Artigos e Opinião

EDITORIAL

Mordomias no Legislativo: reflexão necessária

No período eleitoral, o parlamentar naturalmente larga em vantagem em relação aos adversários que não dispõem da mesma estrutura custeada com recursos públicos

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Nos últimos dias, este jornal publicou uma série de reportagens revelando as mordomias de deputados estaduais, federais e senadores de Mato Grosso do Sul. Os dados, oficiais e obtidos por meio de documentos públicos, expõem um padrão de gastos que causa indignação e exige reflexão.

Não se trata de casos isolados ou exceções pontuais, mas de um modelo de funcionamento que parece naturalizado nos bastidores do poder.

As mordomias são variadas e, em muitos casos, difíceis de justificar. Há dinheiro público destinado ao pagamento de pilotos, a aluguel de veículos, a despesas elevadíssimas com combustíveis, além de outros custos que, somados, representam cifras expressivas.

Tudo isso bancado pelo contribuinte, que enfrenta dificuldades cotidianas para arcar com impostos, tarifas e serviços básicos cada vez mais caros.

A explicação apresentada pelos parlamentares costuma ser a mesma: os gastos seriam necessários para atender às bases eleitorais e viabilizar o exercício da atividade parlamentar.

Mas é preciso perguntar, com honestidade: isso é realmente indispensável? Em tempos de tecnologia, comunicação instantânea e agendas cada vez mais digitais, faz sentido manter um modelo de despesas tão elevado e pouco transparente?

Há um ponto ainda mais delicado nessa discussão. Se um parlamentar utiliza dinheiro público para atender sua base eleitoral, o Estado passa a financiar, direta ou indiretamente, a sua atividade política.

Quando chega o período eleitoral, esse parlamentar naturalmente larga em vantagem em relação aos adversários que não dispõem da mesma estrutura custeada com recursos públicos. Isso distorce a disputa, compromete a isonomia e enfraquece a democracia. É uma reflexão que não pode ser ignorada.

Enquanto isso, a demanda por recursos para políticas públicas é imensa. Falta dinheiro para saúde, educação, infraestrutura, assistência social.

Em meio a tantas carências, é legítimo questionar: desde quando a gasolina de um parlamentar se tornou política pública? O salário já é elevado e deveria ser suficiente para garantir o exercício da função com dignidade, sem excessos.

Por isso, é fundamental que o eleitor esteja atento. Mais do que isso, é necessário que essas mordomias sejam revistas com seriedade. Política é função pública, não carreira vitalícia. Cargo não é prêmio, nem privilégio.

Apostar em políticos profissionais, sustentados por benefícios permanentes, é apostar na desconexão entre representantes e representados. O momento exige responsabilidade, sobriedade e respeito ao dinheiro de quem paga a conta.

ARTIGOS

FGC e a crise de notas: a responsabilidade sob exame

A chancela oficial, concedida sob o manto de uma tecnicidade questionável, mascara o risco real que corrói o patrimônio de terceiros

12/01/2026 07h45

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Com os sobressaltos que ocorrem a cada dia nos inusitados caminhos do banco e da banca (rumos do sistema bancário), causa espanto constatar, segundo informações de autorizado especialista do setor, que certa agência classificadora de risco deu nota A para o banco liquidado e “desliquidável” (sem salvação).

Aliás, o mesmo especialista indicou como funcionam as coisas. São solicitadas as avaliações às abalizadas agências, de reconhecida idoneidade, e divulga-se tão somente as melhores ou, até mesmo, só a melhor nota. As más avaliações são guardadas no sexto arquivo.

É bem possível que, se algum dos órgãos investigadores fosse atrás de saber o que motivou a nota A, sairia correndo para comprar títulos podres remasterizados, para guardar como relíquia dessa época atípica.

A chancela oficial, concedida sob o manto de uma tecnicidade questionável, mascara o risco real que corrói o patrimônio de terceiros. Esse descompasso entre a classificação e a realidade operacional denota uma fragilidade alarmante nos mecanismos de controle vigentes.

Diante de tal cenário, a confiança, que deveria ser o pilar mestre do sistema financeiro, transforma-se em mercadoria volátil e de procedência duvidosa. O investidor, desamparado por laudos de conveniência, torna-se a peça vulnerável em um tabuleiro de interesses opacos.

Um respeitável e sóbrio economista não teve dúvida em asseverar que, no caso presente – o do banco nota A – “tem muita gente que quer assar uma pizza do tamanho do Maracanã”.

Sei que, para a maior parte dos leitores, inclusive para mim, a pizza é quase um bem de consumo direto carregado de unanimidade. Pode-se dizer, parafraseando o sambista, que quem não gosta de pizza bom sujeito não é.

Entretanto, o odor insuportável dos ingredientes estragados torna esse tão apreciado alimento algo repugnante.

O odor que perpassa essa preparação da imensa pizza deixa, em seu rastro, a podridão dos consignados que, já exalando mau cheiro de outros locais, avançam pela pimenta vermelha estragada das invasões de competência – em que todos querem aparecer, sempre em cumprimento daquela missão que Chacrinha ironicamente atribuía a si: “Eu vim para confundir, não para explicar”.

Nessa linguagem cifrada, que pouco ou nada significa para nós, os leigos, aparece uma tábua de salvação que, talvez, tenha de salvar a si mesma. É o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Este fez sua parte, emitindo nada menos que 38 alertas sobre os ingredientes estragados que poderiam matar quem ingerisse a deformada pizza.

Agora, os custos serão repartidos entre todos. Até os beneficiários de fundos de pensão – que confiaram no zelo de aplicações destinadas a um futuro menos aflitivo – serão forçados a engolir um naco de pizza podre.

Ainda bem que foi vetada a compra do banco nota A por um banco público, cujos avaliadores internos deveriam estar comprando gato por lebre, ou seja, recebendo, em suas sofisticadas due diligences, apenas os laudos enviesados de agenciadores que torciam pelo sucesso da transação. Essa foi a pizza que desandou antes de ir para o forno.

A crise mundial – na qual o Brasil se encontra perfeitamente inserido – revela que a capacidade de previsão tem falhado em quase tudo.

Agora já se chegou ao ponto de um órgão do poder público projetar a organização de um dos maiores eventos de certa cidade mediante a previsão de um falecido cacique de que não haveria chuva naquele dia.

O sistema, envolto em fumaça de conveniência, prefere ignorar o óbvio em favor de uma estabilidade de fachada. Enquanto os ingredientes da má gestão apodrecem à vista de todos, as notas oficiais seguem perfumando o que já não tem mais salvação.

Essa cegueira deliberada, que ignora alertas técnicos para servir fatias de prejuízo ao público, é o sintoma de uma ética em colapso. No banquete dos conchavos, o custo da indigestão recai sempre sobre o cidadão que acreditou na higidez do cardápio.

Caminhemos, pois, para um ponto final de previsões. Chega de invasão de competências, preparatórias de montagem de pizzarias falidas, vendedoras de ilusões.

ARTIGOS

Mercosul, União Europeia e a dupla vulnerabilidade da economia brasileira

Apesar de apresentar algum dinamismo nos últimos anos, a economia brasileira convive com uma dupla vulnerabilidade estrutural: a forte reprimarização da pauta de exportações e a elevada dependência de poucos países como destino de seus produtos

12/01/2026 07h30

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Ainda existem questões pendentes para que o acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE) entre efetivamente em vigor. Entretanto, trata-se de um arranjo econômico de grande magnitude: um mercado conjunto de aproximadamente 720 milhões de pessoas, responsável por cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que o Brasil poderia elevar seu PIB em 0,46%, um crescimento superior ao projetado para a própria União Europeia e para os demais países do Mercosul.

Apesar de apresentar algum dinamismo nos últimos anos, a economia brasileira convive com uma dupla vulnerabilidade estrutural: a forte reprimarização da pauta de exportações e a elevada dependência de poucos países como destino de seus produtos. Será que esse acordo tem potencial para alterar esse quadro?

Nas últimas décadas, o Brasil vem passando por um processo intenso de reprimarização da pauta exportadora, caracterizado pela predominância de produtos de baixo valor agregado. Soma-se a isso a elevada concentração de parceiros comerciais nas exportações.

Para se ter uma dimensão do problema, em 2025, segundo dados do Comexstat, quase 30% das exportações brasileiras tiveram como destino a China, enquanto outros 11% foram direcionados aos Estados Unidos. Ou seja, praticamente metade das exportações depende de apenas dois mercados.

Eventuais crises econômicas, tensões políticas ou mudanças estratégicas nesses países podem expor a economia brasileira a elevados riscos. Do ponto de vista setorial e produtivo, a concentração também é evidente, com destaque para petróleo, minério de ferro, soja, açúcar e carnes, representando em torno de metade das exportações.

Diante desse cenário, o acordo entre Mercosul e União Europeia tende a alterar a estrutura da economia brasileira? A resposta, ao menos no curto e médio prazo, é: apenas parcialmente. O acordo é gradual e relativamente modesto em termos de abertura comercial, distante de uma liberalização ampla e imediata.

A expectativa é de reduções progressivas de tarifas sobre cerca de 91% a 95% dos itens comercializados, em prazos que variam entre 12 anos e 15 anos.

E quanto à dupla vulnerabilidade da economia brasileira, o que se pode esperar? Por um lado, abre-se a oportunidade para o estabelecimento de parcerias estratégicas e tecnológicas capazes de elevar a produtividade de setores industriais.

No entanto, a experiência internacional mostra que países tendem a ampliar os ganhos justamente nos setores em que já são mais competitivos.

Assim, no que se refere à reprimarização da pauta exportadora, esse gargalo pode até se aprofundar, à medida que empresas europeias, sobretudo da Alemanha, passem a concorrer de forma mais intensa no mercado brasileiro.

Por outro lado, no que diz respeito à dependência de parceiros comerciais, o acordo pode gerar benefícios relevantes. A ampliação do acesso ao mercado europeu tende a reduzir a excessiva concentração das exportações brasileiras na China e nos Estados Unidos.

Ainda é cedo para mensurar com precisão os impactos desse acordo, mas pode-se ter uma tendência: a reprimarização da pauta exportadora deve persistir, enquanto a diversidade de parceiros comerciais tende a aumentar.

Para que o acordo entre Mercosul e União Europeia contribua, de fato, para reduzir a vulnerabilidade estrutural da economia brasileira, será indispensável uma estratégia doméstica clara e coordenada.

Isso passa por políticas industriais modernas, investimentos consistentes em inovação, qualificação da mão de obra e integração entre universidades, centros de pesquisa e setor produtivo.

Sem esse esforço interno, o Brasil corre o risco de apenas ampliar mercados para seus produtos primários, reforçando uma inserção internacional pouco sofisticada.O acordo pode ser uma alavanca para o desenvolvimento, mas somente se for acompanhado de políticas públicas que transformem acesso a mercados em ganhos sustentáveis de produtividade, diversificação exportadora e crescimento de longo prazo.

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