Artigos e Opinião

Editorial

O desafio do Super El Niño para MS

Quando as chuvas desaparecem e a umidade despenca, qualquer foco de incêndio pode rapidamente se transformar em uma tragédia ambiental de grandes proporções

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Os alertas climáticos que começam a ganhar força neste ano exigem atenção redobrada das autoridades e da sociedade. O chamado Super El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, já demonstra sinais de que poderá ter intensidade superior à média e provocar efeitos severos ao longo do segundo semestre.

Em Mato Grosso do Sul, os primeiros diagnósticos já apontam um cenário preocupante, principalmente para regiões historicamente vulneráveis aos extremos climáticos.

Nesta edição, mostramos que especialistas, órgãos ambientais e autoridades públicas acompanham com apreensão a evolução do fenômeno.

A tendência é de aumento nos períodos de estiagem, temperaturas acima da média e agravamento das condições propícias para queimadas. Trata-se de um cenário que, infelizmente, já não é desconhecido dos sul-mato-grossenses.

O Pantanal surge novamente como uma das áreas de maior preocupação. O bioma, que nos últimos anos enfrentou incêndios devastadores, continua exposto aos efeitos combinados da seca prolongada, da vegetação altamente inflamável e das dificuldades naturais de acesso em regiões remotas.

Quando as chuvas desaparecem e a umidade despenca, qualquer foco de incêndio pode rapidamente se transformar em uma tragédia ambiental de grandes proporções.

O temor aumenta justamente porque o Super El Niño esperado para este ano pode figurar entre os mais intensos das últimas décadas.

E eventos climáticos extremos tendem a produzir impactos em cadeia: redução da umidade, prejuízos à produção agropecuária, comprometimento da qualidade do ar, pressão sobre os recursos hídricos e aumento dos riscos à saúde da população.

Ainda assim, há motivos para um cauteloso otimismo. Diferentemente do que ocorreu em outros episódios recentes desta década, o poder público parece chegar mais preparado para enfrentar uma possível temporada severa de incêndios e estiagem.

Os sinais apontam que as autoridades estaduais e federais compreenderam a gravidade do problema e passaram a estruturar uma resposta mais robusta, tanto no campo da prevenção quanto no combate direto ao fogo.

Os investimentos em monitoramento, integração entre forças de segurança, brigadas ambientais, aeronaves, equipamentos e planos de contingência indicam uma mudança importante de postura.

Não significa que o problema esteja resolvido ou que o risco tenha desaparecido. Mas demonstra que, ao menos desta vez, existe uma consciência mais clara de que a antecipação é fundamental diante de eventos climáticos extremos.

A prevenção continuará sendo a principal arma. Campanhas educativas, fiscalização rigorosa e resposta rápida a focos iniciais podem fazer enorme diferença em um cenário de seca severa. Em situações como essa, cada dia de antecedência importa.

Há momentos em que a sociedade acompanha previsões torcendo para que elas não se confirmem. O Super El Niño é um desses casos.

Embora a ciência já indique um risco elevado para os próximos meses, permanece a esperança de que os efeitos sejam menos devastadores do que os inicialmente projetados.

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Editorial

Agro entre a supersafra e o sufoco

Há colheitas recordes, mas sem que o lucro seja proporcional. Produz-se mais, mas nem sempre se ganha mais. Em alguns casos, a margem fica cada vez mais apertada

20/05/2026 07h15

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Os números da economia brasileira neste ano ajudam a explicar por que este tem sido um ano marcado por certa perplexidade.

Em muitos aspectos, os indicadores macroeconômicos mostram um País que continua crescendo, sustentado principalmente pelo agronegócio, pelo consumo e por alguns setores de serviços.

Ainda assim, a percepção de boa parte da população e de diversos segmentos produtivos é completamente diferente. A sensação predominante não é de prosperidade, mas de sufocamento.

Essa talvez seja a principal característica econômica do ano: o descolamento entre a macroeconomia e a microeconomia.

Enquanto os grandes números apontam crescimento, a realidade de empresas, produtores rurais e famílias mostra um cotidiano pressionado por custos elevados, juros altos e endividamento crescente.

Basta observar a situação das famílias brasileiras. O alto comprometimento da renda, especialmente entre cidadãos de classe média e baixa, revela que a melhora dos indicadores nacionais não necessariamente se converteu em alívio financeiro.

O crédito caro, a inflação acumulada de serviços e alimentos e o peso das dívidas seguem comprimindo o orçamento doméstico. Em muitos lares, sobra mês no fim do salário.

No campo, a contradição também chama atenção. O agronegócio continua sendo um dos pilares da economia nacional e exerce papel decisivo para sustentar o Produto Interno Bruto.

A supersafra registrada neste ano contribui para exportações robustas e fortalece a balança comercial brasileira. Sob a ótica macroeconômica, os números impressionam.

Mas basta aproximar o olhar para perceber a insatisfação crescente entre produtores rurais. O problema está justamente no desequilíbrio entre os custos de produção e o valor recebido pelas commodities.

Fertilizantes, defensivos, combustíveis, máquinas e crédito continuam caros, enquanto produtos como a soja sofrem pressão no mercado internacional.

Como as commodities são cotadas em dólar, oscilações cambiais e movimentos externos afetam diretamente a rentabilidade do produtor.

Na prática, há produtores colhendo volumes recordes sem alcançar lucro proporcional. Produz-se mais, mas nem sempre se ganha mais. Em alguns casos, a margem fica cada vez mais apertada.

Os juros elevados ajudam a agravar esse cenário. Eles pressionam tanto o crédito rural quanto o consumo urbano, dificultam investimentos e aumentam o custo financeiro de toda a cadeia produtiva.

O resultado é uma economia que consegue apresentar bons indicadores gerais, mas sem espalhar de forma homogênea essa melhora pela sociedade.

O mais preocupante é que ainda não há sinais claros de mudança no médio prazo. A tendência é que a situação continue pressionada enquanto os custos de produção permanecerem elevados e os juros seguirem em níveis restritivos.

Talvez o principal caminho para aliviar essa tensão esteja justamente em reduzir parte dessa pressão sobre quem produz e sobre quem consome.

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Artigo

A caverna de Brasília: Flávio Bolsonaro, Vorcaro e a recusa de ver a luz

Em um intervalo de poucas horas, mudou radicalmente sua versão sobre o financiamento de "Dark Horse"

19/05/2026 07h30

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A revelação promovida pelo Intercept Brasil, em 13 de maio de 2026, de áudios, mensagens e documentos extraídos de aparelhos apreendidos do banqueiro Daniel Vorcaro reabriu, com força inédita, o debate sobre os limites éticos e jurídicos da relação entre poder político e capital financeiro no Brasil.

O senador Flávio Bolsonaro, em um intervalo de poucas horas, mudou radicalmente sua versão sobre o financiamento de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, negando pela manhã qualquer relação com Vorcaro e, à tarde, admitindo os laços com o banqueiro.

Cumpre destacar, ademais, que Vorcaro está preso por ser investigado na maior fraude bancária da história do Brasil, que teria gerado um rombo bilionário ao Fundo Garantidor de Créditos, circunstância que confere ao caso uma gravidade institucional ainda mais aguda.

Convém ressaltar, neste particular, a materialidade documental do episódio. Segundo a imprensa, pelo menos R$ 61 milhões teriam sido transferidos a pedido de Flávio entre fevereiro e maio de 2025, e um dos áudios foi enviado em setembro daquele ano, quando o Banco Master já era objeto de forte desconfiança no mercado.

Insta observar, outrossim, que parte dos recursos administrados pela instituição financeira tinha origem em aplicações públicas, inclusive aportes vinculados à Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores inativos do Rio de Janeiro, fato que fragiliza a tese exculpatória da exclusiva natureza privada dos recursos envolvidos.

Diante desse quadro probatório, a linha argumentativa adotada pelo senador e replicada por seus correligionários assenta-se numa premissa frágil: a de que se tratava de mera busca de patrocínio empresarial.

Flávio Bolsonaro convocou integrantes da pré-campanha para uma reunião de emergência em Brasília e, horas depois, divulgou nota afirmando que buscava “patrocínio privado para um filme privado”, sem uso de recursos públicos ou verbas da Lei Rouanet.

No mesmo sentido, o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, afirmou que “os fatos dizem respeito à busca de patrocínio privado para um projeto privado, sem qualquer utilização de recursos públicos” e declarou que a bancada permanece “unida e confiante no senador Flávio Bolsonaro, certa da lisura de seus atos”.

Frise-se que a principal estratégia de defesa bolsonarista nas redes tem sido compartilhar o título de uma nota da coluna do jornalista Lauro Jardim, em O Globo, segundo a qual “Vorcaro também financiou filmes sobre Lula e Temer”, recurso retórico clássico de deslocamento do foco, o conhecido tu quoque, que, no campo da lógica jurídica, configura falácia, pois a eventual conduta alheia não elide a tipicidade da própria.

Postas tais premissas, impõe-se traçar paralelo com a alegoria da caverna, narrada por Platão no Livro VII de “A República”. Na parábola, os prisioneiros, acorrentados desde a infância no fundo de uma caverna, contemplam apenas sombras projetadas numa parede e tomam-nas pela realidade integral do mundo.

Quando um deles, liberto, ascende à superfície e contempla o sol, símbolo da verdade, regressa para libertar os companheiros e é, por estes, escarnecido, hostilizado e, no limite, exterminado, porque preferem a familiaridade das sombras à dor luminosa do conhecimento. Aplica-se, mutatis mutandis, a metáfora ao eleitorado bolsonarista mais radicalizado.

Ainda que se lhes apresentem áudios autenticados, comprovantes bancários, cronogramas de transferências internacionais e a própria confissão parcial do investigado, persiste a recusa epistêmica em reconhecer a luz dos fatos, optando-se pela permanência confortável diante das sombras narrativas projetadas pelos líderes do movimento.

Veja-se, a propósito, que as reações no seio do bolsonarismo variam da defesa cega à tentativa de mudança de foco, passando por discursos cautelosos ou estratégias de “efeito espelho”, sintomatologia que, em chave platônica, corresponde justamente à reação dos cativos da caverna diante do prisioneiro liberto.

Cumpre acrescentar que, para desacreditar a denúncia, parlamentares e influenciadores alegam que a negociação teria ocorrido antes de Vorcaro se tornar alvo de investigações, o que as reportagens indicam não ser verdadeiro, e sustentam que a produtora do filme negou ter recebido os pagamentos, ignorando outros elementos que apontariam para a existência dos repasses.

Por conseguinte, o esforço narrativo opera não para iluminar, mas para reforçar as correntes, produzindo novas sombras que substituem, no imaginário do cativo, a evidência empírica que poderia libertá-lo.

Forçoso reconhecer, à luz do exposto, que o fenômeno transcende o caso individual e revela uma patologia da formação democrática contemporânea: a substituição da prova pelo pertencimento, da evidência documental pelo dogma identitário.

Quando Flávio Bolsonaro chegou a escrever, em aplicativo de mensagens, “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, enquanto Vorcaro tentava deixar o País, expôs-se algo que ultrapassa o ilícito tipificável: revelou-se a moldura afetiva e clientelística da relação.

Todavia, mesmo essa franqueza documental tende a ser ressignificada pelo eleitor cativo como prova de lealdade pessoal, virtude moral ou perseguição política, qualquer coisa, enfim, menos o que objetivamente representa.

Assim como o prisioneiro platônico prefere a sombra à luz porque a sombra não fere os olhos, o eleitor capturado pela mítica do líder prefere a versão que confirma sua identidade política àquela que a desestabiliza, pois a verdade, quando contraria convicções profundas, dói, e dói exatamente como Platão descreveu há mais de dois milênios.

Com efeito, o caso de Flávio-Vorcaro não é apenas mais um capítulo das relações promíscuas entre política e mercado financeiro brasileiro, mas também um experimento sociológico em tempo real sobre os limites da racionalidade compartilhada.

Resta saber, portanto, se as instituições, Ministério Público, Polícia Federal e eventual CPI do Banco Master, conseguirão produzir, ao final, uma narrativa fática suficientemente robusta para perfurar a parede da caverna; ou se, ao contrário, o Brasil seguirá assistindo à projeção contínua das sombras, com a multidão aplaudindo, no escuro, o ilusionista que lhe vende a escuridão como liberdade.

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