Artigos e Opinião

OPINIÃO

Hermano de Melo: "O lorde britânico e o editorial do Financial Times"

Jornalista e escritor

Redação

07/08/2015 - 00h00
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Foram destaque recente, na imprensa de todo o mundo, as imagens divulgadas pelo jornal sensacionalista inglês The Sun, do político britânico John Sewell – integrante da Câmara dos Lordes do Reino Unido –, em que ele aparece consumindo cocaína com prostitutas. Em consequência disso, ele renunciou ao cargo no mês passado, na terça-feira (28), mas não ao título de Lorde, logo após a Scotland Yard iniciar a investigação para apurar a veracidade do episódio.

Após a renúncia, Sewell, escocês de 69 anos, casado e pai de quatro filhos, enviou carta ao parlamento, na qual comunicou sua decisão de renunciar para “limitar o dano” à reputação da Câmara dos Lordes, e pediu desculpas pela “dor e a vergonha” que seu comportamento causou. E acrescentou: “Meu comportamento não é compatível com a Câmara dos Lordes e minha permanência prejudicaria a confiança do público. Sirvo melhor à Câmara se a abandonar”, afirmou o político escocês, que também foi expulso do Partido Trabalhista. 

O episódio acima – embora pontual e talvez inédito na história recente da Grã-Bretanha – mostra, de certa forma, a fragilidade de instituições políticas que são mantidas pelo poder público ao redor do mundo. Mas ele se torna ainda mais emblemático após a publicação de editorial do jornal inglês Financial Times, em matéria assinada por Talita Abrantes na revista Exame.com de quarta-feira (22) de julho, intitulada “Recessão e Corrupção: A Crescente Podridão no Brasil”. 

O texto se refere à crise econômica e de corrupção que o Brasil atravessa no momento como sendo “um filme de terror sem fim”.  E conclui: “A incompetência, a arrogância e a corrupção esmagaram a magia brasileira”. É assim, sem meias palavras, que o jornal britânico Financial Times faz uma dura análise sobre a condição atual do Brasil.

Mas o jornal pondera: “Nem tudo são más notícias no país”, diz. O texto argumenta que o zelo pela Petrobras mostra o quanto as instituições democráticas são fortes no Brasil. E completa: “Em um país onde os poderosos pensam que estão acima da lei, Marcelo Odebrecht, chefe da maior empresa de construção do Brasil, está preso”, afirma o texto.

No entanto, quem é o Reino Unido para dar lições de moral ao Brasil no que se refere ao item “corrupção de governo”? Pergunta-se Mauro Santayana, em longo artigo publicado mês passado, na terça (28), no Jornal do Brasil, intitulado “Os Nossos ‘Yes, Bwana’ e os Novos ‘Hai Bwana’ do Financial Times”. E questiona: “De que estava falando – ou rindo, como uma hiena – o Financial Times?”.

E ele mesmo responde: “Se a Inglaterra é tão corrupta, que deputados falsificam notas para receber ressarcimento e aplicam a verba de gabinete até para a assinatura de canais pornográficos? “E se o ex-presidente do Comitê de Inteligência do Parlamento Malcolm Rifkind e o político trabalhista Jack Straw, ex-secretário de Justiça, ex-líder da Câmara dos Comuns, caíram em arapuca criada por jornal e canal de TV, no início deste ano, e foram filmados sendo contratados para vender serviços de “consultoria” para pressionar embaixadores britânicos e líderes de pequenos países europeus e favorecer negócios de empresa chinesa (fictícia), por quantias que variavam de 5.000 a 8.000 libras por dia?”

Diante disso, o que dizer da atitude do lorde britânico John Sewell, pego no flagra, cheirando ao que parece cocaína e rodeado de prostitutas em ambiente ultrassuspeito. Olha no que dá falar mal dos outros, Financial Times!

Editorial

Doação que virou caso de polícia

Sem analisar o caso, Câmara aprovou a cedência, supostamente ilegal, de área da União a condomínio de luxo e, agora, todo o empreendimento pode ficar parado

30/04/2026 07h15

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A prática de aprovar no afogadilho uma infinidade de projetos no fim do ano faz parte da tradição do Legislativo, seja ele municipal, estadual ou federal. É tradicional, também, a inclusão dos chamados “jabutis” em meio a esses projetos.

Pelo menos é esta a justificativa dos legisladores depois que descobrem que aprovaram algo estranho ou que provoca algum tipo de repercussão. Isso porque é mais cômodo dizer que foram enganados do que admitir que segundas intenções estavam em jogo. 

Esta vergonhosa tradição não pode ser jogada somente no colo dos legisladores. Os chefes do Executivo têm parte desta culpa. Mas, levando em consideração que são todos farinha do mesmo saco e que em determinado momento um deles têm mais poder que os demais, o fato é que esta tradição revela que a classe política trata a coisa pública com total desdém.

A liberação que os vereadores de Campo Grande deram no fim de 2024 para que uma incorporadora usasse uma área pública federal para construir o acesso a um condomínio de luxo é somente mais um exemplo de que existe explícita irresponsabilidade na hora de aprovar determinados projetos.

Enquanto eles brincavam de legislar, empresários apostaram milhões de reais em um projeto imobiliário de alto padrão, e esta mesma falta de seriedade fez com que centenas de investidores apostassem parte de suas economias em algo que estava sendo feito com o aval das autoridades municipais.

Ao que tudo indica, nem Executivo nem Legislativo se aprofundaram no assunto e simplesmente cederam em torno de 1,7 quilômetro de ferrovia, o que equivale a cerca de 51 mil metros quadrados, em uma região onde terrenos nos condomínios são vendidos por cerca de 2,5 mil por m².

Por mais que esta área tenha ficado na parte externa do novo condomínio de luxo, a investigação do Ministério Público Federal, que questiona a competência para que a área fosse cedida, tende a provocar um imbróglio legal que pode ser arrastar por anos.

Enquanto isso, o empreendimento corre o risco de ficar paralisado e todo o projeto ter de ser refeito. 

O trecho de trilho invadido e retirado com autorização dos vereadores e da prefeita de Campo Grande faz parte do antigo traçado da ferrovia.

Depois da construção do contorno ferroviário, ativado no fim de 2006, o traçado da ferrovia efetivamente utilizável passou a ficar longe da área urbana de Campo Grande.

Mesmo assim, as terras nas quais estão os antigos trilhos continuam nas mãos da empresa responsável pela concessão, a Rumo, e pertencem ao governo federal, verdadeiro proprietário do imóvel. A Rumo foi à Polícia para exigir a devolução da área. 

Caso a Justiça entenda que aquele trecho de ferrovia tenha de ser reconstruído, como agora deseja a Rumo, uma vez que dá acesso a uma antiga estação ferroviária, os custos serão bancados por quem?

Os vereadores certamente não vão querer colocar a mão no bolso e a incorporadora responsável pelo condomínio, também não. Ou seja, quem terá de pagar a conta será o contribuinte de Campo Grande. 

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Artigo

Por que trocar o prazer das telas do celular pelo prazer da leitura

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura

29/04/2026 07h45

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Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta-feira, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares.

Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos e outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes.

Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível.

Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo.

Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo.

Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental.

Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar?

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