Artigos e Opinião

EDITORIAL

O minério e uma nova fronteira industrial

Agora, o desafio é dar um passo além. O aumento da produção de matérias-primas é um avanço importante, mas ainda insuficiente, é preciso mais

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O anúncio do aumento expressivo na exploração de minério de ferro em Mato Grosso do Sul é um marco relevante para a economia estadual e merece uma análise mais profunda. Nesta edição, mostramos que a produção deve crescer de forma significativa, o que representa mais do que um simples avanço setorial.

Trata-se de uma oportunidade concreta de geração de riqueza, ampliação de arrecadação e fortalecimento da atividade econômica, especialmente em regiões que historicamente carecem de investimentos estruturantes.

O impacto direto dessa expansão se dá em Corumbá, município em que o minério é extraído. O crescimento da produção tende a impulsionar o produto interno bruto (PIB) local, a ampliar a arrecadação de tributos e a estimular uma cadeia de serviços que envolve transporte, manutenção, comércio e prestação de serviços especializados.

Para o Estado, significa também aumento de receita, maior circulação de capital e fortalecimento de empresas que já atuam ou que podem passar a atuar em Mato Grosso do Sul atraídas por esse novo cenário.

Há ainda um efeito regional importante. Enquanto o leste do Estado vem colhendo, nos últimos anos, os frutos do boom da indústria de celulose, com investimentos bilionários e transformação econômica acelerada, o oeste passa a ganhar protagonismo com a mineração.

sse equilíbrio regional é saudável e necessário, pois reduz desigualdades internas e distribui melhor as oportunidades de desenvolvimento entre diferentes áreas do território sul-mato-grossense.

Entretanto, o avanço da extração de minério de ferro também impõe desafios. A experiência recente com a celulose mostra que se limitar à produção de matéria-prima não é suficiente para garantir desenvolvimento de longo prazo.

O momento é oportuno para discutir um novo ciclo de industrialização no Estado, baseado na agregação de valor aos produtos que daqui são extraídos. Exportar apenas minério bruto ou celulose in natura significa abrir mão de empregos, renda e tecnologia que poderiam permanecer em solo sul-mato-grossense.

No caso do minério de ferro, o aumento da produção deveria caminhar lado a lado com políticas de incentivo à instalação de siderúrgicas e unidades de beneficiamento. O processamento dos subprodutos do minério amplia a cadeia produtiva, gera empregos mais qualificados e aumenta significativamente a arrecadação.

Cada etapa adicional realizada dentro do Estado representa mais robustez econômica e menor dependência de ciclos externos.

O mesmo raciocínio se aplica à celulose, setor já consolidado em Mato Grosso do Sul. A próxima fronteira não deve ser apenas produzir mais, mas produzir melhor e com maior valor agregado: papéis especiais, embalagens, compostos e outros derivados que ampliem o parque industrial e diversifiquem a base econômica estadual.

Mato Grosso do Sul já demonstrou capacidade de atrair grandes investimentos e criar um ambiente favorável aos negócios. O crescimento da mineração no oeste e da celulose no leste confirma isso. Agora, o desafio é dar um passo além.

O aumento da produção de matérias-primas é um avanço importante, mas ainda insuficiente. Há espaço – e necessidade – para fazer mais, transformando esse crescimento em um processo consistente de industrialização e desenvolvimento sustentável para todo o Estado.

ARTIGOS

Free Flow: avanços e desafios

Introduzido no Brasil, o modelo visa promover maior justiça tarifária, melhorar a fluidez do tráfego, reduzir a poluição e aumentar a segurança viária

31/12/2025 07h45

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O sistema de pedágio sem cancela, conhecido como free flow, permite a cobrança de pedágios por meio da identificação automática dos usuários, sem a necessidade de paradas dos veículos. Introduzido no Brasil por meio da Lei nº 14.157/2021, o modelo visa promover maior justiça tarifária, melhorar a fluidez do tráfego, reduzir a poluição e aumentar a segurança viária.

Em 2023, a Resolução Contran nº 984/2022 passou a regulamentar a operação do referido sistema de cobrança, dispondo, principalmente, sobre a tecnologia de identificação de veículos Optical Character Recognition (OCR), a necessidade de adaptação da sinalização viária e os meios e prazos para pagamento da tarifa de pedágio pelo usuário.

Além da normatização do tema, a ANTT iniciou o projeto de ambiente experimental regulatório (Sandbox Regulatório) para implantação experimental de pórticos do free flow na BR101/RJ, objeto da concessão da BR-116/101/SP/RJ.

Desde o início da operação do Sandbox Regulatório, em março de 2023, a ANTT tem monitorado os resultados da crescente adaptação da sociedade e dos gestores públicos com o novo modelo de cobrança, tais como: taxa de identificação dos veículos superior a 99%, queda na evasão do pedágio e redução do tempo médio para pagamento das tarifas pelos usuários.

A ANTT passou também a regulamentar o tema por meio da terceira norma do Regulamento das Concessões Rodoviárias (Resolução nº 6.032/2023 – RCR 3), possibilitando a adesão do free flow por outras concessionárias, fora do ambiente experimental regulatório.

Além disso, a maturação do projeto de Sandbox Regulatório na BR101/RJ contribuiu para a evolução operacional do free flow e, consequentemente, para a melhor normatização do tema.

Em outubro de 2024, foi publicada a Resolução Contran nº 1.013/2024, que melhor detalha os equipamentos a serem implementados para a identificação de veículos e registros das transações e amplia os meios e prazos de pagamento da tarifa pelos usuários.

A ANTT também tem desenvolvido um regulamento específico para o sistema free flow que, se aprovado, revogará as disposições do RCR 3.

A minuta da nova resolução foi objeto da Audiência Pública ANTT nº 10/2024 e dispõe, em síntese, sobre: sistemas a serem implementados pela concessionária; tratamento dos registros das transações; parâmetros operacionais a serem atendidos pela concessionária; meios de cobrança da tarifa; formas e prazos de pagamento; descontos tarifários; atendimento aos usuários; distribuição de riscos; e migração do sistema de cobrança convencional para o sistema de fluxo livre.

Apesar do estágio inicial dos avanços regulatórios e operacionais, o free flow já é uma realidade nas rodovias brasileiras. As recentes concessões rodoviárias modeladas e licitadas pelos estados de São Paulo e Minas Gerais, a exemplo do Lote Noroeste Paulista e Lote 2 – Sul de Minas, respectivamente, já contam com o sistema de pagamento sem cancela.

Há o desafio, no entanto, de o referido sistema se consolidar no Brasil como um free flow “puro”, ou seja, com cobrança proporcional à quilometragem efetivamente percorrida. Hoje, muitos modelos adotam tarifas fixas por um “trecho fechado”, o que limita o potencial de justiça tarifária que se pode alcançar com o modelo de cobrança.

Para atingir plenamente seus objetivos, é fundamental que o País invista na padronização tecnológica e, principalmente, na modelagem econômico-financeira de projetos que reflitam modelos tarifários mais sofisticados e justos aos usuários.

Outro desafio é a criação de incentivos e formas mais eficientes de cobrança e pagamento, considerando que grande parte da frota nacional não aderiu ainda a formas de registro e pagamento eletrônico (tags), o que pode gerar inadimplência e impactos ao equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão.

ARTIGOS

Ano novo, pressão velha: por que seguimos sofrendo com metas?

A tradição das resoluções de Ano Novo, uma herança ancestral, oferece a ilusão de recomeço com a simples virada do calendário

31/12/2025 07h30

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A cada virada de ano, somos bombardeados por listas de metas – emagrecer, cuidar da saúde, guardar dinheiro, ler mais, ser produtivo...

A tradição das resoluções de Ano Novo, uma herança ancestral, oferece a ilusão de recomeço com a simples virada do calendário. No entanto, eis a verdade incômoda: a maioria esmagadora falha.

Segundo pesquisas recentes, cerca de 80% das pessoas abandonam as resoluções ainda no primeiro mês. Por que insistimos nessa autoimposição mesmo sabendo dessas estatísticas? Porque a sociedade, e nós mesmos, transformamos o começo de ano em sinônimo de redenção pessoal.

A pressão é dupla: externa (redes sociais, marketing de saúde, expectativas sociais) e interna, que a psicologia chama de pressão autoimposta.

Do ponto de vista psicológico, há vários elementos de risco nesse ritual anual. Metas vagas e genéricas, sem um plano concreto, são um deles. Prometer ser saudável ou mudar de vida é fácil, mas sem um caminho claro, a chance de desistência é maior.

O perfeccionismo e o pensamento do “tudo ou nada”, definindo medidas radicais – vou meditar todos os dias, vou me exercitar cinco vezes por semana, nunca mais vou comer doce – criam uma armadilha: qualquer escorregada vira fracasso absoluto.

A falta de conexão profunda com o sentido e os valores pessoais, o que, para a logoterapia, é decisivo. Quando metas são motivadas por culpa, vergonha, comparação ou obrigação social, e não por significados autênticos, se tornam superficiais.

A logoterapia, proposta pelo psicólogo Viktor Frankl, surge como antídoto, dando um sentido à vida. Em vez de pensar em metas como listas de tarefas, deveres ou projetos de autopromoção, deveríamos buscar orientações existenciais: o que faz a vida valer a pena para mim

 Quais valores me sustentam? Que tipo de pessoa quero ser, e não apenas o que quero conquistar? Quando metas anuais são baseadas em sentido, tornam-se faróis, não correntes que nos sufocam.

A mudança deixa de ser um espetáculo para os outros, e o novo corpo, a nova rotina e o novo status passam a ser um gesto autêntico de autotransformação.

Além disso, os dados mostram que muitas pessoas abandonam essas promessas porque simplesmente não consideram o desgaste psicológico envolvido – estresse, culpa, ansiedade e autojulgamento. Sob pressão, o aparelho psíquico, que deveria nos sustentar na mudança, colapsa. E o ciclo se repete, ano após ano.

Entretanto, há algo de ainda mais profundo e perturbador nessa tradição: ela legitima a ideia de que ser feliz, produtivo, saudável ou melhor só é possível se a pessoa organizar a vida por metas externas e prazos.

Isso conflita com o que a psicologia e a logoterapia ensinam, que a existência humana não se mede em marcos de produtividade, mas em significado, em relação, em profundidade de viver e, sobretudo, em compaixão consigo mesmo.

Portanto, aqui vai o provérbio necessário – pare de ver o Ano Novo como salvador ou como pontapé inicial, que só alimenta uma sociedade obcecada por metas e resultados rápidos. Em vez disso, use cada dia como chance de recomeço.

Concentre-se no que realmente importa para você, no que ecoa com os seus valores e no que dá sentido à sua existência. Porque só existe um tipo de meta que vale a pena: aquela que nasce da alma, não da pressão do calendário. E que, no limite, não transforma apenas o corpo ou a planilha, mas a vida.

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