solurb, responsável pela coleta de lixo e limpeza na Capital. O serviço – na época da formalização do contrato, em 2012 – teria custo mensal de R$ 4,3 milhões e subiu para R$ 9 milhões. A alegação foi a necessidade de ampliar a área de atuação, mas até agora não ficou claro por que toda a cidade não foi incluída no período em que a licitação foi lançada. A atual gestão e o Ministério Público Estadual deveriam questionar os valores e as contradições contratuais. Há, ainda, o agravante de que parte da limpeza de canteiros de avenidas continua a ser feita por funcionários contratados pela prefeitura. 

Outro desperdício na aplicação de recursos foi flagrado nas operações tapa-buraco, que nunca contaram com fiscalização. Assim, a população acompanhou o absurdo de reparos onde os danos simplesmente não existiam. O governo federal também dá mau exemplo de administração nas finanças quando amplia para R$ 900 milhões o valor destinado para o fundo partidário em 2015, valores três vezes maior do que era concedido. Sem contar, ainda, os diversos escândalos nacionais que envolvem desvios de recursos, como a “Lava Jato”. Os problemas econômicos estão intrinsecamente relacionados às falhas administrativas e a conjuntura nacional é indissociável dos problemas regionais. Entretanto, o cenário de crise poderia não ter tanto impacto com um pouco mais de cautela e transparência, apanágios negligenciados pela gestão petista.    

Editorial

Problema típico de Campo Grande

Recapeamento segue como algo de segunda linha na administração pública

06/05/2026 07h15

Continue Lendo...

Há quase 15 anos, em 2012, o ex-governador André Puccinelli ganhava mídia gratuita praticamente todas as semanas por conta das visitas constantes que fazia às obras de recapeamento da Avenida Afonso Pena.

Eram verdadeiros eventos. Pouco depois, o ex-prefeito Alcides Bernal, em meio à sua conturbada gestão, também recebeu infindáveis aplausos em decorrência dos recapeamentos que fez em vias como a Avenida das Bandeiras e a Rua Spipe Calarge, entre outras.

Eles somente ganhavam os holofotes, porque efetivamente o assunto era relevante e tinha o interesse de grande parcela da população.

Obras bem maiores e estruturantes, como a construção de avenidas como a José Barbosa Rodrigues ou Lúdio Coelho, por exemplo, deram um décimo da visibilidade aos políticos que estavam no poder à época. 

Agora, cerca de uma década e meia depois e em meio a uma cidade tomada pela buraqueira, a Avenida Afonso Pena, a Avenida Bandeiras e a Rua Spipe Calarge seguem praticamente intactas e livres daquele que possivelmente seja o maior tormento dos moradores de Campo Grande.

Depois daquelas obras iniciais, outras importantes vias receberam o tão esperado recapeamento, principalmente durante a gestão Marquinhos Trad.

Mais recentemente, há cerca de dois anos este mesmo tipo de investimento, foi, possivelmente, o principal responsável pela reeleição da atual prefeita, já que às vésperas da eleição as máquinas literalmente brotaram no meio de vias importantes da cidade para tentar mostrar que a administração municipal estava dando conta de cuidar da Capital.

Mesmo assim, o recapeamento segue como algo de segunda linha na administração pública. Na semana passada, um grande evento, com a presença do governador, prefeita, senadores, deputados e vereadores deu visibilidade aos investimento da ordem de R$ 350 milhões em asfalto novo em mais de 30 bairros.

Ontem, a prefeitura publicou a assinatura de sete contratos para obras de recapeamento espalhadas por toda a cidade.

O valor, R$ 37 milhões, é pouco mais de um décimo daquilo que foi destinado ao asfalto novo. Mesmo assim, o programa foi anunciado como algo inédito e como se fosse a salvação da pátria. 

Mas, ao que tudo indica, estes recapeamentos serão pulverizados nos quatro cantos da cidade e não haverá dinheiro suficiente para recuperar vias primordiais e de grande fluxo, como a Avenida Manoel da Costa Lima, a Mascarenhas de Morais, a Guri Marques e a parte sul da Avenida Ernesto Geisel, entre outras tantas.

O pacote de obras para asfalto novo é, praticamente todo ele, bancado por recursos federais e lá em Brasília, alegam as autoridades, é difícil conseguir recursos para investir em recapeamento.

E faz todo o sentido isso. Quando recursos são liberados para asfalto novo, a lógica é de que nestas vias sejam feitas obras duráveis. 

Em Campo Grande, porém, em obras como a duplicação da Avenida Duque de Caxias, por exemplo, os buracos começam a aparecer infinitamente dois anos depois da entrega do asfalto novo.

Então, ao que tudo indica, a necessidade de dinheiro para recapeamento e o interesse da população pelo tema são questões típicas da cidade. E uma das explicações é o asfalto novo malfeito. 

Assine o Correio do Estado

Artigo

Selo Agro Mais Integridade: por que ele importa?

Selo Agro Mais Integridade, instituído no âmbito do Ministério da Agricultura e Pecuária, ganha relevância como política pública de reconhecimento

05/05/2026 07h45

Continue Lendo...

Já não surpreende que o agronegócio brasileiro entregue escala, eficiência e protagonismo internacional. O que surpreende é que parte do mercado ainda sustente uma premissa ultrapassada: a de que, em nome do resultado econômico, os meios para alcançá-lo podem ser relativizados.

Em cadeias globais cada vez mais reguladas, com crescente exigência de rastreabilidade e sob o impacto de iniciativas como o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, integridade deixou de ser apenas atributo reputacional para se afirmar também como variável econômica, capaz de ampliar ou restringir mercados.

Nesse cenário, o Selo Agro Mais Integridade, instituído no âmbito do Ministério da Agricultura e Pecuária, ganha relevância como política pública de reconhecimento e indução de boas práticas. Ele valoriza empresas comprometidas não apenas com resultados, mas com padrões éticos, sociais e ambientais consistentes.

A regulamentação mais recente, prevista na Portaria Mapa n° 828/2025, reforça essa lógica ao estimular programas de integridade, enfrentar práticas desleais e reduzir riscos de fraude e corrupção nas relações entre setor privado e poder público – resposta institucional a um ambiente de maior pressão reputacional sobre o setor.

O Selo evidencia que integridade não pode ser tratada como adereço institucional. Ela ocupa espaço estratégico na governança das empresas, especialmente em um setor pressionado por transparência, sustentabilidade, conformidade regulatória e comprovação documental.

Mais do que reconhecimento, o Selo opera como mecanismo de distinção pública. Estabelece critérios objetivos de elegibilidade, afasta empresas envolvidas em irregularidades relevantes e exige evidências concretas de programas efetivos de integridade, responsabilidade social e sustentabilidade ambiental.

Na prática, isso significa comprovar estrutura, funcionamento e consistência. Programas anticorrupção, canais de denúncia, gestão de riscos, regularidade trabalhista, saúde e segurança no trabalho e compromisso ambiental deixam de ser atributos reputacionais para se consolidar como requisitos de permanência em cadeias produtivas mais exigentes.

E por que isso importa? Porque, no ambiente atual, integridade é fator de mercado. Estruturas eficazes de compliance reduzem riscos regulatórios, protegem a reputação, fortalecem a governança e ampliam o acesso a contratos, crédito e mercados mais rigorosos.

Em um agronegócio cada vez mais exposto a exigências nacionais e internacionais, reputação e integridade consolidaram-se como ativos econômicos.

Há, portanto, uma mensagem clara: o futuro do agro brasileiro não depende apenas de produtividade, tecnologia e escala. Depende também de credibilidade.

Em Mato Grosso do Sul, onde o agronegócio sustenta a dinâmica econômica, essa transformação já não é tendência. É exigência para quem deseja competir em cadeias cada vez mais seletivas.

O dado recente de que o BNDES aprovou R$ 5,7 bilhões para o agro sul-mato-grossense em três anos reforça o ponto: quanto maior o fluxo de capital, maior também a necessidade de governança, integridade e credibilidade institucional.

Em mercados seletivos, integridade não é custo. É critério de entrada e diferencial de permanência.

Assine o Correio do Estado

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).