Artigos e Opinião

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O drible da realidade

54% da população não tem nenhum interesse em acompanhar a Copa do Mundo deste ano

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Falta menos de um mês para a Copa do Mundo e, sinceramente, dá um susto olhar para a rua. Não tem bandeira. Não tem adesivo no carro. Não tem aquele verde e amarelo berrando nos cruzamentos. O que a gente vê é asfalto cinza – o mesmo de sempre.

A cidade parece que esqueceu de se fantasiar. E não é preguiça coletiva, não é falta de memória. É cansaço. A verdade é que o brasileiro cansou de se anestesiar. O espetáculo perdeu a graça.

Não porque o futebol tenha deixado de ser bonito – continua sendo –, mas porque a realidade deixou de ser opcional. Você não pode mais fechar os olhos por noventa minutos e fingir que a vida é só aquela bola correndo na grama. A conta chega. Sempre chega.

Lembra quando o País parava? Quando jogo da seleção era feriado não escrito, e o chefe sabia que não adiantava marcar reunião? Pois é.

O Datafolha acaba de soltar um número que dói: 54% da população não tem nenhum interesse em acompanhar a Copa do Mundo deste ano. Nenhum. Mais da metade.

Em 1994, era o oposto: quase todo mundo queria ver aquele tetra, o Brasil inteiro na mesma sintonia. Agora? O torneio virou evento de vitrine comercial. A alma foi embora, e quem ficou, está olhando para o próprio bolso.

Mas não adianta fingir surpresa. A conta é simples: o orçamento familiar não fecha. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) avisou: 80,9% das famílias estão endividadas. Oito em cada 10 lares. Não é “apertado”, não é “fazer uma vaquinha”.

É sufoco. Mais de um quarto da renda mensal já vai embora só para pagar juros, e o resto mal dá para o básico.

E aí chega o Boletim Macrofiscal do Ministério da Fazenda e revisa a inflação para 4,5% – o teto da meta. Feira mais cara, luz mais cara, leite mais caro. Beleza, a Copa vai passar na TV aberta, sim.

Mas o torcedor não está olhando para a escalação. Ele está no supermercado, fazendo conta de cabeça, tentando entender por que o arroz subiu de novo.

Aí junta o pior: ano eleitoral. E não é um ano eleitoral qualquer – é um daqueles em que o País parece uma panela de pressão prestes a estourar. A camisa da seleção, que um dia foi quase um abraço nacional, virou arma de briga de esquina.

Vestir amarelo hoje significa declarar lado. Em vez de unir, divide. Em vez de festa, gera confusão. E o cidadão comum – que só queria tomar uma cerveja gelada e xingar o juiz em paz com os vizinhos – resolveu desistir. Porque até torcer virou ato político, e político, convenhamos, ninguém mais atura no fim do dia.

Claro que o marketing vai tentar esquentar o mote. Vai ter comercial com ex-jogador emocionado, vai ter filtro nas redes sociais, vai ter “veste a camisa” repetido até enjoar.

Vai ter escola pintando mural, empresa sorteando camisa, influencer fazendo dancinha. Mas a sociedade já não é mais criança. Maturidade também é saber o que é essencial.

E o essencial, hoje, não é título na vitrine. É comida na mesa. É remédio na farmácia. É conseguir dormir sem pensar em conta vencendo amanhã.

O que a gente está vendo, no fundo, é um drible. Só que dessa vez a bola não passou pelo goleiro. A realidade passou por cima da fantasia.

O Brasil trocou a euforia pela sobrevivência. O torcedor apaixonado deu lugar ao cidadão cansado, que confere extrato bancário em vez de escalação, que calcula juros compostos em vez de comemorar gol.

A bola vai rolar, sim. Vai ter abertura, vai ter hino, vai ter narrador emocionado, vai ter câmera lenta no primeiro gol.

Mas a pergunta que ninguém quer fazer – e que está no ar o tempo todo – é esta: com esse tanto de dívida, descrença e raiva entalada na garganta, o brasileiro ainda tem estômago para viver de samba e futebol?

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Editorial

Agro entre a supersafra e o sufoco

Há colheitas recordes, mas sem que o lucro seja proporcional. Produz-se mais, mas nem sempre se ganha mais. Em alguns casos, a margem fica cada vez mais apertada

20/05/2026 07h15

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Os números da economia brasileira neste ano ajudam a explicar por que este tem sido um ano marcado por certa perplexidade.

Em muitos aspectos, os indicadores macroeconômicos mostram um País que continua crescendo, sustentado principalmente pelo agronegócio, pelo consumo e por alguns setores de serviços.

Ainda assim, a percepção de boa parte da população e de diversos segmentos produtivos é completamente diferente. A sensação predominante não é de prosperidade, mas de sufocamento.

Essa talvez seja a principal característica econômica do ano: o descolamento entre a macroeconomia e a microeconomia.

Enquanto os grandes números apontam crescimento, a realidade de empresas, produtores rurais e famílias mostra um cotidiano pressionado por custos elevados, juros altos e endividamento crescente.

Basta observar a situação das famílias brasileiras. O alto comprometimento da renda, especialmente entre cidadãos de classe média e baixa, revela que a melhora dos indicadores nacionais não necessariamente se converteu em alívio financeiro.

O crédito caro, a inflação acumulada de serviços e alimentos e o peso das dívidas seguem comprimindo o orçamento doméstico. Em muitos lares, sobra mês no fim do salário.

No campo, a contradição também chama atenção. O agronegócio continua sendo um dos pilares da economia nacional e exerce papel decisivo para sustentar o Produto Interno Bruto.

A supersafra registrada neste ano contribui para exportações robustas e fortalece a balança comercial brasileira. Sob a ótica macroeconômica, os números impressionam.

Mas basta aproximar o olhar para perceber a insatisfação crescente entre produtores rurais. O problema está justamente no desequilíbrio entre os custos de produção e o valor recebido pelas commodities.

Fertilizantes, defensivos, combustíveis, máquinas e crédito continuam caros, enquanto produtos como a soja sofrem pressão no mercado internacional.

Como as commodities são cotadas em dólar, oscilações cambiais e movimentos externos afetam diretamente a rentabilidade do produtor.

Na prática, há produtores colhendo volumes recordes sem alcançar lucro proporcional. Produz-se mais, mas nem sempre se ganha mais. Em alguns casos, a margem fica cada vez mais apertada.

Os juros elevados ajudam a agravar esse cenário. Eles pressionam tanto o crédito rural quanto o consumo urbano, dificultam investimentos e aumentam o custo financeiro de toda a cadeia produtiva.

O resultado é uma economia que consegue apresentar bons indicadores gerais, mas sem espalhar de forma homogênea essa melhora pela sociedade.

O mais preocupante é que ainda não há sinais claros de mudança no médio prazo. A tendência é que a situação continue pressionada enquanto os custos de produção permanecerem elevados e os juros seguirem em níveis restritivos.

Talvez o principal caminho para aliviar essa tensão esteja justamente em reduzir parte dessa pressão sobre quem produz e sobre quem consome.

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A caverna de Brasília: Flávio Bolsonaro, Vorcaro e a recusa de ver a luz

Em um intervalo de poucas horas, mudou radicalmente sua versão sobre o financiamento de "Dark Horse"

19/05/2026 07h30

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A revelação promovida pelo Intercept Brasil, em 13 de maio de 2026, de áudios, mensagens e documentos extraídos de aparelhos apreendidos do banqueiro Daniel Vorcaro reabriu, com força inédita, o debate sobre os limites éticos e jurídicos da relação entre poder político e capital financeiro no Brasil.

O senador Flávio Bolsonaro, em um intervalo de poucas horas, mudou radicalmente sua versão sobre o financiamento de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, negando pela manhã qualquer relação com Vorcaro e, à tarde, admitindo os laços com o banqueiro.

Cumpre destacar, ademais, que Vorcaro está preso por ser investigado na maior fraude bancária da história do Brasil, que teria gerado um rombo bilionário ao Fundo Garantidor de Créditos, circunstância que confere ao caso uma gravidade institucional ainda mais aguda.

Convém ressaltar, neste particular, a materialidade documental do episódio. Segundo a imprensa, pelo menos R$ 61 milhões teriam sido transferidos a pedido de Flávio entre fevereiro e maio de 2025, e um dos áudios foi enviado em setembro daquele ano, quando o Banco Master já era objeto de forte desconfiança no mercado.

Insta observar, outrossim, que parte dos recursos administrados pela instituição financeira tinha origem em aplicações públicas, inclusive aportes vinculados à Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores inativos do Rio de Janeiro, fato que fragiliza a tese exculpatória da exclusiva natureza privada dos recursos envolvidos.

Diante desse quadro probatório, a linha argumentativa adotada pelo senador e replicada por seus correligionários assenta-se numa premissa frágil: a de que se tratava de mera busca de patrocínio empresarial.

Flávio Bolsonaro convocou integrantes da pré-campanha para uma reunião de emergência em Brasília e, horas depois, divulgou nota afirmando que buscava “patrocínio privado para um filme privado”, sem uso de recursos públicos ou verbas da Lei Rouanet.

No mesmo sentido, o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, afirmou que “os fatos dizem respeito à busca de patrocínio privado para um projeto privado, sem qualquer utilização de recursos públicos” e declarou que a bancada permanece “unida e confiante no senador Flávio Bolsonaro, certa da lisura de seus atos”.

Frise-se que a principal estratégia de defesa bolsonarista nas redes tem sido compartilhar o título de uma nota da coluna do jornalista Lauro Jardim, em O Globo, segundo a qual “Vorcaro também financiou filmes sobre Lula e Temer”, recurso retórico clássico de deslocamento do foco, o conhecido tu quoque, que, no campo da lógica jurídica, configura falácia, pois a eventual conduta alheia não elide a tipicidade da própria.

Postas tais premissas, impõe-se traçar paralelo com a alegoria da caverna, narrada por Platão no Livro VII de “A República”. Na parábola, os prisioneiros, acorrentados desde a infância no fundo de uma caverna, contemplam apenas sombras projetadas numa parede e tomam-nas pela realidade integral do mundo.

Quando um deles, liberto, ascende à superfície e contempla o sol, símbolo da verdade, regressa para libertar os companheiros e é, por estes, escarnecido, hostilizado e, no limite, exterminado, porque preferem a familiaridade das sombras à dor luminosa do conhecimento. Aplica-se, mutatis mutandis, a metáfora ao eleitorado bolsonarista mais radicalizado.

Ainda que se lhes apresentem áudios autenticados, comprovantes bancários, cronogramas de transferências internacionais e a própria confissão parcial do investigado, persiste a recusa epistêmica em reconhecer a luz dos fatos, optando-se pela permanência confortável diante das sombras narrativas projetadas pelos líderes do movimento.

Veja-se, a propósito, que as reações no seio do bolsonarismo variam da defesa cega à tentativa de mudança de foco, passando por discursos cautelosos ou estratégias de “efeito espelho”, sintomatologia que, em chave platônica, corresponde justamente à reação dos cativos da caverna diante do prisioneiro liberto.

Cumpre acrescentar que, para desacreditar a denúncia, parlamentares e influenciadores alegam que a negociação teria ocorrido antes de Vorcaro se tornar alvo de investigações, o que as reportagens indicam não ser verdadeiro, e sustentam que a produtora do filme negou ter recebido os pagamentos, ignorando outros elementos que apontariam para a existência dos repasses.

Por conseguinte, o esforço narrativo opera não para iluminar, mas para reforçar as correntes, produzindo novas sombras que substituem, no imaginário do cativo, a evidência empírica que poderia libertá-lo.

Forçoso reconhecer, à luz do exposto, que o fenômeno transcende o caso individual e revela uma patologia da formação democrática contemporânea: a substituição da prova pelo pertencimento, da evidência documental pelo dogma identitário.

Quando Flávio Bolsonaro chegou a escrever, em aplicativo de mensagens, “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, enquanto Vorcaro tentava deixar o País, expôs-se algo que ultrapassa o ilícito tipificável: revelou-se a moldura afetiva e clientelística da relação.

Todavia, mesmo essa franqueza documental tende a ser ressignificada pelo eleitor cativo como prova de lealdade pessoal, virtude moral ou perseguição política, qualquer coisa, enfim, menos o que objetivamente representa.

Assim como o prisioneiro platônico prefere a sombra à luz porque a sombra não fere os olhos, o eleitor capturado pela mítica do líder prefere a versão que confirma sua identidade política àquela que a desestabiliza, pois a verdade, quando contraria convicções profundas, dói, e dói exatamente como Platão descreveu há mais de dois milênios.

Com efeito, o caso de Flávio-Vorcaro não é apenas mais um capítulo das relações promíscuas entre política e mercado financeiro brasileiro, mas também um experimento sociológico em tempo real sobre os limites da racionalidade compartilhada.

Resta saber, portanto, se as instituições, Ministério Público, Polícia Federal e eventual CPI do Banco Master, conseguirão produzir, ao final, uma narrativa fática suficientemente robusta para perfurar a parede da caverna; ou se, ao contrário, o Brasil seguirá assistindo à projeção contínua das sombras, com a multidão aplaudindo, no escuro, o ilusionista que lhe vende a escuridão como liberdade.

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