Saí às 17h45min. Os portões foram abertos às 16h, grande parte do público já estava no Autódromo Internacional Orlando Moura. Ia ter trânsito, claro. Um pouco mais de uma hora para completar o trajeto do centro da cidade até o local do show. Quem dera. O trânsito parado na Avenida Ministro João Arinos e a fila de veículos a perder de vista eram um mau sinal. Para quem ia ao show e para quem pegaria a próxima saída para chegar em casa.
Às 19h40min soube que ia atrasar. Pessoas desciam dos carros a mais de 12 quilômetros do autódromo, temerosas de não chegarem a tempo. Vi três pessoas, duas mulheres e um homem, descerem de um sedã preto xingando e gesticulando. Farinha foi jogada por uma das mulheres dentro e sobre o carro.
O quilo do ingresso solidário. Não houve solidariedade entre os que não tinham culpa da situação, um trabalhador querendo garantir seu rendimento, três passageiros querendo seguir.
Motociclistas por todos os lados às 20h, muitas pessoas chamando. De carro ou ônibus, como os 30 que foram fretados por empresário, não ia dar para chegar. Muitos desistiram.
Faltavam 30 minutos para o show. Nas redes, trechos do show do Raimundos. Chamava atenção o espaço que deveria estar ocupado pelos milhares no engarrafamento.
As primeiras notícias sobre o atraso do Guns N’ Roses chegaram às 21h. Queriam esperar por quem seguia a pé. Próximo do pontilhão, vi a primeira viatura do Detran-MS, perto de uma das alças de acesso, pela qual desciam duas carretas.
Achei ter ouvido da organização do evento, da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Detran-MS que caminhões não iam circular das 18h às 22h. Devo ter ouvido errado. Trabalhadores que desceram do coletivo preso no engarrafamento caminhavam ao lado da avenida.
Às 22h30min chegaram as notícias de que o show tinha começado. Motociclistas faziam rali pelas ruas paralelas à João Arinos: desciam barrancos e buzinavam pedindo passagem.
Ofereciam aos motoristas seus serviços, alguns até encontraram lugar para estacionar seus carros e seguiram de moto.
Só às 23h que vi a primeira viatura da PRF, no ponto em que a João Arinos perde seu “canteiro central”. A ação das autoridades era tão sutil que apenas os inteligentes podiam ver.
Milhares sentiam isso na pele. Cinco horas em um carro, o show tinha começado há mais de meia hora. Talvez desse para ver uma ou duas músicas.
Quase 0h. Um posto em frente a um condomínio. Longe ainda. O corpo quase travou ao descer do carro. No banheiro, era tanto cansaço que esvaziar a bexiga nem foi tão prazeroso assim.
Dava para ouvir “November Rain”, mas a distância podia estar pregando peças. Era tentador seguir, no entanto, o destino agora estava no sentido contrário. Na pista vazia.
Muitos que não chegaram ao show poderiam contar experiências como essas ou até piores. Houve amadorismo, promessas de planejamento vazias, descuido e desrespeito.
Uma grande estrutura para o show, instalada em um local inacessível sem organização e autoridades fazendo seu trabalho.
Mas a PRF foi rápida em responder a isso e jogar a responsabilidade apenas nas costas dos organizadores, que venderam ingressos até para o estacionamento e não entregaram os acessos que prometeram.
Assim, a PRF se esquivou da responsabilidade de não ter conseguido resolver o problema de três faixas que viram duas, duas faixas que viram uma, enquanto a faixa no sentido contrário permaneceu livre o tempo todo.
A organização do evento não conseguiu atender os que acreditaram em um produto bem vendido, que se prepararam por meses para estar presentes, que saíram do trabalho mais cedo, que não imaginaram que enfrentariam mais de cinco horas de congestionamento, que abandonaram o carro e foram a pé ou de moto, que conseguiram chegar a tempo e depois ficaram presos por mais cinco horas tentando voltar para casa.
No entanto, não há “patience” que consiga mudar a realidade do amadorismo da organização do show do Guns N’ Roses e a falta de ação das autoridades no alardeado maior evento internacional de todos os tempos em Campo Grande.


