Artigos e Opinião

EDITORIAL

IPTU: conta subiu, explicação falhou

Apenas o contribuinte, pego de surpresa com um carnê mais alto, tem razão. E é a partir dessa constatação que o debate precisa avançar

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O aumento sentido por milhares de contribuintes nos carnês do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) de Campo Grande não surgiu do nada, tampouco pode ser tratado como um mero acaso administrativo ou fruto de exagero coletivo.

Tudo indica que a principal engrenagem por trás da elevação despadronizada – exorbitante para alguns casos específicos – foi a atualização do Mapa do Perfil Socioeconômico Imobiliário, instrumento técnico que influencia diretamente a base de cálculo da taxa do lixo e, por consequência, o valor final cobrado do contribuinte.

Trata-se de um mecanismo previsto na legislação e, em tese, legítimo do ponto de vista fiscal. Na prática, porém, produziu impactos concretos e imediatos no bolso de quem já convive com um cenário de custos crescentes.

O problema ganhou contornos ainda mais sensíveis porque o IPTU passou a carregar, no mesmo boleto, a taxa do lixo. A cobrança casada fez com que o aumento fosse percebido de forma mais intensa, reforçando a sensação generalizada de que o imposto “disparou” de um ano para o outro.

Para o cidadão comum pouco importa a distinção técnica entre tributos e taxas: o que chega é um carnê mais caro. Nesse ponto, a reação do contribuinte é não apenas compreensível, como absolutamente legítima.

Afinal, o efeito final foi um impacto direto no orçamento doméstico sem que houvesse aviso prévio adequado ou esclarecimento suficiente.

É justamente aí que reside o maior erro do poder público neste episódio: a comunicação. Faltaram transparência, didatismo e, sobretudo, previsibilidade. O contribuinte foi pego de surpresa, sem entender exatamente o que mudou, por que mudou e quais critérios foram utilizados para recalcular valores.

Em um contexto de inflação persistente, renda pressionada e despesas essenciais cada vez mais altas, qualquer reajuste relevante exige, no mínimo, uma explicação clara, acessível e antecipada.

Muito ainda pode – e deve – ser feito para corrigir distorções, ajustar critérios e aprimorar o sistema de cobrança. Mas isso exige coerência institucional. A Câmara Municipal, por exemplo, aprovou no ano passado a alteração dos critérios da taxa do lixo.

Agora, quando os carnês chegam às casas e a reação popular se intensifica, parte dos vereadores coloca-se contra a cobrança.

De que lado esteve o Legislativo quando votou a lei? E de que lado está agora? A pergunta vai além da retórica e expõe um desconforto político evidente: será que os parlamentares compreenderam plenamente – ou sequer leram com a devida atenção – a norma que aprovaram?

Também cabe à Prefeitura cumprir seu papel de forma responsável e transparente. Não basta afirmar que a atualização era necessária ou que seguiu parâmetros técnicos.

É preciso explicar como ela foi feita, quais imóveis foram impactados, por quais motivos e em que medida isso aconteceu. Informação clara não é favor; é direito do contribuinte e dever da administração pública.

Neste episódio, entre Prefeitura, Câmara e discursos desencontrados, há um ponto inequívoco: apenas o contribuinte, pego de surpresa com um carnê mais alto, tem razão.

E é a partir dessa constatação que o debate precisa avançar, com menos improviso político, mais clareza institucional e, sobretudo, mais respeito a quem, ano após ano, paga a conta.

EDITORIAL

É preciso "luz" sobre a iluminação pública

Quando o cidadão aceita pagar uma taxa específica vinculada a um serviço essencial, o mínimo que se exige do poder público é transparência absoluta

06/01/2026 07h15

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O que se pode esperar de uma cidade como Campo Grande, que arrecada R$ 196,8 milhões por ano com a Contribuição Social para o Custeio da Iluminação Pública (Cosip)? A pergunta é quase retórica, mas nem por isso menos necessária.

Quando o cidadão aceita pagar uma taxa específica vinculada a um serviço essencial, o mínimo que se exige do poder público é transparência absoluta: quanto se arrecada, como se gasta, com quem se contrata e quais resultados são entregues à população.

É justamente aí que o discurso começa a falhar. A sensação crescente é de que a gestão da iluminação pública na Capital ocorre em uma zona cinzenta, distante do escrutínio público que cifras dessa magnitude exigem.

Não por acaso, uma das evidências mais contundentes dessa falta de transparência veio no mês passado, com a operação deflagrada pelo Grupo Especializado de Combate à Corrupção (Gecoc) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que colocou sob investigação contratos ligados ao setor.

Nesta edição, seguimos tratando do tema porque ele é central para a boa governança da cidade. Os valores dos contratos sob investigação impressionam e reforçam a necessidade de respostas claras.

Há empresas na mira do MPMS que, além de serem remuneradas com recursos da Cosip, também mantêm contratos paralelos e igualmente rentáveis de locação de máquinas para o Município.

A sobreposição de interesses e fontes de receita levanta questionamentos que vão além da legalidade formal e alcançam o campo da moralidade administrativa.

Talvez alugar bens ao poder público seja, de fato, um dos negócios mais seguros e lucrativos que existem. Prefeituras raramente investem em patrimônio próprio, e a locação surge como solução rápida, prática e aparentemente eficiente.

Mas a experiência brasileira mostra que, em muitos casos, alugar também se tornou um caminho fácil para distorções, sobrepreços e esquemas que alimentam caixas paralelos. Não é um juízo definitivo, mas é um alerta que a história recente recomenda não ignorar.

No caso específico da iluminação pública, a pergunta que ecoa é simples e incômoda: o que Campo Grande faz com tanto dinheiro? Os quase R$ 197 milhões arrecadados superam os R$ 154 milhões de Curitiba, cidade com o dobro da população, e representam cerca de três vezes o montante arrecadado por Porto Alegre.

A discrepância, por si só, não prova irregularidade, mas exige explicações técnicas, detalhadas e acessíveis ao cidadão comum.

Até agora, essas explicações não vieram com a clareza necessária. Diante desse silêncio, é o MPMS que parece buscar as respostas que a administração ainda não ofereceu. Transparência não é favor, é obrigação. E quando ela falta, a desconfiança ocupa o espaço.

Em um tema tão sensível quanto a gestão de quase R$ 200 milhões anuais, Campo Grande deve mais do que iluminação nas ruas: deve luz sobre seus próprios contratos.

ARTIGOS

Efeito Venezuela: O risco eleitoral 2026

Embora previsível no plano geopolítico, o episódio cria um dilema político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva

05/01/2026 07h45

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O ataque dos Estados Unidos a Caracas, com o objetivo de capturar Nicolás Maduro, acrescentou um fator de instabilidade a já complexa sucessão presidencial brasileira de 2026.

Embora previsível no plano geopolítico, o episódio cria um dilema político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A defesa da soberania nacional havia se mostrado um ativo recente do governo, especialmente após o tarifaço imposto por Donald Trump. A crise venezuelana, porém, muda o cenário.

O tema envolve um histórico sensível: a relação do PT e de Lula com o chavismo tende a ser explorada pela oposição, em um país majoritariamente crítico ao regime de Maduro.

Nos bastidores do Planalto, aliados reconhecem que, apesar de correta do ponto de vista institucional, a condenação brasileira à ação militar americana não gera o mesmo dividendo político de episódios anteriores.

Pesquisas mostram que cerca de 90% dos brasileiros têm visão negativa do governo venezuelano, associado ao autoritarismo, repressão e colapso social.

O governo brasileiro não reconheceu a reeleição de Maduro, mas retomou as relações diplomáticas. A linha adotada é de equilíbrio: defesa da soberania, sem respaldo político ao regime venezuelano.

A crise soma-se a outros desafios internos – governabilidade no Congresso, segurança pública, tensões institucionais e polarização extrema.

O resultado é um cenário de elevada imprevisibilidade eleitoral. Em 2026, o fator Venezuela pode não decidir a eleição, mas certamente acrescenta ingredientes de tensão no caminho do presidente Lula.

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