As dificuldades nacionais não isentam os gestores locais, os quais também cometeram discrepâncias que contribuíram para o desfalque nos cofres públicos
Por mais que a população empenhe esforços para compreender os cortes de recursos e investimentos decorrentes da crise, alguns gastos públicos ainda soam como incoerências. A estagnação da economia brasileira reflete diretamente no caixa dos estados e municípios. Indústrias produzem menos, algumas são obrigadas a demitir e, consequentemente, o consumidor perde o poder de compra, o que prejudica também o comércio. Os repasses constitucionais feitos pelo governo federal também despencaram. Obras estão paralisadas. Assim, a Prefeitura de Campo Grande reduziu em R$ 181,14 milhões a projeção da receita para este ano e tenta cortar R$ 301 milhões. Já era previsto que 2015 seria um ano de dificuldades econômicas, apesar das resistências da presidente Dilma Rousseff em admitir os equívocos que resultaram no colapso das finanças. A tentativa de mascarar os problemas durante a campanha eleitoral fez com que providências demorassem a ser adotadas. Entretanto, as dificuldades nacionais não isentam os gestores locais, os quais também cometeram discrepâncias que contribuíram para agravar o desfalque nos cofres públicos.
No sufoco, a administração municipal tenta reduzir a folha de pagamento, pois já extrapolou o limite prudencial de 51,3% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Com isso, além de não poder onerar ainda mais a folha, a prefeitura fica impedida de realizar operações de crédito e assinar novos convênios. É indiscutível a necessidade de adotar medidas de contenção de gastos. No entanto, fica a dúvida se os gestores não poderiam ter contido mais algumas despesas e, assim, evitar as ações drásticas que atingem diretamente os servidores municipais e os campo-grandenses, que passam a contar com menos investimentos. A prefeitura da Capital também paga por erros herdados. No ano passado, por exemplo, a prefeitura reajustou em 107% o contrato com a CG Solurb, responsável pela coleta de lixo e limpeza na Capital. O serviço – na época da formalização do contrato, em 2012 – teria custo mensal de R$ 4,3 milhões e subiu para R$ 9 milhões. A alegação foi a necessidade de ampliar a área de atuação, mas até agora não ficou claro por que toda a cidade não foi incluída no período em que a licitação foi lançada. A atual gestão e o Ministério Público Estadual deveriam questionar os valores e as contradições contratuais. Há, ainda, o agravante de que parte da limpeza de canteiros de avenidas continua a ser feita por funcionários contratados pela prefeitura.
Outro desperdício na aplicação de recursos foi flagrado nas operações tapa-buraco, que nunca contaram com fiscalização. Assim, a população acompanhou o absurdo de reparos onde os danos simplesmente não existiam. O governo federal também dá mau exemplo de administração nas finanças quando amplia para R$ 900 milhões o valor destinado para o fundo partidário em 2015, valores três vezes maior do que era concedido. Sem contar, ainda, os diversos escândalos nacionais que envolvem desvios de recursos, como a “Lava Jato”. Os problemas econômicos estão intrinsecamente relacionados às falhas administrativas e a conjuntura nacional é indissociável dos problemas regionais. Entretanto, o cenário de crise poderia não ter tanto impacto com um pouco mais de cautela e transparência, apanágios negligenciados pela gestão petista.


