Artigos e Opinião

EDITORIAL

Pantanal cobrou a conta da negligência

Relatório do TCU expõe falhas históricas na prevenção e no combate a queimadas no bioma, apesar do discurso oficial de proteção ambiental

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O Pantanal, um dos biomas mais ricos e simbólicos do planeta, voltou a expor uma contradição incômoda: enquanto é exaltado em discursos e campanhas de marketing, segue historicamente negligenciado nas políticas públicas.

Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), revelado com exclusividade nesta edição do Correio do Estado, escancara que o poder público – especialmente o governo federal – poderia ter feito muito mais para prevenir e mitigar as catástrofes ambientais que se repetem ano após ano na região.

Os dados apontam falhas graves e persistentes desde o fim da década passada, até o início desta década. Recursos escassos, ações fragmentadas e ausência de planejamento estruturado marcaram tanto a administração anterior quanto a atual.

Em um bioma extremamente sensível às variações climáticas, essa omissão cobra um preço alto. As queimadas recorrentes, a perda de biodiversidade e o avanço da degradação não são acidentes inevitáveis: são consequências de escolhas políticas.

O Pantanal está mais seco. Essa é uma constatação técnica, científica e empírica. Mesmo quando as cheias parecem retornar em determinados períodos, o volume de água já não é o mesmo de 20 anos atrás. Há menos água nos rios, menos áreas alagadas e mais vegetação vulnerável ao fogo.

Ainda assim, chama a atenção o fato de que setores responsáveis pela gestão ambiental insistam, por vezes, em minimizar ou relativizar os efeitos das mudanças climáticas, quando o bioma é um dos que mais evidenciam essa transformação.

O relatório do TCU mostra que faltaram investimentos consistentes em prevenção, monitoramento e resposta rápida.

Não se trata apenas de apagar incêndios, mas de criar condições para que eles não ocorram com tamanha frequência e intensidade. Isso envolve manejo adequado, fiscalização efetiva, apoio aos produtores locais e integração entre União, estados e municípios. Nada disso foi feito na escala necessária por anos seguidos.

Há, contudo, sinais recentes de inflexão. Desde 2024, observa-se uma tentativa de reversão dessas políticas, com a criação e o fortalecimento de leis estaduais e federais voltadas à proteção do Pantanal.

Esses marcos legais são fundamentais, mas não suficientes. A lei precisa sair do papel, ganhar orçamento, pessoal técnico e, sobretudo, prioridade política.

O Pantanal não precisa de slogans. Precisa de ação contínua, baseada em ciência, planejamento e compromisso de longo prazo. Que este bioma tão castigado possa se recuperar. E que a proteção deixe de ser apenas discurso e passe a existir de forma concreta nas decisões e nos investimentos do poder público.

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ARTIGOS

Será mesmo que o trabalho é um vilão?

Trabalho é espaço de desenvolvimento cognitivo, emocional e social. É onde nos desafiamos, crescemos, criamos vínculos, aprendemos a lidar com metas, com feedbacks, com frustrações e vitórias

02/01/2026 07h45

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Nos últimos tempos, tenho escutado com frequência um discurso que me incomoda: o de que o trabalho é, por natureza, opressor. Que é fonte inevitável de sofrimento. Que precisamos escapar dele para sermos felizes. Com todo o respeito, eu discordo.

Eu sou uma mulher que ama trabalhar, sempre amei. Desde o meu primeiro estágio até hoje como CEO, o trabalho sempre foi, para mim, fonte de orgulho, propósito e realização.

Nunca vivi em um ambiente tóxico e nunca adoeci por causa do trabalho. Pelo contrário: sempre encontrei no trabalho um espaço para crescer, contribuir e construir. Trabalhei muito, sim, e com paixão. Com entrega e com desejo sincero de fazer a diferença.

Talvez por isso a cena que vivi recentemente em um bar tenha me tocado tanto: um barman produzindo drinks sem parar, com uma habilidade quase coreografada. Sabia todas as receitas de cor e movia-se com fluidez, como num espetáculo.

Sorria o tempo todo e interagia com leveza. Estava claramente em flow, aquele estado de máxima concentração e prazer descrito por Mihaly Csikszentmihalyi. E eu pensei: ele ama o que faz e por isso entrega tanto.

E é exatamente assim que sempre me senti. Claro que ambientes e culturas variam. Claro que existem empresas que precisam mudar. Mas não podemos cair na armadilha de demonizar o trabalho em si.

O trabalho é um espaço de desenvolvimento cognitivo, emocional e social. É onde nos desafiamos, crescemos, criamos vínculos. É onde aprendemos a lidar com metas, com feedbacks, com frustrações e vitórias. Onde conhecemos pessoas que carregamos pela vida, e onde, muitas vezes, descobrimos quem somos.

E quando ele falta o impacto é real. O suicídio é hoje a terceira causa de morte entre jovens de 10 anos a 24 anos no Brasil. Entre os idosos, 27% dos suicídios globais ocorrem após os 60 anos. Em ambos os casos, a ausência de trabalho, de rotina e de pertencimento é um fator agravante.

A ergonomia nos ensina que tanto a sobrecarga quanto a infracarga são riscos psicossociais. A falta de desafio, a ausência de propósito, o excesso de ociosidade também adoecem.

Não é o trabalho que adoece. É o despreparo de algumas lideranças. É a ausência de escuta. É o desrespeito aos limites. Mas o trabalho, em si, é um dos instrumentos mais potentes de saúde e dignidade que temos.

Acredito que as empresas têm, sim, um papel social fundamental. Elas podem e devem ser lugares de cuidado. Mas isso só será possível quando reconhecermos que o trabalho não é o vilão da história. Ele pode, inclusive, ser o herói. A pergunta que fica é: o problema está no trabalho ou na forma como o 
conduzimos?

ARTIGOS

Fé e razão no século 21

Senso comum afirma que tem pouca razão aqueles que tem muita fé numa divindade pessoal, ou seja, crente é um bicho que não pensa bem

02/01/2026 07h30

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Você é daqueles que tem fé na razão ou está entre aqueles que acham que tem razão por não ter fé?

O senso comum – que pode ser observado desde os setores mais populares até os ambientes considerados culturalmente mais sofisticados e intelectualizados da sociedade – afirma que tem pouca razão aqueles que tem muita fé numa divindade pessoal, ou seja, crente é um bicho que não pensa bem.

O mesmo senso comum também afirma que as pessoas de razão iluminada são aquelas que não precisam de fé, pelo menos não a mesma fé que caracteriza os crentes.

Entretanto, será que as coisas são assim mesmo? Seria a fé a inimiga da razão? De que tipo de fé estamos falando? A razão seria uma realidade neutra? A confiança na razão não seria um tipo de fé? Que relação existe entre fé e razão? É possível viver sem fé?

Norman Geisler e Frank Turek, dois acadêmicos crentes, escreveram um livro, cujo título nos provoca à reflexão sobre a tão debatida relação entre fé e razão.

Trata-se da obra “Não Tenho Fé Suficiente para Ser Ateu”. Richard Dawkins, famoso cientista e militante do ateísmo, escreveu um livro chamado “Deus, um Delírio”, advogando a ideia de que deliram aqueles que creem num Deus pessoal que criou todo o universo e que demanda responsabilidade de suas criaturas.

Alister McGrath, professor da Universidade de Oxford (mesma universidade em que trabalha Dawkins), com Joanna McGrath, escreveram a obra “O Delírio de Dawkins: uma Resposta ao Fundamentalismo Ateísta de Richard Dawkins”.

O falecido teólogo, escritor e capelão da rainha da Inglaterra, John Stott, tratou sobre o lugar da mente entre os que creem em sua obra “Crer É Também Pensar”, e o professor emérito da Universidade de Oxford John Lennox escreveu “A Ciência Pode Explicar Tudo?” para mostrar as possibilidades e os limites da ciência.

A lista, com nomes de crentes (inimigos da razão) e mentes iluminadas (que não precisam de fé), poderia continuar, mas os nomes e as obras supracitadas são suficientes para mostrar, mesmo que inicialmente, o quão distantes da realidade estão aqueles que acham que a fé é inimiga da razão e que é possível viver sem fé, além do fato de que falta luz em muitas mentes iluminadas, e que muitos crentes pensam muito bem, embora haja exceções.

Em algum nível, fé e razão sempre se relacionaram ao longo da história. Algumas questões que devem ser levantadas são: qual é o objeto de sua fé: Deus (o Criador) ou o homem (ou algum elemento da criação)? A razão é suficiente para fornecer todas as respostas feitas pelo homem ou existem questões que estão além de sua esfera de atuação?

Desconfie, com sabedoria, do senso comum (principalmente aqueles que são proclamados com ares de superioridade cultural), pois nem sempre o senso comum reflete o bom senso. Obviamente, não pense que esse desconfiar se trata de um exercício simples e meramente racional, essa é uma tarefa necessária e possível.

Para isso, é preciso o bom uso da razão, a partir de uma fé que, em sua essência, não é nem racional e nem irracional, mas suprarracional (vai além da razão). Como identificar esse tipo de fé? Embora não tenhamos espaço para tratar de tudo aqui, é possível indicar um caminho seguro.

No livro dos crentes, um homem chamado Tomé indagou a Jesus perto de sua morte com as seguintes palavras: “Senhor, não sabemos para onde vais, como saber o caminho?” E o Mestre deu a seguinte resposta: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”.

A citação acima prova o que? Alguém pertinentemente poderia perguntar. Parafraseando C. S. Lewis, outro acadêmico crente de Oxford: ou Jesus era um mentiroso (ele mentia conscientemente sobre quem ele era), ou ele era um lunático (ele estava enganado sobre quem ele era), ou ele era exatamente quem ele dizia ser: o (único) caminho, a (única) verdade e a (única) vida.

Ele não nos deu a opção de ser considerado um grande mestre da moral ou uma boa pessoa (lembre-se: não se crucificam boas pessoas, mas se crucificam ameaças e gente perigosa, correto?). Perceba que no argumento acima fé e razão estão presentes.

No fim das contas, todos nós cremos: ou no Deus que nos criou à sua imagem e semelhança, ou em nós mesmos (que criamos deuses a nossa própria imagem e semelhança e tratamos coisas criadas, como a razão, como entes divinos).

Em quem você crê? Que tipo de gente é você?

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