Artigos e Opinião

Editorial

Problema típico de Campo Grande

Recapeamento segue como algo de segunda linha na administração pública

Continue lendo...

Há quase 15 anos, em 2012, o ex-governador André Puccinelli ganhava mídia gratuita praticamente todas as semanas por conta das visitas constantes que fazia às obras de recapeamento da Avenida Afonso Pena.

Eram verdadeiros eventos. Pouco depois, o ex-prefeito Alcides Bernal, em meio à sua conturbada gestão, também recebeu infindáveis aplausos em decorrência dos recapeamentos que fez em vias como a Avenida das Bandeiras e a Rua Spipe Calarge, entre outras.

Eles somente ganhavam os holofotes, porque efetivamente o assunto era relevante e tinha o interesse de grande parcela da população.

Obras bem maiores e estruturantes, como a construção de avenidas como a José Barbosa Rodrigues ou Lúdio Coelho, por exemplo, deram um décimo da visibilidade aos políticos que estavam no poder à época. 

Agora, cerca de uma década e meia depois e em meio a uma cidade tomada pela buraqueira, a Avenida Afonso Pena, a Avenida Bandeiras e a Rua Spipe Calarge seguem praticamente intactas e livres daquele que possivelmente seja o maior tormento dos moradores de Campo Grande.

Depois daquelas obras iniciais, outras importantes vias receberam o tão esperado recapeamento, principalmente durante a gestão Marquinhos Trad.

Mais recentemente, há cerca de dois anos este mesmo tipo de investimento, foi, possivelmente, o principal responsável pela reeleição da atual prefeita, já que às vésperas da eleição as máquinas literalmente brotaram no meio de vias importantes da cidade para tentar mostrar que a administração municipal estava dando conta de cuidar da Capital.

Mesmo assim, o recapeamento segue como algo de segunda linha na administração pública. Na semana passada, um grande evento, com a presença do governador, prefeita, senadores, deputados e vereadores deu visibilidade aos investimento da ordem de R$ 350 milhões em asfalto novo em mais de 30 bairros.

Ontem, a prefeitura publicou a assinatura de sete contratos para obras de recapeamento espalhadas por toda a cidade.

O valor, R$ 37 milhões, é pouco mais de um décimo daquilo que foi destinado ao asfalto novo. Mesmo assim, o programa foi anunciado como algo inédito e como se fosse a salvação da pátria. 

Mas, ao que tudo indica, estes recapeamentos serão pulverizados nos quatro cantos da cidade e não haverá dinheiro suficiente para recuperar vias primordiais e de grande fluxo, como a Avenida Manoel da Costa Lima, a Mascarenhas de Morais, a Guri Marques e a parte sul da Avenida Ernesto Geisel, entre outras tantas.

O pacote de obras para asfalto novo é, praticamente todo ele, bancado por recursos federais e lá em Brasília, alegam as autoridades, é difícil conseguir recursos para investir em recapeamento.

E faz todo o sentido isso. Quando recursos são liberados para asfalto novo, a lógica é de que nestas vias sejam feitas obras duráveis. 

Em Campo Grande, porém, em obras como a duplicação da Avenida Duque de Caxias, por exemplo, os buracos começam a aparecer infinitamente dois anos depois da entrega do asfalto novo.

Então, ao que tudo indica, a necessidade de dinheiro para recapeamento e o interesse da população pelo tema são questões típicas da cidade. E uma das explicações é o asfalto novo malfeito. 

Assine o Correio do Estado

Artigo

Selo Agro Mais Integridade: por que ele importa?

Selo Agro Mais Integridade, instituído no âmbito do Ministério da Agricultura e Pecuária, ganha relevância como política pública de reconhecimento

05/05/2026 07h45

Continue Lendo...

Já não surpreende que o agronegócio brasileiro entregue escala, eficiência e protagonismo internacional. O que surpreende é que parte do mercado ainda sustente uma premissa ultrapassada: a de que, em nome do resultado econômico, os meios para alcançá-lo podem ser relativizados.

Em cadeias globais cada vez mais reguladas, com crescente exigência de rastreabilidade e sob o impacto de iniciativas como o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, integridade deixou de ser apenas atributo reputacional para se afirmar também como variável econômica, capaz de ampliar ou restringir mercados.

Nesse cenário, o Selo Agro Mais Integridade, instituído no âmbito do Ministério da Agricultura e Pecuária, ganha relevância como política pública de reconhecimento e indução de boas práticas. Ele valoriza empresas comprometidas não apenas com resultados, mas com padrões éticos, sociais e ambientais consistentes.

A regulamentação mais recente, prevista na Portaria Mapa n° 828/2025, reforça essa lógica ao estimular programas de integridade, enfrentar práticas desleais e reduzir riscos de fraude e corrupção nas relações entre setor privado e poder público – resposta institucional a um ambiente de maior pressão reputacional sobre o setor.

O Selo evidencia que integridade não pode ser tratada como adereço institucional. Ela ocupa espaço estratégico na governança das empresas, especialmente em um setor pressionado por transparência, sustentabilidade, conformidade regulatória e comprovação documental.

Mais do que reconhecimento, o Selo opera como mecanismo de distinção pública. Estabelece critérios objetivos de elegibilidade, afasta empresas envolvidas em irregularidades relevantes e exige evidências concretas de programas efetivos de integridade, responsabilidade social e sustentabilidade ambiental.

Na prática, isso significa comprovar estrutura, funcionamento e consistência. Programas anticorrupção, canais de denúncia, gestão de riscos, regularidade trabalhista, saúde e segurança no trabalho e compromisso ambiental deixam de ser atributos reputacionais para se consolidar como requisitos de permanência em cadeias produtivas mais exigentes.

E por que isso importa? Porque, no ambiente atual, integridade é fator de mercado. Estruturas eficazes de compliance reduzem riscos regulatórios, protegem a reputação, fortalecem a governança e ampliam o acesso a contratos, crédito e mercados mais rigorosos.

Em um agronegócio cada vez mais exposto a exigências nacionais e internacionais, reputação e integridade consolidaram-se como ativos econômicos.

Há, portanto, uma mensagem clara: o futuro do agro brasileiro não depende apenas de produtividade, tecnologia e escala. Depende também de credibilidade.

Em Mato Grosso do Sul, onde o agronegócio sustenta a dinâmica econômica, essa transformação já não é tendência. É exigência para quem deseja competir em cadeias cada vez mais seletivas.

O dado recente de que o BNDES aprovou R$ 5,7 bilhões para o agro sul-mato-grossense em três anos reforça o ponto: quanto maior o fluxo de capital, maior também a necessidade de governança, integridade e credibilidade institucional.

Em mercados seletivos, integridade não é custo. É critério de entrada e diferencial de permanência.

Assine o Correio do Estado

Artigo

Xadrez da conveniência

A rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, por 42 a 34, ultrapassou o mero tropeço protocolar

05/05/2026 07h30

Continue Lendo...

Nos bastidores de Brasília, onde o silêncio costuma ser mais eloquente que os discursos oficiais, o desgaste do Planalto sinaliza uma mudança profunda no equilíbrio de forças do País.

A rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, por 42 a 34, ultrapassou o mero tropeço protocolar, sendo uma clara demonstração de força meticulosamente articulada por Davi Alcolumbre.

Para quem transita pela Comissão de Constituição e Justiça e capta as nuances fora do alcance das câmeras, o cenário ficou nítido: não se tratou de um embate ideológico entre direita e esquerda, mas de uma “guerra de conveniências”, na qual adversários históricos se aliaram em nome da sobrevivência política.

O equívoco de quem analisa a política apenas pela superfície é negligenciar o “xadrez 4D” que uniu figuras como Alexandre de Moraes, o próprio Alcolumbre e o núcleo duro do bolsonarismo contra o Advogado-Geral da União.

O grupo agiu sob um propósito compartilhado: impedir que a ascensão do indicado fortalecesse a ala de André Mendonça. Relator do sensível caso do Master, o magistrado – embora alçado ao posto por Jair Bolsonaro – tornou-se um aliado próximo e defensor de Messias, o que acendeu o sinal de alerta no chamado “Centrão do STF”. 

Simultaneamente, a oposição aproveitou o vácuo para operar sua própria barganha. O foco dos conservadores não era estritamente programático, mas voltado à redução de danos jurídicos.

Para selar o destino de Messias, Alcolumbre garantiu aos bolsonaristas a derrubada do veto presidencial ao “PL da Dosimetria”, ocorrida logo em seguida. 

Em contrapartida, o bloco capitaneado por Flávio Bolsonaro aceitou abdicar da pressão por uma CPI sobre o caso do Master – que envolve diretamente o senador amapaense – em troca de apoio à sua reeleição à presidência do Senado em 2027.

Firmou-se um pacto de não agressão: o inquérito permanece intocado e todos lucram ao impor uma derrota ao governo em pleno ano eleitoral.

Essa convergência deu forma ao que se pode chamar de “Frente Ampla do Centrão”, segmentada em três vertentes: a togada, a tradicional e a bolsonarista. Para esses setores, humilhar o Executivo era estrategicamente oportuno.

Lula, ao tentar se distanciar do desgaste de Moraes diante das urnas, acabou isolado. Alcolumbre, percebendo que a gratidão da oposição renderia frutos mais imediatos que as promessas do Planalto, decidiu puxar o gatilho. 

Naturalmente, esse emaranhado de interesses não anula os argumentos republicanos proferidos na tribuna: a oposição soube explorar as vulnerabilidades técnicas do candidato, conferindo uma roupagem ética a uma votação movida por interesses paroquiais.

O revés sofrido por Messias revela que o risco de instrumentalização do Supremo não é exclusividade de um único espectro político e que as emendas, agora nas mãos do Congresso, mudaram a dinâmica do jogo. Ler o Brasil por meio de rótulos, como “lulismo contra bolsonarismo”, é uma ingenuidade.

No topo da pirâmide política, a ambição prevalece sobre as bandeiras. Quem se limita às bolhas digitais jamais conhecerá o calor dos apertos de mão entre aqueles que se atacam publicamente.

O veredito do Senado foi o aviso definitivo: a lealdade dura apenas o tempo que a conveniência permitir.

Assine o Correio do Estado

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).